Notícias

Jornal Eletrônico da SBPC/PE #3 Ano: 2

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Notícias:

TROÇA “COM CIÊNCIA NA CABEÇA E FREVO NO PÉ” AGITOU GARANHUNS.
Site do Espaço Ciência

A NOVA MULHER PENSADORA DO SÉC. XXI
Sérgio Mascarenhas  Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

EDUCAÇÃO: REFORMA OU REVOLUÇÃO?
Isaac Roitman, UnB Notícias

NOS 20 ANOS DA MORTE DE DARCY RIBEIRO, UMA ENTREVISTA IMAGINÁRIA
Jorge Gil - http://noticias.unb.br//publicacoes/39-homenagem/1261-nos-20-anos-da-morte-de-darcy-ribeiro-uma-entrevista-imaginaria

ENFERMEIRO CEARENSE É PREMIADO COM MELHOR TESE EM SAÚDE COLETIVA DO PAÍS
Gisele Soares, Nossa Ciência, Edição 62 – Ano 3

PROFESSOR BRASILEIRO CONCORRE A MELHOR PROFESSOR DO MUNDO
Gabrieka Varella, Revista Época

QUEM É HANAN AL-HROUB, A MELHOR PROFESSORA DO MUNDO DE 2016
Flávia Yuri Oshima, Revista Época

SEGUNDO PREVISÃO CLIMÁTICA DO MCTIC, SECA NO SEMIÁRIDO NORDESTINO DEVE SE AGRAVAR ATÉ MAIO
 Ascom do MCTIC

ESTUDO REVELA QUE POVOS PRÉ-COLOMBIANOS MOLDARAM A FLORA DA FLORESTA AMAZÔNICA
Lucile Pedrosa*, EcoDebate

CIENTISTAS DESENVOLVEM PRIMEIRO EMBRIÃO 'ARTIFICIAL'
Jornal do Brasil

CIENTISTAS CONSEGUEM ADESTRAR ABELHAS
Correio Braziliense

ABELHAS, AS PRIMEIRAS VÍTIMAS DO APOCALIPSE APONTADO NO ‘RELÓGIO’ DOS CIENTISTAS?
Revista do Meio Ambiente, Edição 97

SUL-AMERICANOS E ASIÁTICOS COM ANCESTRAL COMUM
Correio Braziliense

DISTANCIAMENTO DA NATUREZA: OS RESPONSÁVEIS SOMOS NÓS MESMOS
Tereza Magro*, Correio Braziliense

BIOPNEUS: PNEUS RENOVÁVEIS FEITOS DE BIOMASSA
Site Inovação Tecnológica

 


TROÇA “COM CIÊNCIA NA CABEÇA E FREVO NO PÉ” AGITOU GARANHUNS.
Site do Espaço Ciência

A troça carnavalesca “Com ciência na cabeça e frevo no pé”, que já desfilou três vezes pelas ruas de Garanhuns, voltou a agitar a semana pré-carnavalesca do município. No dia 22.02.2017, a troça, fruto da parceria entre o Espaço Ciência, SBPC e Prefeitura de Garanhuns, desfilou mais uma vez abrindo o carnaval da cidade.

O objetivo da troça é aproveitar a folia e a animação carnavalesca para estimular o interesse pelo conhecimento científico. Junto com a Orquestra Manoel Rabêlo e os foliões, seguiram bonecos gigantes de cientistas como Naíde Teodósio, Charles Darwin, Aziz Ab’Saber, Ricardo Ferreira, Albert Einstein, Milton Santos, dentre outros.

A troça, que abre a programação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, coordenada pelo Espaço Ciência, desfilou pela primeira vez em 2005, no campus da UFPE, durante o encerramento de uma reunião regional da SBPC que coincidiu com a semana pré-carnavalesca. Ao som da Frevioca e acompanhada pelo Rei Momo e a Rainha do Carnaval, apresentou o primeiro boneco-gigante da troça: Albert Einstein, pois era o centenário da teoria da relatividade.

Desde então, a cada ano, um cientista é homenageado com boneco-gigante, que passa a integrar o cortejo carnavalesco. Os bonecos têm animado as reuniões anuais da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), já estiveram presentes na Conferência RIO + 20 e em vários encontros e congressos científicos. Ilustraram, inclusive, um cartão natalino da União Européia de Ciências.

Com o desfile em Garanhuns, pela quarta vez, a troça “Com ciência na cabeça e frevo no pé” cumpre o objetivo do Espaço Ciência de ampliar a interiorização das ações de divulgação científica.



A NOVA MULHER PENSADORA DO SÉC. XXI
Sérgio Mascarenhas  Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


                                                                               EVA                         JANUS                 MULHER-PENSADORA

 

Crônica dedicada à grande cientista,líder da Comunidade Cientifica Brasileira Profa. Helena B. Nader em nome de quem saudamos todas as mulheres cientistas, tecnólogas e educadoras.

A saga da “femina-sapiens-sapiens” é de luta e sofrimento para a libertação do jugo do “homo-sapiens-sapiens”.  Beneficiado por uma estrutura corporal de maior força física, além de outras causas sociais mais complexas, o macho ao assumir o seu papel de provedor, transformou a nucleação da família em território de poder e dominação.

Paradoxalmente a mulher, na sua função biológica de geradora, é muito mais complexa que o homem! Todos nascemos fêmeas, o macho é uma variante tardia na evolução embriológica como é patente nos seus bicos dos seios inúteis remanescentes. Essa unidade macho-fêmea com sua relação de poder assimétrica, propagou-se sociologicamente para a família, clã, tribo até alcançar a complexidade maior do Estado-Nação onde através de séculos a mulher foi mantida como geradora, objeto de uso sexual, excluída do poder em todos os seus mais importantes aspectos. Excluída do direito político e do direito de compartilhar da maior fonte de poder potencial que é o do conhecimento pela educação.

Ainda em pleno século XX o voto feminino era interditado em países ditos avançados, como a Suíça! No século XXI felizmente as mulheres estão gradualmente assumindo sua mais ampla potencialidade, não apenas de geradoras de vida, mas da função mais essencial da própria vida: de geradoras de conhecimento. Da mulher objeto representada pela figura de Eva da maçã, do pecado original, passa na minha ilustração-metafórica à antítese da famosa escultura de Rodin, a Mulher-Pensadora.

Na ilustração, contrastam nos dois olhares do Deus Janus-bifronte, o do passado: Eva da maçã e do futuro Mulher-Pensadora do século XXI, significativamente sentada na maçã, indicativa da nova linguagem global e democratizante da internet da era do conhecimento.

 

 

EDUCAÇÃO: REFORMA OU REVOLUÇÃO?
Isaac Roitman, UnB Notícias, 02/03;2017

Recentemente, através da medida provisória 746, foi aprovada a Reforma do Ensino Médio. O argumento que esse tipo de reforma não deveria ser encaminhada por medida provisória e que deveria ser mais discutida pela sociedade tem sido usado por pessoas e entidades. Porém, vale a pena recordar que a melhoria da educação brasileira vem sendo discutida desde 1932 e que no Manifesto dos Pioneiros da Educação o diagnóstico foi feito e as soluções foram propostas. De lá para cá, o que observamos é que a nossa educação não melhorou. As escolas produzem um número razoável de analfabetos funcionais, os estudantes estudam para fazer provas e os egressos de nosso ensino básico não estão devidamente qualificados para o mercado de trabalho ou para o ingresso nas universidades e são desprovidos de valores como a ética, a solidariedade, o desapego, entre outros. Em adição, nossos Professores não têm o reconhecimento de seu trabalho social e estão cada vez mais desencantados.

É legítimo afirmar que a reforma do ensino médio promove avanços como o tempo integral, a flexibilização e a introdução de itinerários formativos. É também pertinente indagar as razões do ensino médio ter sido o foco da reforma. Provavelmente pelos altos índices de reprovação e evasão pelos resultados negativos de avaliação no IDEB (Índice de desenvolvimento da educação básica). Uma pergunta então emerge: De que adianta formatarmos um excelente ensino médio para egressos do ensino fundamental totalmente despreparados?

A resposta a essa questão nos leva a conclusão que todo o sistema educacional precisa ser novamente construído, não através de tímidas reformas, mas, sim, através de uma verdadeira revolução. A educação deverá ser um dever do Estado desde a Primeira Infância, em que a brincadeira deve ser o principal instrumento pedagógico. O ensino infantil deve ser emoldurado pela alegria, pelo contato com a natureza, pela socialização em um cenário de atividades artísticas (música, dança, pintura, cinema etc.) e esportivas. No ensino básico e superior devemos ter o protagonismo dos estudantes através do estudo de temas e resolução de problemas do cotidiano em substituição a aula expositiva. As famílias serão parceiros, ou melhor, cúmplices, na construção de uma educação de qualidade.

É chegada a hora de romper com o tradicional iluminismo educacional que insiste na transmissão de conteúdos e na formação social individualista e uma mídia perversa que constrói uma sociedade para servir ao mercado. É pertinente lembrar o pensamento de John Dewey, com quem Anísio Teixeira conviveu: “A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida”. Vamos todos participar dessa revolução.


Isaac Roitman é doutor em Microbiologia, Professor Emérito da Universidade de Brasília, coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro (n.Futuros/CEAM/UnB), presidente do Comitê Editorial da Revista Darcy/UnB e membro tiular de Academia Brasileira de Ciências. Ex-decano de Pesquisa e Pós-Graduação da UnB, ex-diretor de Avaliação da CAPES, ex-coordenador do Grupo de Trabalho de Educação, da SBPC, ex-sub-secretário de Políticas para Crianças do GDF. Autor, em parceria com Mozart Neves Ramos, do livro A urgência da Educação.

 


NOS 20 ANOS DA MORTE DE DARCY RIBEIRO, UMA ENTREVISTA IMAGINÁRIA
Jorge Gil - http://noticias.unb.br//publicacoes/39-homenagem/1261-nos-20-anos-da-morte-de-darcy-ribeiro-uma-entrevista-imaginaria

O idealizador da UnB, que morreu em 17 de fevereiro de 1997, vítima de câncer, renasce pela voz do professor Isaac Roitman

Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca. Darcy Ribeiro

 

Darcy Ribeiro (1922-1997). Foto: Cedoc/Arquivo Central UnB


A convite da Secretaria de Comunicação, o professor Isaac Roitman aceitou o desafio: encarnar Darcy Ribeiro, o antropólogo, o escritor, o visionário fundador da Universidade de Brasília. "Durante uma semana, me dediquei integralmente à tarefa de mostrar que Darcy Ribeiro continua vivo", conta Roitman, professor emérito da UnB, coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro (n-Futuros/CEAM-UnB), pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e membro do Movimento 2022 – O Brasil que queremos.
 
Entre 1966 e 1995, na Universidade do Terceiro Milênio, Roitman manteve permanente contato com o autor de O povo brasileiro, Utopia selvagem e Maíra, entre outras obras. Darcy Ribeiro morreu no dia 17 de fevereiro de 1997, aos 74 anos de idade, vítima de câncer. Estava internado no Sarah, em Brasília. Segundo boletim oficial do hospital, teve uma morte "tranquila e sem sofrimento". Hoje, Darcy ressurge para falar de passado, presente e futuro. Permanece inquieto, indígena e educador. E, claro, para sempre pleonasticamente imortal.
 
Como foi a experiência de ser um dos idealizadores e o primeiro reitor da Universidade de Brasília?
Exerci o cargo de reitor em dois períodos. O primeiro foi de 5 de janeiro de 1962 até 19 de setembro do mesmo ano. Fui sucedido, na reitoria, por Frei Mateus Rocha, que dirigiu a UnB até 24 de janeiro de 1963, quando então reassumi a reitoria, até o dia 19 de junho de 1963. Meu envolvimento com a UnB foi precedido de muita reflexão e muito trabalho.
 
Poderia falar um pouco dessa, digamos, "pré-história"?
Antes da criação da Universidade de Brasília, eu já estava emocionalmente envolvido na utopia de Juscelino Kubitschek de mudar a capital para o centro do Brasil. Eu trabalhava no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, que tinha o encargo de planejar o ensino fundamental e médio da nova capital, sob a direção de Anísio Teixeira. Comecei então a arguir sobre a necessidade de criar também uma universidade e sobre a oportunidade extraordinária que ela nos daria de rever a estrutura obsoleta das universidades brasileiras, criando uma universidade capaz de dominar todo o saber humano e de colocá-lo a serviço do desenvolvimento nacional. Encontrei logo adesões e oposições. Essas últimas partiram de assessores de JK, que queriam a nova capital livre de badernas estudantis, assim como de greves dos operários fabris. Foram crescendo, porém, as ondas de apoio, que vinham, sobretudo, dos grandes cientistas brasileiros, que se juntavam na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. O decisivo, porém, foi alcançar o apoio de Cyro dos Anjos e de Victor Nunes Leal, subchefe e chefe da Casa Civil, respectivamente. Ambos passaram a falar ao presidente da República do imperativo de se criar uma universidade em Brasília. Conseguiram até que ele, por decreto, me desse o encargo de projetar uma universidade para a nova capital. Eu andava sempre pelo Palácio do Catete, como encarregado que era de colaborar na redação das mensagens presidenciais, inclusive de redigir o capítulo da Educação. Nesse trabalho, atribuindo ideias à Presidência da República, é que me aprofundei no estudo dos sistemas educacionais, inclusive das formas de organização das universidades.
 
Mas não parou por aí, certo?
Não, não parou. Armado com a autoridade que me dava o referido decreto, passei a reunir cientistas, artistas, filósofos para discutir a forma que deveria ter a futura universidade. Terminei por redigir um documento muito divulgado, que englobava uma crítica severa à universidade que tínhamos e a proposição de uma universidade de utopia. Nisso estávamos, quando fui chamado ao Catete para falar com o presidente. Ele me disse que tinha sido procurado por Dom Hélder Câmara, que lhe comunicara o propósito que tinha a Companhia de Jesus de criar em Brasília uma universidade jesuítica, sem ônus para o governo, acrescentando que a principal universidade de Washington, nos Estados Unidos, era uma universidade católica. O presidente me disse que, entre meu projeto e o jesuítico, ele lavava as mãos. Suspeitei logo que ele já tivesse optado pelo projeto de uma universidade religiosa. Vivi uma semana de desespero, vendo ruir o sonho da minha universidade de utopia, que era já, então, a ambição maior da intelectualidade brasileira como caminho de renovação do nosso ensino superior e de desenvolvimento da ciência. No meio desse meu desengano, tive a ideia de apelar para os cães de Deus, os dominicanos, que tradicionalmente opunham reservas aos projetos jesuíticos. Procurei em São Paulo o Frei Mateus Rocha, e lhe expus o meu problema. Argumentei que o Brasil tinha oito universidades católicas, quatro delas pontifícias, que formavam farmacêuticos e dentistas, mas não formavam nenhum teólogo. Propus entregar aos dominicanos a criação de um Instituto de Teologia Católica dentro da Universidade de Brasília. Seria um ato revolucionário, porque a teologia, expulsa das universidades públicas desde a Revolução Francesa, a elas voltaria, justamente na mais moderna universidade que se estava criando naqueles anos. Houve reações adversas à minha iniciativa, inclusive a de um eminente cientista, que me acusava de trair a tradição laica da educação. Frei Mateus foi a Roma procurar o Santo Papa João XXIII, em companhia do Geral dos Dominicanos – o chamado Papa Branco – e lhe fez a entrega de minha proposta. Soube logo, por telegrama, que o papa tinha aquiescido. Tempos depois fui ao encontro de Frei Mateus, pedindo o documento papal. Ele me disse que o papa não escreve cartas nem faz promessas. Que toda a Igreja naquele momento sabia que não haveria universidade jesuítica em Brasília, estando aberto espaço para nós.

 

Darcy Ribeiro discursa durante a inauguração da Universidade de Brasília, em 1962, no auditório Dois Candangos. Foto: Cedoc/Arquivo Central UnB


 
O presidente Juscelino Kubitschek aceitou tudo isso de bom grado?
Enorme foi a surpresa de Juscelino quando lhe contei as minhas intenções. O que se seguiu, porém, foi um ato dele encarregando o ministro da Educação e um grupo de canastrões, inclusive Pedro Calmon – que era, havia dezoito anos, o reitor da Universidade do Brasil – de programar uma universidade para Brasília. Eu seria uma voz isolada naquela convenção, destinada a perder a parada. Minha reação foi escrever um documento dirigido aos principais cientistas e pensadores brasileiros, para comprometê-los com o projeto que eu havia elaborado e para o qual pediria o apoio da referida comissão. O certo é que a comissão acabou por mandar ao presidente o nosso projeto. Provavelmente porque a celeuma seria enorme se quisessem fazer em Brasília mais uma universidade federal. Em 21 de abril de 1960, Juscelino mandou ao Congresso Nacional uma Mensagem pedindo a criação da Universidade de Brasília. Seguiu-se para mim um longo trabalho, primeiro nas Comissões da Câmara dos Deputados, para conseguir a aprovação de uma lei libertária da criação em Brasília de uma universidade inovadora. Nesse trabalho, contei com a colaboração de San Tiago Dantas, que deu forma ao Projeto de Lei, instituindo a universidade como uma organização não governamental, livre e autônoma, de caráter experimental e dotada de imensos recursos para constituir-se e para funcionar.
 
O processo correu risco de parar com Jânio Quadros?
Ele, na verdade, me confirma, por decreto, como coordenador de planejamento da Universidade de Brasília. Em seu breve governo, adiantamos muito na fixação do terreno onde ficaria o campus da Universidade, entre a Asa Norte e o lago. Contribuiu poderosamente para isso o plano urbanístico da Universidade, proposto por Lúcio Costa. Nesse momento, vendo que a universidade era inevitável, Israel Pinheiro lhe concedeu um vasto terreno de seis quilômetros, localizado no eixo monumental. O propósito era afastar a agitação estudantil do centro de poder da capital. Aceitei a doação, destinando-a a criar ali um centro agrícola de estudo de tecnologias voltadas para o cerrado. No dia da renúncia de Jânio, passei no gabinete da Presidência e senti ali um ambiente de incontrolável tensão. Mas ninguém me adiantou nada. O secretário do presidente, José Aparecido de Oliveira, sugeriu que eu fosse para a Câmara dos Deputados. Lá, só lá, soube da renúncia... No meio de uma assembleia perplexa, porque havia acabado de aceitar a renúncia como um ato unilateral, que não cumpria discutir, mas apenas tomar conhecimento. A sessão estava por encerrar-se, o que ninguém queria.
 
Nesse clima, o que foi possível fazer?
Acerquei-me então do presidente da Mesa, o deputado Sérgio Magalhães, e pedi a ele que pusesse em discussão o projeto de criação da Universidade de Brasília, que era o número dezoito da Ordem do Dia. Ele reagiu instantaneamente, tratando-me de louco. Mas também instantaneamente percebeu que, ali, o único homem de juízo era eu. Mandou que eu descesse ao plenário para conseguir que um líder propusesse a mudança da Ordem do Dia. Quando eu ainda tentava convencer o deputado Josué de Castro, o presidente Sérgio Magalhães anunciou que, tendo sido aprovado o requerimento do líder do PTB, punha em discussão e mandava ler o projeto de criação da Universidade de Brasília. O que se seguiu foi o tumulto de uma Câmara que demorou alguns minutos a perceber do que se tratava, que era fazê-los exercer suas funções, discutindo uma lei de suprema importância. Os debates foram acalorados entre a UDN, como sempre contrária aos projetos do governo, e os outros partidos, com o pendor de aprová-lo. O mais veemente discurso contrário foi o do velho Raul Pilla, ponderando que, se nossos pais e avós mandavam seus filhos estudarem em Coimbra, bem poderia o povo de Brasília mandar os seus para as antigas universidades, sem incorrer no risco de criar aventureiramente uma universidade em uma cidade apenas nascente. Na votação, o projeto da Universidade de Brasília foi aprovado com grande margem favorável.
 
Sendo assim, faltava o Senado.
Comecei meu trabalho lá. O Senado aquiescia verbalmente às minhas proposições, mas não parecia disposto a aprovar o projeto. Procurei então o Hermes de Lima, pedindo conselhos. Ele me disse que tinha uma boa solução, mas estava certo de que eu não a acolheria: era procurar o líder Filinto Müller, pedindo que ele conduzisse o debate da universidade na casa. Fiquei horrorizado. Tratava-se de aproximar dois extremos simbólicos – o meu de esquerdista e o de Filinto Müller, direitista. Mas procurei o senador e pedi o seu apoio. O senador me convidou para um chá em sua casa, onde comemos os excelentes bolos que a sua senhora fazia. Mal ouviu parte da exposição que eu queria fazer, justificando a organização da nova universidade, e me disse: “Não se inquiete, professor. O problema agora é meu. Breve eu lhe farei saber quando será a discussão final em plenário.” Efetivamente, pouco tempo depois ele me chama, me faz sentar numa cadeira lateral para ouvir os debates sobre o projeto de criação da nova universidade. Eu os ouvia atentíssimo, sobretudo o senador Mem de Sá, que num longo discurso argumentava que, sendo o professor Darcy Ribeiro sabidamente um intelectual inteligente e competente; sendo também inegavelmente um homem coerente; e sendo, para arrematar, um reconhecido comunista, fiel ao marxismo, a universidade que propunha só podia ser uma universidade comunista. Como tal, inaceitável para o Senado Federal. Seguiu-se à votação. O projeto da universidade foi aprovado por imensa maioria. Eu tinha em mãos, pois, toda uma lei admirável que deveria pôr em execução.

À esquerda, de braços cruzados, Darcy acompanha sanção da lei de criação da Universidade de Brasília, em 1961. Foto: Cedoc/Arquivo Central UnB


 
O comunista venceu?
Sim! (Riso largo). Finalmente o meu sonho de criação de uma instituição moderna, que rompesse com os padrões estabelecidos para o ensino superior no Brasil, estava se realizando. Em 15 de dezembro de 1961, o presidente da República à época, João Goulart, autorizou a criação da universidade, sancionando a Lei nº 3.998. A nova universidade, então, nasceu inspirada no projeto interrompido da Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, que surgiu impulsionada por Anísio Teixeira para se contrapor às instituições existentes, consideradas obsoletas. Minha primeira providência foi discutir com Anísio Teixeira se o reitor deveria ser ele, que nesse caso teria de se mudar para Brasília, ou se seria eu. Anísio, em sua generosidade, aceitou o cargo de ser meu vice-reitor, o que comuniquei a Hermes de Lima e assim saiu o decreto do presidente João Goulart que me fazia fundador e primeiro reitor da Universidade de Brasília. O auditório Dois Candangos, onde aconteceu a cerimônia de inauguração do campus em 21 de abril de 1962, ficou pronto 20 minutos antes da festa. Recebeu esse nome em homenagem a dois trabalhadores que morreram soterrados no local durante a construção. Assim como Brasília, o campus era um grande canteiro de obras projetadas pelo Oscar Niemeyer, o pai dos principais monumentos da nova capital do país. Os estudantes de Engenharia e Arquitetura tinham aulas no campus, pois as obras serviam como aprendizado real. Os outros estudantes assistiam às aulas no Ministério da Saúde. Aos poucos, do caos de poeira e lama, surgiram pequenos prédios para: a Reitoria, a Biblioteca, os departamentos de Letras, de Ciências Humanas, de Arquitetura, de Física e de Matemática. A UnB introduziu estruturas inéditas em institutos, voltados para o conhecimento fundamental, e faculdades, mais para o trabalho prático, sendo o ensino pensado juntamente com a pesquisa. Essa nova concepção passou posteriormente nas reformas das demais universidades no país. O Plano Orientador da Universidade de Brasília, aprovado pelo conselho diretor da FUB, estabelecia que a nova universidade começaria a constituir-se em torno de oito institutos centrais, cujo desdobramento em departamentos e faculdades seria estabelecido oportunamente. Os meses e anos seguintes foram os da alegria de dar nascimento à Universidade de Brasília, transfigurando a ideia em coisa concreta. Dela tive de me afastar, primeiro para ser ministro da Educação e depois para ser chefe da Casa Civil. Anísio assumiu a reitoria, fazendo Frei Mateus Rocha, que levava adiante com todo entusiasmo a edificação do Instituto de Teologia Católica, o seu vice-reitor. Graças às funções que eu exercia na máquina do Estado, pude ajudar muito a Universidade. Por exemplo, na sua edificação, no equipamento de seus laboratórios e conseguindo residências para os professores que começavam a chegar às dezenas. Assim, a Universidade foi crescendo e desdobrando suas potencialidades, até o golpe militar que se abateu sobre o Brasil. Caiu sobre ela com toda a fúria.
 
O projeto da UnB sofreu danos irreparáveis?
O regime autoritário foi o responsável pela interrupção do projeto inovador que era o de buscar soluções para as grandes questões nacionais, em todas as áreas de conhecimento. Isso foi realçado no memorável livro A universidade interrompida: Brasília 1964-1965, de autoria de Roberto Salmeron. Ele escreveu esse livro pela convicção da importância, pela memória coletiva, em primeiro lugar brasileira – mas a experiência é de alcance universal –, dos acontecimentos que ele viveu intensamente com outros, professores, estudantes, servidores. Tenho a convicção de que os princípios que nortearam a criação da UnB foram corretos. Repito o que disse em meu discurso em 15 de março de 1995, quando recebi das mãos do reitor João Claudio Todorov o título de Doutor Honoris Causa da UnB: “Meu sentimento hoje é o de reencontro com minha filha querida, já passada dos trinta anos, que assoma como uma primeira encarnação do que houvera sido, se tantas provações não lhe caíssem em cima. A ditadura militar regressiva e repressiva que avassalou o Brasil assaltou furiosa nossa universidade, ainda menina.”

 

Em 1995, o idealizador da Universidade de Brasília recebeu título de Doutor Honoris Causa na instituição. Foto: Cedoc/Arquivo Central UnB


 
A UnB não é filha única, sabemos.
É verdade. Em 1991 fui chamado pelo governador do Rio de Janeiro para conceber uma nova universidade, localizada em Campos dos Goytacazes, a Universidade do Terceiro Milênio, que hoje leva meu nome: a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Era uma nova oportunidade de construir uma instituição de ensino contemporânea. Na concepção dessa nova universidade, a minha experiência anterior na implantação da UnB seria importante, assim como a criação ou a reforma de universidades na Costa Rica, Argélia, Uruguai, Venezuela e Peru. Criar uma universidade nova é um privilégio extraordinário, provavelmente o mais honroso e o mais gratificante para um trabalhador da educação. Concebi um modelo inovador, no qual os departamentos – que, na UnB, já tinham representado um avanço ao substituir as cátedras –, dariam lugar a laboratórios temáticos e multidisciplinares como célula da vida acadêmica. Assim como na Universidade de Brasília, na UENF, nos primeiros meses, o estudante tinha uma oportunidade de incorporar uma cultura universitária, um aprendizado de convívio social para depois ser preparado para a profissão escolhida. E, assim como na concepção da UnB, convoquei pensadores e pesquisadores renomados para elaborar o projeto. Um marco importante foi a primeira universidade brasileira onde todos os professores tinham o título de doutorado. Na criação da UENF, tivemos um importante apoio da sociedade campista, que resultou na aproximação com a sociedade regional, incluindo as prefeituras, as agências de desenvolvimento, as instituições de ensino superior e as entidades da sociedade organizada. Um dos objetivos dessa nova universidade foi a de implantar e incrementar o Parque Tecnológico do Norte Fluminense. Não fui reitor da UENF. O primeiro foi Wanderley de Souza, renomado cientista. Fiquei ao seu lado permanentemente, seguindo passo a passo a formação dessa universidade. Hoje, fico muito contente e feliz em ver que as minhas iniciativas em conceber um novo modelo de universidade inspiraram a criação de novas universidades como as federais do ABC e do Sul da Bahia.
 
Qual a sua opinião sobre as ações afirmativas proporcionadas pelas políticas de cotas raciais e sociais?
Em 2003, a UnB foi a primeira universidade federal a adotar a reserva de vagas para estudantes negros. De lá para cá, milhares de estudantes cotistas entraram e muitos já se formaram. Além disso, desde 2004, criou um sistema específico de seleção para indígenas e, posteriormente, cotas para estudantes de famílias com baixa renda. Essa política de cotas tinha como objetivo ter, no ensino superior, uma composição social, étnica e racial capaz de refletir minimamente a situação do Distrito Federal e a diversidade da sociedade brasileira como um todo. Como cidadão e como antropólogo, aprovo essas ações afirmativas. Fico orgulhoso que a UnB tenha sido pioneira e que as políticas de cotas se espalharam pelo Brasil. No entanto, penso que a nossa meta final é de construirmos um país sem a necessidade de uma política de cotas para a educação. Um país realmente democrático e, como costumava dizer Anísio Teixeira, “com uma educação pública de qualidade para toda a juventude brasileira”.
 
Em 1996, o senhor foi o relator da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que vigora ainda hoje. Quais objetivos foram alcançados a partir dessa legislação e quais ficaram a desejar?
A educação brasileira tem sido discutida e propostas inovadoras foram lançadas ao longo do tempo. Uma virtuosa iniciativa de educadores e intelectuais brasileiros foi o lançamento do Manifesto da Educação Nova em 1932, que teve a sua segunda edição em 1959. A primeira Lei de Diretrizes Básicas da Educação (LDB) foi criada em 1961. Uma nova versão foi aprovada em 1971 e a terceira, ainda vigente no Brasil, foi sancionada em 1996 e na qual eu tive intensa participação. Essa lei é conhecida como Lei Darcy Ribeiro. Após a elaboração da Constituição de 1988, muitos educadores já estavam envolvidos na discussão de um Estado-Educador que não apenas se preocupasse, mas privilegiasse a educação escolarizada, tornando o acesso e a permanência na escola, ao longo dos anos, cada vez maior, principalmente para os mais pobres. Eu apresentei um anteprojeto em 1992, que foi também assinado pelos senadores Marco Maciel e Mauricio Corrêa. Nessa primeira versão colaboraram Cândido Alberto Gomes, Maria do Céu, Jorge Ferreira e Eunice Ribeiro Durham. Fui relator do Projeto de Lei na Comissão de Educação do Senado Federal e tive embates com um projeto encaminhado pela Câmara Federal e lutei intensamente para que o meu substitutivo fosse também aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Finalmente, em fevereiro de 1966, o projeto foi aprovado no plenário do Senado Federal e retornou à Câmara, na forma do Substitutivo Darcy Ribeiro. O deputado Pedro Jorge foi o relator. A lei aprovada pelo Congresso Nacional foi sancionada sem vetos pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em 20 de dezembro: lei nº 9.394. Penso que a LDB de 1996 provocou avanços significativos para a melhoria da educação. Ela inovou em vários aspectos. Poderia destacar os seguintes pontos: o direito de todo o cidadão brasileiro de ter acesso ao ensino fundamental, apontando que este direito seja, gradativamente, levado também ao ensino médio; determinou a função do governo federal, estados e municípios no tocante à gestão da área de educação; estabeleceu obrigações das instituições de ensino (escolas, faculdades, universidades etc.); determinou a carga horária mínima para cada nível de ensino; apresentou diretrizes curriculares básicas; apontou funções e obrigações dos profissionais da educação (professores, diretores etc.); introduziu o sistema de avaliação. No entanto, infelizmente, não conseguimos colocar na prática as aspirações daqueles que defenderam uma LDB construtiva e libertária. Ainda temos muito o que fazer para melhorar a educação brasileira, desde a primeira infância até a pós-graduação. Essa luta não cessará enquanto os egressos do ensino básico forem analfabetos funcionais, despreparados para um convívio civilizatório e sem terem respeito à natureza e ao planeta. Os egressos do nosso sistema educacional devem ser preparados para serem protagonistas na construção de uma sociedade sem desigualdades sociais. Seria recomendável a revisão periódica da LDB para ajustarmos o sistema educacional brasileiro em um mundo que se vislumbra em constante transformação e pelo avanço rápido da tecnologia. Dessa forma, teremos sempre uma educação contemporânea.

 

Memorial Darcy Ribeiro, o Beijódromo. Foto: Beatriz Ferraz/Secom UnB

 
O Memorial Darcy Ribeiro, conhecido como Beijódromo, foi inaugurado em 2010 para exaltar o seu legado, a sua memória. Como recebeu esta homenagem?
Fiquei imensamente feliz. O Beijódromo nasceu de um sonho meu de ver construída a sede da Fundação Darcy Ribeiro no campus da UnB. Em 11 de janeiro de 1996, foi aprovado o estatuto da Fundação, que dispunha, no seu primeiro parágrafo: “A Fundação terá como núcleo (base) principal de trabalho a área que lhe será destinada por Universidade Pública a ser definida pelo Presidente, onde instalarão para uso acadêmico a Biblioteca DARCY RIBEIRO, seus arquivos e os de Berta Gleizer Ribeiro.” Eu sonhava com um espaço localizado na Praça Central da UnB para abrigar meu acervo de livros, documentos, obras de arte e mobiliário. Além disso, seria um local onde se poderia fazer serestas, as pessoas poderiam estar em volta se beijando, namorando. Em 1996, procurei o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, que tivera uma participação importante junto a Oscar Niemeyer para projetar o campus da UnB. Pedi a ele para elaborar um projeto para a concretização de meu último desejo. A minha sintonia com o Lelé era tão forte que bastaram poucas palavras para surgir a proposta, que ele fez questão de me entregar pessoalmente, acompanhada de uma pequena maquete. Segundo o Lelé, o projeto refletia a dicotomia de minhas atividades. O formato que lembra um disco voador, segundo ele, refletia meu lado empreendedor. Por sua vez, o formato de uma maloca indígena refletia meu trabalho como antropólogo. Achei tudo isso muito divertido. Cheio de alegria, apresentei o projeto ao então reitor da UnB, João Claudio Todorov, que, juntamente com Lelé, escolheu um terreno para a construção próximo à Reitoria. O projeto ficou paralisado por 12 anos. Finalmente, em 2008, após uma reunião com a Fundação Darcy Ribeiro, com a presença de Lelé e o então reitor da UnB, o Roberto Aguiar, o projeto caminhou. Um ano depois, o reitor José Geraldo de Sousa Junior apresentou o projeto à comunidade acadêmica da UnB e à sociedade, em uma audiência pública. Foi aceito sem restrições e contou com o apoio governamental para liberação da verba necessária. Teve financiamento do Ministério da Cultura, na gestão do Juca Ferreira. Fiquei contente de ver na solenidade de inauguração, em dezembro de 2010, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o José Mujica, presidente do Uruguai. Essa derradeira homenagem simbolizada no amálgama de um óvni com uma casa nativa me fez concluir que valeu a pena viver.
 
E qual a mensagem para a juventude brasileira?
Em primeiro lugar, gostaria de convocar os jovens para um olhar para o futuro. As próximas décadas serão de lutas para um renascer do Brasil. Antevejo algumas dessas batalhas. A primeira delas será reconquistar a institucionalidade da lei original que criou a Universidade de Brasília como organização não governamental, livre e autoconstrutiva. Depois dessa reconquista, a expansão dessa estrutura para todas as universidades públicas do país. Simultaneamente, cumpre libertar-nos da tutela ministerial, assumindo plenamente a responsabilidade na condução de nosso destino. Os jovens deverão ser protagonistas para, de forma permanente, reinventar o ensino básico e superior, de graduação e pós-graduação, fazendo deles instrumentos de liberação do Brasil. Olhando para o futuro, nostálgico dos velhos tempos, o que peço é que voltem ao Campus Universitário Darcy Ribeiro e a todos os campi do país, aquela convivência alegre, aquele espírito fraternal, aquela devoção profunda ao domínio do saber e a sua aplicação frutífera. Vocês jovens devem ser protagonistas para elaborar uma versão contemporânea dos Centros Integrados de Educação Popular (CIEPs), iniciativa do governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro nos quais as crianças possam ter uma educação de qualidade em tempo integral. Repito uma frase minha: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. Desmontar esse projeto é a nossa principal causa. Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas, a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas. Deixo como herança os meus fracassos, para que sejam transformados em vitórias pelos jovens dessa e das próximas gerações. E deixo o recado primeiro e último aos jovens: sejam brasileiros sempre apaixonados pelo Brasil.
 
Para ler Darcy Ribeiro na Editora UnB
 
COLEÇÃO DARCY NO BOLSO
 
AMÉRICA LATINA EXISTE? – volume 1
Darcy Ribeiro sempre pensou o Brasil dentro de um contexto de integração regional. Percorreu a América Latina procurando entendê-la e explicá-la. Para ele, "nós, latino-americanos, só temos duas opções: nos resignarmos ou nos indignarmos. E eu não vou me resignar nunca".
 
O BRASIL COMO PROBLEMA – volume 2
Ao longo dos séculos, vimos atribuindo o atraso do Brasil e a penúria dos brasileiros a falsas causas naturais e históricas, umas e outras imutáveis. Segundo Darcy Ribeiro, "trata-se, obviamente, do discurso ideológico de nossas elites".
 
LEMBRANDO DE MIM – volume 3
Este volume da Coleção Darcy Ribeiro reúne trechos de escritos colhidos ao longo da sua obra, em seus romances, em suas memórias. Revela ao leitor memórias de sua infância e adolescência, os meandros iniciais de sua formação de pensador. Conta como ele começou a olhar e perceber o mundo e a vida.
 
REVIVENDO O QUE VIVI – volume 4
Nesses textos, Darcy relembra e refaz uma parte essencial de sua trajetória, desde a sua adolescência. Traça um retrato comovedor não apenas de si, mas de uma geração, de um tempo, de um país.
 
FALANDO DOS ÍNDIOS – volume 5
Darcy Ribeiro teve um longo contato com os índios em seu trabalho como antropólogo. A sua ação em defesa dos índios era um de seus orgulhos mais profundos e seus trabalhos se tornaram referência obrigatória. Para ele, a questão indígena não era tema acadêmico; era compromisso de vida.
 
VIDA, MINHA VIDA – volume 6
"Esta foi a vida que me coube viver, e que vivi até a última gota", costumava dizer Darcy Ribeiro. Esse livro reúne um pouco de suas confissões, de suas memórias, que nos ajudam a conhecer o perfil desse que foi um brasileiro apaixonado por seu país e confiante no futuro.
 
MEUS ÍNDIOS, MINHA GENTE – volume 7
Longo e importante para a sua formação não apenas profissional, mas pessoal, foi o tempo que Darcy Ribeiro passou convivendo com diversas etnias indígenas no Brasil. Nos textos aqui reunidos aparecem os meandros dessa relação de respeito, admiração e gratidão. Darcy encontrava nos índios um ponto de partida para a busca de suas utopias.
 
JANGO E EU – volume 8
Participante ativo durante o governo constitucional de João Goulart, que foi derrubado por um golpe militar, Darcy conta, nesse volume, sua relação direta com Jango e traça um retrato detalhado daqueles tempos e de como seria o país que se queria fazer e não deixaram que fosse feito.
 
GOLPE E EXÍLIO – volume 9
Além dos bastidores da trama que culminou no golpe de 1964 no Brasil, esse volume traz o que significou para Darcy o exílio, a tentativa de volta, a prisão. Traz ainda relatos de viagens e encontros com Fidel Castro e Ernesto Che Guevara.
 
A VOLTA POR CIMA – volume 10
Talvez esse seja, nessa série de livros reunindo textos de Darcy Ribeiro, o mais comovedor. Conhecer Darcy Ribeiro é parte essencial do legado que ele nos deixou – um legado de realizações, e também de sonhos e esperanças.
 
 TESTEMUNHO
Nesse livro-testemunho de Darcy Ribeiro há uma nutrida e consistente mostra da maneira de pensar e ver a vida e o mundo, de ver os dois eixos principais de suas atenções, a América Latina e, especialmente, o Brasil. Darcy conta de sua formação intelectual, expõe as bases e vários meandros de seu pensamento.
 
UNIVERSIDADE PARA QUÊ?
Documento histórico que serve à memória da Universidade de Brasília, este é o discurso de Darcy Ribeiro, proferido em 1985, na retomada da Universidade de seu caminho original. Nesse pronunciamento, Darcy emocionou a todos os presentes ao lembrar de todos aqueles que com ele partilharam o sonho de uma universidade plural e democrática.
 
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – PROJETO DE ORGANIZAÇÃO, PRONUNCIAMENTO DE EDUCADORES E CIENTISTAS
Darcy Ribeiro organiza este livro em 1962, numa edição especial patrocinada pelo Ministério da Educação e Cultura, contendo o projeto de organização da nova universidade e os pronunciamentos de educadores e cientistas sobre o texto. É importante revê-lo em sua originalidade e compreendê-lo com o apoio das percepções que dele tiveram seus contemporâneos, para melhor orientar suas possibilidades atuais. Este relançamento foi realizado na ocasião dos 50 anos de edição da Lei nº 3.998, de 15 de dezembro de 1961.
 
>> Confira o especial da EBC sobre os 20 anos da morte de Darcy Ribeiro
ATENÇÃO – As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seus conteúdos. Crédito para textos: nome do repórter/Secom UnB ou Secom UnB. Crédito para fotos: nome do fotógrafo/Secom UnB.

 

 


ENFERMEIRO CEARENSE É PREMIADO COM MELHOR TESE EM SAÚDE COLETIVA DO PAÍS
Gisele Soares, Nossa Ciência, Edição 62 – Ano 3 – 22/02/2017



Com o trabalho “Mortalidade relacionada às doenças tropicais negligenciadas no Brasil, 2000-2011: magnitude, padrões espaço-temporais e fatores associados”, o enfermeiro cearense Francisco Rogerlândio Martins de Melo, servidor do Instituto Federal do Ceará (IFCE), recebeu o “Prêmio Capes de Teses 2016 – Área de Saúde Coletiva”, em dezembro de 2016.

A tese foi elaborada durante o doutorado em Saúde Coletiva – Associação Ampla Uece/UFC/Unifor e abordou o impacto e importância da mortalidade causada pelas doenças tropicais negligenciadas (DTNs) - doença de Chagas, dengue, hanseníase, esquistossomose, entre outras, bem como sua distribuição geográfica e evolução ao longo dos anos no país.

Em sua conclusão, ele afirma que as DTNs continuam sendo importantes causas de morte preveníveis e um problema de saúde pública no Brasil e que estratégias locais abrangentes e medidas de prevenção e controle devem ser formuladas de acordo com essas características nas regiões endêmicas brasileiras.

O estudo foi conduzido no Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da UFC, sob orientação do professor Jorge Heukelbach e coorientação de Alberto Novaes Ramos Júnior. Além de atuar como enfermeiro assistencial no campus de Caucaia do IFCE, Rogerlândio é pesquisador colaborador no Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da UFC.

* Com informações do IFCE
Detalhes em: http://www.nossaciencia.com.br/enfermeiro-cearense-e-premiado-com-melhor-tese-em-saude-coletiva-do-pais#sthash.ExtJCxHR.dpuf

 

 


 

PROFESSOR BRASILEIRO CONCORRE A MELHOR PROFESSOR DO MUNDO
Gabrieka Varella, Revista Época – 22.02.2017

Wemerson Nogueira, do Espírito Santo, está entre os dez finalistas do Global Teacher Prize

Aos 26 anos, o professor capixaba Wemerson da Silva Nogueira fica entre os dez finalistas do Global Teacher Prize, o maior prêmio dedicado à categoria. O 1º colocado, a ser anunciado em março, levará US$ 1 milhão, pago pela Varkey Foundation. Essa é a terceira edição do prêmio e a segunda vez que um brasileiro fica entre os finalistas.

Uma das iniciativas que levaram o professor Wemerson Nogueira a ser indicado para o prêmio surgiu em uma escola periférica de sua cidade. Ele criou um pequeno laboratório para aulas práticas. “Em três anos, conseguimos transformá-la em uma das melhores escolas do município.” De 2011 a 2015, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da instituição foi de 4,8 a 5,2, acima da média estipulada para 2015, de 4,4. Mais tarde, ensinou a tabela periódica por meio de canções e criou um aplicativo para dar aula de química de maneira lúdica aos estudantes – que premiou a escola na qual lecionava com um pequeno laboratório. Seu projeto principal, que lhe rendeu o título de Educador do Ano em 2016, foi feito com alunos de uma escola estadual de Boa Esperança, no Espírito Santo. Juntos, construíram um filtro à base de areia que, por meio de um processo de oxidação, retira da água grande quantidade de manganês e ferro – substâncias responsáveis por contaminar o Rio Doce após o rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, Minas Gerais. Atualmente, o filtro é usado por cerca de 200 pessoas, que reutilizam a água para uso doméstico, em Regência, no Espírito Santo. Em entrevista a ÉPOCA, Wemerson, que é professor do ensino básico e de uma universidade privada, fala de suas experiências e afirma que a Educação tem de ir para “além dos muros da escola”.

 Wemerson Nogueira, um dos dez finalistas do Global Teacher Prize, começou a criar projetos para engajar alunos a aprender de forma lúdica (Foto: Wemerson Nogueira – Arquivo Pessoal)



ÉPOCA – Como foi seu despertar pela docência?
Wemerson da Silva Nogueira – Sempre morei no interior com meus pais. Como eu era muito hiperativo na escola, minhas professoras me colocaram para ser aluno monitor. Aceitei de imediato, porque sabia que iria melhorar minhas notas. Comecei a ajudar meus colegas e conheci o Thiago, que tinha um contexto social e uma dificuldade financeira que o prejudicavam muito. Um dia, no intervalo, ele me contou que os pais eram envolvidos com drogas e que não via perspectivas na escola. Aquilo me comoveu muito. Passei a me dedicar cada vez mais em ajudá-lo, tentava mostrar que a escola era transformadora. Quando me formei, em 2007, decidi que queria ser professor. Estudei à distância e me formei em ciências. Hoje, o Thiago também é professor. Ele se formou em educação física e chegamos a trabalhar juntos.

ÉPOCA – Como começou a desenvolver seus projetos?
Nogueira – Em meu primeiro ano de trabalho, em 2012, deparei com uma escola na qual a comunidade estava inserida em um contexto muito ruim, onde os alunos não tinham interesse pela aprendizagem e boa parte dos pais estava envolvida com drogas. Me reuni com professores e criamos um laboratório de ciências para aulas práticas. Em três anos, conseguimos transformar a escola em uma das melhores do município.

ÉPOCA – Como foi desenvolvido seu principal experimento, que filtra a água do Rio Doce afetada pelo rompimento da barragem em Mariana?
Nogueira – Chamamos o projeto de “Filtrando as lágrimas do Rio Doce”. Os estudantes coletavam amostras do material da lama contaminada por Mariana e, com base nas análises, aprendiam elementos da tabela periódica. Os próprios alunos se sentiram aptos a agir como cidadãos sociais naquele contexto. Por meio de parcerias com empresas e universidades, com investimento da Secretaria da Educação, o estudo e o resultado final do filtro foram levados para a cidade de Regência para atender as famílias.

ÉPOCA – Como é sua relação com os alunos?
Nogueira – O professor que não reconhece ser um mero aprendiz não consegue transformar seu método de ensino. Nossos alunos são jovens, estão constantemente buscando informações. O aluno também é um construtor de projetos, dono de diversas capacidades que agregam experiências inovadoras. Minha relação com meus alunos é de cumplicidade, de companheirismo. Nesse período de cinco anos de sala de aula, os projetos foram ideias que surgiram de meus alunos. Fui apenas o multiplicador. Sem eles, eu não teria chegado até aqui.

ÉPOCA – Quais são as atividades que o senhor costuma praticar em sala de aula?
Nogueira – Tenho uma metodologia lúdica. Faço uma mesa-redonda com os alunos, que colocam no papel todas as ideias de como gostariam de aprender. Juntos, fazemos um levantamento. Criamos um plano de ensino de uma forma diferente, interativa. O que mais me fascina é saber que tenho a capacidade de transformar vidas, agregar valores que vão contribuir com a sociedade. O que me cativa em estar na sala de aula é saber que todo aluno é uma caixinha de surpresas cheia de ideias que podem contribuir para minha capacidade de ensinar e aprender.

ÉPOCA – Como despertar o interesse do aluno?
Nogueira – Não ensino o conteúdo de química apenas de maneira teórica. Mesmo que eu não tenha um laboratório na escola, tento ensinar por meio de experiências químicas. É preciso sair do espaço formal que é a sala de aula e ir para além dos muros da escola.

ÉPOCA – Isso é um desafio maior em escolas com menos recursos?
Nogueira – Sim, e, infelizmente, esse desafio impossibilita muitos professores de desenvolver novas metodologias. Ao mesmo tempo, acredito que são nessas escolas que tento mostrar que é preciso acreditar. Em 2015, trabalhei em uma escola que não tinha computador. Eu queria desenvolver um projeto baseado em tecnologia. Então, levava meu celular para a escola e pedia aos alunos que levassem os deles. Colocava minha internet à disposição e criei um aplicativo para estudarmos química. Com isso, ganhei um prêmio para essa escola, que recebeu um pequeno laboratório de informática.

ÉPOCA – É a segunda vez que um brasileiro concorre a esse prêmio. O que isso significa para você?
Nogueira – Sinto-me muito honrado em ficar entre os dez finalistas do Global Teacher Prize. O mais importante de tudo isso é saber que minha caminhada é uma vitória. O prêmio de US$ 1 milhão  agregaria valor financeiro, mas a trajetória dessa caminhada tem um grande valor social na vida de meus alunos. Nenhum valor paga isso. O reconhecimento me enche de orgulho, por saber que escolhi a profissão certa: de um transformador de vidas.

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QUEM É HANAN AL-HROUB, A MELHOR PROFESSORA DO MUNDO DE 2016
Flávia Yuri Oshima, Revista Época – 14.03.2016


Palestina que trabalha com crianças que foram expostas a violência ganhou US$ 1 milhão em premiação anunciada pelo papa Francisco

Em sua segunda edição, o Global Teacher Prize elegeu a palestina Hanan al-Hroub como a melhor professora do mundo. O prêmio de US$ 1 milhão, considerado o Nobel da educação, foi anunciado pelo papa Francisco, em vídeo exibido no fim do Global Education Forum, em Dubai, no domingo, dia 13. Hanan al-Hroub se destacou por desenvolver um método para educar e ajudar crianças expostas a violência a superar o trauma – e voltar a aprender e a brincar.

Hanah al-Hroub, vencedora do prêmio de melhor professor do mundo (Foto: Kamran Jebreili/AP)



Hanan é professora dos primeiros anos de ensino fundamental de um campo de refugiados na Palestina. Ela mesma cresceu no campo de refugiados. Diz que teve muito pouca infância e que se acostumou a vivenciar na escola um clima permanente de tensão. O interesse por encontrar um jeito de lidar com crianças que tiveram experiências traumáticas se deu quando teve de enfrentar o drama com suas crianças. Seus dois filhos tinham menos de dez anos quando foram atacados junto com o pai por tiros no caminho de volta da escola. O pai conseguiu proteger as crianças, mas ele foi baleado e ficou em estado grave. Depois do episódio, Hanan conta que seus filhos mudaram. Tornaram-se muito reativos, tensos e passaram a ter muita dificuldade em assimilar os conteúdos da escola.

“Eles não pareciam ser mais crianças”, disse Hanan, em entrevista durante a premiação. “Era como se eles tivessem se trancado num lugar distante do mundo. Não brincavam mais”, diz ela.

Hanan começou então, ela mesma, a propor jogos e atividades lúdicas em casa. “Tinha de quebrar aquele gelo, tinha de ter meus filhos de volta”. Aos poucos, o clima em casa começou a mudar. As brincadeiras cotidianas começaram a envolver crianças da vizinhança. Por conta das vezes em que procurou ajuda na escola para cuidar de seus filhos, Hanan teve conhecimento de outras crianças que passavam pelos mesmos que seus filhos. Por conta de experiências traumatizantes, as crianças tornaram-se ariscas, avessas a brincadeiras, à escola e ao aprendizado.

Hanan resolveu então voltar para a faculdade e se especializar em educação infantil. Conseguiu vaga para dar aulas para os primeiros anos do ensino fundamental, onde passou a empregar a estratégia que desenvolvera em casa com seus alunos.

Assim como fez com seus filhos, Hanan usa brincadeiras e jogos lúdicos, que pedem colaboração, para ajudar as crianças a desenvolverem respeito mútuo, confiança e relações de afeto. Faz parte do programa criando por Hanan a ênfase na leitura e no desenvolvimento da capacidade de contar histórias. Por meio delas, as crianças podem dramatizar situações que as afligem, criando finais felizes ao mesmo tempo em que conseguem dar nome a sentimentos reais.

Hanan escreveu um livro que conta seu método, We play and learn (Nós brincamos e aprendemos), e hoje dá também formação para professores que como ela trabalham em locais hostis. Neste ano, um professor brasileiro participou da seleção. O professor Márcio Andrade Batista desenvolveu um método para ensinar ciências a crianças do Mato Grosso com o uso de matéria-prima e conhecimentos sobre a atividade extrativista da região. Márcio ficou entre os 50 selecionados, mas não passou na penúltima peneira, dos dez melhores professores.

A vencedora de 2015

Em sua primeira edição, em 2015, o Global Teacher Prize  premiou a professora americana Nancie Atwell. Insatisfeita com o formato tradicional da escola, Nancie fundou seu próprio colégio na área rural de Maine, nos Estados Unidos, onde desenvolveu um método baseado em muita leitura e produção de análises de alunos sobre esses textos.

Os alunos de Nancie têm de ler 40 livros por ano e podem escolher os livros que lerão. Nancie escreveu o livro  In The Middle: New Understandings About Writing, Reading, and Learning (1987) (algo como: no meio: novos conhecimentos sobre escrita, leitura e aprendizado), explicando seu método. Nancie doou o dinheiro da premiação para bolsas de estudos e para um centro de treinamento de professores.

 

 

 


SEGUNDO PREVISÃO CLIMÁTICA DO MCTIC, SECA NO SEMIÁRIDO NORDESTINO DEVE SE AGRAVAR ATÉ MAIO
 Ascom do MCTIC, 01/03/2017


Período considerado chuvoso terá precipitações abaixo da média histórica do extremo norte da Bahia até o leste do Piauí, piorando níveis dos reservatórios de água da região. Além de comprometer o abastecimento de água para a população, estiagem prejudica a atividade econômica do semiárido. Previsão também indica cheia em rios da Amazônia.


Com chuvas abaixo da média histórica, a seca no semiárido deve se agravar até maio. A informação é do Grupo de Trabalho em Previsão Climática Sazonal do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Segundo documento divulgado nesta quarta-feira (1º), do extremo norte da Bahia até o leste do Piauí, passando pelos estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, a previsão é de poucas chuvas entre março e maio. A situação é ainda mais preocupante porque este é o trimestre mais chuvoso na região semiárida.


"A situação é muito complicada. Os níveis dos reservatórios já estão muito baixos, e muitos estão com menos de 5% do volume total. Se chover como deveria, dentro da média histórica, já seria um problema grave, especialmente nas cidades grandes. Mas a situação meteorológica atual não indica que haverá melhora nos próximos meses", afirma o coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), José Marengo.


De acordo com os cálculos do grupo de previsão climática, seriam necessárias precipitações pelo menos 30% acima da normal climatológica para melhorar a situação dos reservatórios. Além do consumo humano, a agricultura e a pecuária da região também ficarão comprometidas pela escassez de água.


"Isso gera um impacto grande na atividade econômica do semiárido. Criadores de animais e produtores rurais estão tendo muitas dificuldades para produzir sem água, e isso vai piorando com o passar do tempo e da falta de chuvas", acrescenta Marengo.


Cheias


Na região Norte, por outro lado, a previsão é de muita chuva no próximo trimestre, com possibilidade de cheia nos principais rios da região amazônica. Três deles – Negro, Tapajós e Amazonas – já estão com os níveis próximos às máximas históricas. Segundo a previsão climática do MCTIC, o volume de água deve continuar "em acentuada elevação".


O quadro representa uma grande mudança climática na região, especialmente no Acre, que enfrentou uma intensa estiagem até o final de 2016. "O Acre tem sido o estado-chave na questão de extremos. É o estado que tem reação mais rápida às condições climáticas. O quadro se reverteu completamente em poucos meses", destaca José Marengo.


Participam do grupo de previsão climática do MCTIC especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), além do Cemaden.

 


ESTUDO REVELA QUE POVOS PRÉ-COLOMBIANOS MOLDARAM A FLORA DA FLORESTA AMAZÔNICA
Lucile Pedrosa*, EcoDebate, 03/03/2017

Povos pré-colombianos domesticaram ao menos 85 espécies de árvores que até hoje estão concentradas em florestas próximas a antigos assentamentos


Estudo inédito liderado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) mostra que há uma relação entre a ocupação humana passada na Amazônia e a presença de plantas domesticadas na floresta. Isso indica que essas florestas podem ser em parte um patrimônio vivo dos povos pré-colombianos. O resultado da pesquisa publicada (3 de março de 2017) na revista Science põe abaixo a ideia de que as florestas amazônicas estavam intocadas pelo homem.

O estudo contou com a participação de um grupo internacional e interdisciplinar de 152 cientistas, incluindo 53 brasileiros, dentre eles 30 colaboradores do Inpa e 01 do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá. Tem como autora principal Carolina Levis, doutoranda pelo Inpa, no Amazonas-Brasil, e pela Wageningen University and Research Center, da Holanda.

“O que fizemos foi cruzar os dados botânicos de parcelas de inventários florestais com dados arqueológicos”, diz Levis. “Por alto, são pelo menos 80 anos de pesquisas com centenas de pessoas trabalhando para conseguir coletar essas informações. Foi a primeira vez na escala da Amazônia que juntamos esses dados”, acrescenta.
A equipe de cientistas chegou à descoberta ao sobrepor dados de mais de mil inventários florestais da Rede de Diversidade das Árvores da Amazônia (ATDN) com o mapa da localização de mais de três mil sítios arqueológicos espalhados por toda a bacia amazônica. Ao comparar a composição de espécies em florestas situadas a diferentes distâncias de sítios aqrqueológicos, as análises geraram a primeira imagem do grau de influência dos povos pré-colombianos na biodiversidade amazônica atual.
Os primeiros estudos tiveram início em 2010, nas regiões dos rios Purus e Madeira, durante o mestrado de Levis, orientada pelos pesquisadores do Inpa, Flavia Costa e Charles Clement, que começaram a trabalhar para entender o efeito humano passado na floresta Amazônica.


Espécies


A pesquisa atual focou em 85 espécies de árvores, que foram domesticadas em algum grau pelos povos pré-colombianos, dentre elas cacau, castanha-do-Brasil, açaí, bacaba, patauá, mapati, seringueira, pupunha e muitas outras espécies que são fonte de alimentação, abrigo ou outros usos.

 

Os pesquisadores descobriram que em toda a bacia amazônica essas espécies eram cinco vezes mais comuns em inventários florestais do que as espécies não domesticadas. As maiores abundância e diversidade de espécies domesticadas foram encontradas em florestas próximas de sítios arqueológicos.

Levis explica que o sudoeste da Amazônia (Bolívia e Rondônia/Brasil) foi altamente transformado e habitado e é onde há uma densa concentração de plantas domesticadas. “Já no Escudo das Guianas não encontramos essa mesma relação dos sítios arqueológicos com as plantas e não sabemos o motivo”, destaca. “Mas mesmo assim com alguns vazios de amostragem, conseguimos relacionar dados florísticos e arqueológicos”, acrescenta.

Para o estudo, foram utilizadas informações do banco de dados liderado pelo pesquisador Eduardo Kazuo Tamanaha, do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá. De acordo com o arqueólogo, que é coautor na publicação, os resultados ilustram a força da interdisciplinaridade e importância de correlação de dados científicos para o conhecimento da região Amazônica.

“Pensando a longo prazo, a grande contribuição do trabalho é estreitar os laços entre as duas áreas, botânica e arqueologia. Demonstra a importância de cruzar e discutir estes dados, de diferentes pesquisadores, e de começar a propor hipóteses juntos”, comenta o arqueólogo.

Ocupação da Amazônia


Para a pesquisadora do Inpa e uma das coautoras do artigo, Flavia Costa, não é totalmente novo dizer que a Amazônia há muito tempo já era habitada. Segunda ela, ao olhar para outros estudos se vê que as pessoas usaram e modificaram a Amazônia somente perto dos grandes rios onde era bom para a pesca e pela facilidade de transporte, já nas áreas entre os rios (os chamados interflúvios) eram considerados vazios demográficos.

“Mas o trabalho da Carolina mostra que nesses interflúvios também tinha gente usando e modificando a floresta. De verdade, o impacto da ocupação humana é muito mais espalhado do que se pensava”, diz Costa, acrescentando que o sudoeste e leste da Amazônia são as regiões onde concentram a maior abundância e diversidade de espécies domesticadas e, ao mesmo tempo, é onde a maior parte da degradação e desmatamento ocorre.

A pesquisadora afirma que uma das implicações do trabalho é que essas regiões que estão sendo destruídas são também os reservatórios de plantas úteis para os seres humanos e lamenta não existir nenhum um tipo de política para conservação dessas áreas.

 Origem da domesticação


Os cientistas também analisaram a origem da domesticação daquelas espécies e os locais onde as espécies se concentram, hoje, na floresta. A pesquisa se baseou nos estudos do Dr. Charles Clement, pesquisador do Inpa e também um dos coautores do trabalho. “Vimos que algumas vezes o local de origem da domesticação não se encontrava com o local onde tem mais concentração da espécie na floresta, o que poderia indicar uma dispersão humana”, diz Levis.


Segundo Clement, na região do sudoeste da Amazônia, a pupunha, por exemplo, se originou como planta domesticada e depois foi dispersa para outras partes da Amazônia. “No oeste da Amazônia, o fruto é graúdo e seco e os índios não usam para comer, mas, sim, para fazer cerveja de pupunha”, revela.


“O trabalho de Carolina mostra que algumas espécies poderiam ter sido originadas lá no sudoeste, porque ocorre em maior abundância do que em outros lugares”, explica o pesquisador. “Essa ‘brincadeira’ (estudo) tem diferentes facetas. O estudo de Carolina usou a classificação das plantas domesticadas para orientar a seleção de espécies que permitem as análises”, completa.

Para o pesquisador da Naturalis Biodiversity Center e coordenador da ATDN, Hans ter Steege, a descoberta promete esquentar um debate de longa data entre cientistas sobre o grau de influência da história humana milenar da bacia amazônica na biodiversidade atual. “E desafia a visão que muitos de nós, ecólogos, tínhamos e ainda temos dessa imensa floresta”, diz, ao comentar que a imensidão verde das florestas amazônicas camufla evidências das ocupações passadas e dá a falsa impressão de uma paisagem intocada. Com as crescentes pesquisas arqueológicas, particularmente, nas últimas décadas, centenas de novos sítios estão sendo descobertos em áreas aparentemente intocadas.


*Com informações do Inpa, do Instituto Mamirauá e da Science    
Fonte: INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia *

 


CIENTISTAS DESENVOLVEM PRIMEIRO EMBRIÃO 'ARTIFICIAL'
Jornal do Brasil, 03/03/2017

Organismo foi criado a partir de células-tronco de rato

Cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, criaram o primeiro embrião artificial da história, avanço que ajudará a descobrir a origem de muitas doenças que surgem nas fases iniciais do desenvolvimento.

Publicado pela revista "Science", o estudo conseguiu fazer células-tronco de rato se juntarem e organizarem espontaneamente em uma estrutura tridimensional similar a um embrião "natural".

O experimento reproduziu exatamente todas as fases do desenvolvimento embrionário, algo até então inédito na ciência. "As células embrionárias e aquelas que formam a estrutura onde o embrião se desenvolve começam a falar entre si a fim de organizar uma estrutura que se comporta como um embrião", explicou a autora da pesquisa, Magdalena Zernicka-Goetz, do departamento de fisiologia e neurociências da Universidade de Cambridge.

Segundo ela, o embrião possui razões "anatomicamente corretas e que se desenvolvem no lugar e na hora certos". Comparado com um embrião normal, o artificial seguiu o mesmo percurso em seu crescimento e mostrou ser completo em todos os aspectos, inclusive na formação das células germinativas, que dão origem a espermatozoides e oócitos.

Em tese, a descoberta abre caminho para se desenvolver um indivíduo fora do útero, ainda que isso seja mera hipótese e aplicável somente em alguns setores, como a zootecnia. Até então, as tentativas de desenvolver um embrião em laboratório fracassaram porque utilizavam apenas células-tronco destinadas a formar o organismo, mas não aquelas do tecido que o nutre e do qual nasce a placenta.

Contudo, apesar do avanço, pesquisadores avaliam que é improvável que o embrião artificial possa dar origem a um feto saudável, já que para isso seria necessária a utilização de células-tronco para a formação do saco vitelínico, que é indispensável à nutrição do embrião.

"Ter à disposição um embrião artificial é um passo adiante para conhecer as bases relativas aos primeiros estágios da vida e para reduzir ao mínimo o uso de animais em laboratórios", comentou o geneticista italiano Edoardo Boncinelli.


 



CIENTISTAS CONSEGUEM ADESTRAR ABELHAS
Correio Braziliense -  24/02/2017

Macacos, mamíferos marinhos e aves são algumas das espécies que, como o homem, conseguem aprender a manusear objetos. Um novo bicho acaba de entrar para o grupo de animais com essa habilidade: as abelhas. Pesquisadores britânicos conseguiram ensinar os insetos a mover uma pequena bola em direção a um alvo, uma ação semelhante a marcar um gol no futebol. Além de realizar a tarefa, as pequenas operárias ensinaram outras a repeti-la. Os autores do estudo, publicado na última edição da revista americana Science, avaliam que o resultado reforça as constatações em torno do alto nível de inteligência das produtoras de mel.

Os cientistas se inspiraram em um trabalho anterior com zangões que conseguiam puxar cordas para obter recompensas, como pequenas porções de alimento. “Esse estudo nos sugeriu a flexibilidade cognitiva desses animais e nos motivou a testar ainda mais os limites dessa habilidade”, conta ao Correio Olli J. Loukola, principal autor da nova pesquisa e cientista da Universidade Queen Mary, de Londres.

Ele e os colegas colocaram zangões da espécie mamangaba em uma plataforma plana e os treinaram para mover uma bola amarela da borda da superfície para um buraco localizado no centro. Quando conseguiam, os animais recebiam açúcar. Uma abelha de mentira manipulada pelos cientistas foi usada para demonstrar o exercício aos insetos. Em uma segunda etapa, abelhas treinadas passaram a mover a bola na frente de insetos que ainda não haviam participado do experimento, e eles começaram a realizar a mesma tarefa em menos tempo. Em um terceiro teste, os animais foram ensinados por um ímã que movia a bola e, mais uma vez, repetiram a tarefa de forma mais rápida que os dos outros grupos.

Tarefa melhorada

Os pesquisadores ficaram ainda mais surpresos com o fato de as abelhas terem “otimizado” a tarefa, indo diretamente às bolas que estavam mais próximas do local onde deveriam ser encaixadas. “Elas resolveram de uma maneira diferente da que foi demonstrada, sugerindo que as abelhas observadoras não copiaram simplesmente o que viram, mas melhoraram. Esse comportamento dirigido a metas mostra uma quantidade impressionante de flexibilidade cognitiva, especialmente para um inseto. Para nosso conhecimento, nenhum outro inseto mostrou esse nível de habilidade cognitiva antes”, frisa Olli J. Loukola.

Segundo a equipe de cientistas, os resultados mudam conceitos na área do comportamento animal. “Acredito que nosso estudo acaba com a ideia de que pequenos cérebros restringem os insetos a terem flexibilidade comportamental limitada e habilidades de aprendizagem simples”, ressalta o autor. Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental e especialista em biologia e manejo de abelhas, Cristiano Menezes concorda com os britânicos. “É um ganho entender melhor o que as abelhas conseguem fazer, decifrar o comportamento animal. Outros experimentos que mostraram a desenvoltura delas em tarefas já haviam sido feitos, mas esse se destaca pelo alto nível de complexidade”, avalia.

O especialista, que não participou do estudo, também acredita que o trabalho possa ajudar a combater a extinção desses animais. “É interessante conhecermos a aprendizagem e o funcionamento cerebral das abelhas porque estamos observando a diminuição da espécie, que pode estar ligada ao que ocorre no cérebro delas. Ao entender como ele funciona, podemos criar estratégias para combater esse problema”, explica. Olli J. Loukola fala ainda de benefícios na área econômica. “A agricultura depende muito das abelhas e, com essa possibilidade de ensinar tarefas a elas, seria possível fazer com que esses bichos escolhessem flores específicas. Daria para selecionar quais plantas seriam manejadas”, detalha.

Os autores ressaltam que os resultados podem servir de inspiração para outras pesquisas semelhantes na área biológica. “Acho que nosso estudo incentiva outros pesquisadores a estudar os mecanismos e os fundamentos neurológicos da flexibilidade cognitiva, mas também suas implicações evolutivas e ecológicas”, detalha Olli J. Loukola. Ele não sabe se o trabalho terá continuidade. “Ainda não pensei sobre isso. Quem sabe eu comece a treinar essas abelhas para jogar futebol como uma equipe”, brinca. (VS)

Palavra de especialista
Resultado inovador

A facilitação do aprendizado devido à observação da tarefa a ser feita, até onde eu sei, é algo novo no estudo de solução de problemas por abelhas. A capacidade dos insetos sociais de solucionar problemas não naturais, como o do estudo, tem surpreendido a comunidade científica, que num passado recente era, em grande parte, cética com relação à flexibilidade comportamental desses animais. O aprendizado através da observação é realmente algo novo e surpreendente. A comprovação de que insetos sociais podem aprender por observação a solucionar problemas não naturais ainda demanda outros estudos como esse. Portanto, a busca da comprovação de tal capacidade nesses animais pode, em si, ser uma nova área de investigação

Pedro Ribeiro, pesquisador e pós-doutorando em fisiologia animal pela Universidade de São Paulo (USP)

 


 

ABELHAS, AS PRIMEIRAS VÍTIMAS DO APOCALIPSE APONTADO NO ‘RELÓGIO’ DOS CIENTISTAS?
Revista do Meio Ambiente, Edição 97

 

Albert Einstein dizia que se todas as abelhas do mundo desaparecessem do planeta, a humanidade só teria mais quatro anos de vida.

“Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais não haverá raça humana”, profetizava.

Eu já sabia da preocupação do físico alemão com esses bichinhos, mas quem me fez puxar da memória essa parte interessante da história foi José, dono da vendinha aqui na esquina onde costumo comprar aqueles produtos que a gente precisa ter em casa e se esquece de vez em quando. Além de negociante, José é apicultor, tem inúmeras informações sobre abelhas catalogadas numa pasta com divisórias de plástico onde arquiva também fotos sobre o local onde as cria. Dia desses, de volta do sítio onde tem sua criação, ele me recebeu exultante:

“Elas voltaram! As abelhas voltaram! Eu andava preocupado, as bichinhas estavam escassas. Especialistas diziam que haviam morrido, que estavam desaparecendo por causa do aquecimento global, tenho aqui até as reportagens que li sobre o assunto. Mas, nesse fim de semana, estive lá e fiquei feliz: pelo menos no meu apiário, elas estão de volta!”

Comemorei com ele modestamente, e fui obrigada a jogar um balde de água fria em sua exultação. É que, por coincidência, eu havia recebido por mensagem eletrônica um relatório feito pela ONGGreenpeace, dando conta, exatamente, do contrário.

A base para este novo relatório é um estudo feito pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (Aesa), organização contratada para realizar avaliações de risco para o uso de pesticidas e seu impacto sobre as abelhas. Tais avaliações de risco, publicadas há quatro anos, exatamente em janeiro de 2013, geraram grande preocupação entre apicultores do mundo todo e fizeram com que a União Europeia adotasse uma proibição parcial do uso de algumas substâncias, como clotianidina, imidacloprida e tiametoxan, chamadas de neonicotinoides, associados a eventos de envenenamento em massa de abelhas Apis (ou Bichomel) e vespa-de-rodeio quando são aspergidos no ambiente em geral. A proibição entrou em vigor a partir de dezembro de 2013.

O que o Greenpeace fez este ano foi uma reavaliação. Os riscos potenciais dos neonicotinoides às abelhas são menores, iguais  ou maiores do que em 2013?Levando em conta oito avaliações de risco, os técnicos concluíram que o risco permanece inalterado ou é maior em várias situações. Em nenhuma delas, o risco é menor.

“Tendo em conta que a avaliação de risco inicial de 2013 era suficiente para impor uma proibição parcial no uso de neonicotinoides sobre culturas que florescem, e dado que as novas evidências confirmam ou aumentam a evidência de risco para as abelhas, é lógico concluir que a evidência científica atual suporta a extensão da moratória, e que se deve considerar a extensão da proibição parcial a outros usos de neonicotinoides”, conclui o estudo.

Mas a recomendação feita pela associação europeia há quatro anos não foi levada em conta por quem produz e comercializa os produtos químicos que estão sendo os algozes das abelhas. E não são poucas as críticas, os alertas. Aqui no Brasil, o Centro Tecnológico de Apicultura e Meliponicultura do Rio Grande do Norte fez uma petição que foi encerrada em 8 de março de 2015 com 22.190 assinaturas e foi entregue às autoridades competentes. A campanha se chamou “Sem abelhas, sem alimento” e obteve apoios internacionais.

A ideia principal da campanha é estimular os cidadãos a interagirem e protegerem as abelhas. Mas o subtexto pode ser também um alerta contra o uso abusivo dos agrotóxicos, sobretudo aqui no Brasil, país que ostenta, desde 2008, o ranking de maior consumidor de defensivos agrícolas do mundo. Cada brasileiro consome, em média, 5,2 litros de agrotóxicos por ano. Além de permitir o uso de pesticidas proibidos em outros países, o Brasil ainda exonera os impostos dessas substâncias.
Segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), 70% dos alimentos in natura consumidos no Brasil estão contaminados por resíduos de pesticidas. Nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, já no Brasil, esse crescimento foi de 190%, de acordo com os dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Sem abelhas, não há vida. Com defensivos demais não se pode pensar numa alimentação saudável, o que compromete também a vida.

O dado ainda mais complexo que completa essa perversa equação é o apelo ao desenvolvimentismo. No ano passado, o governo brasileiro concedeu redução de 60% do ICMS (Imposto relativo à Circulação de Mercadorias), isenção total do PIS/Cofins e do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) à produção e comércio dos pesticidas. Isso significa que a fabricação dos produtos que podem causar tantos males aos humanos e às abelhas (no mínimo) pode ser contabilizada como “riqueza” na  hora de medir o Produto Interno Bruto (PIB).

Estamos vivendo uma era muito confusa. Valores antes arraigados  mudam de forma a todo momento. No comando da nação mais rica, Donald Trump se coloca como cético do clima. Preocupações com as abelhas, mesmo que venham ornadas por uma observação de alguém como Albert Einstein, hão de ser consideradas comezinhas pela equipe do homem que pretende, primeiramente... bem, voltar atrás, acabar com a globalização, dar um stop no relógio.

Seria bom se ele conseguisse para o relógio do Apocalipse, que está a dois minutos e meio da meia-noite.  Acertado por um grupo de cientistas de renome, da revista “Bulletin of the Atomic Scientists”, profissionais que também não devem ter nem mesmo registro na agenda de Donald Trump, o tal relógio do Apocalipse retrata o cenário de segurança global, levando em conta, entre outras coisas, os impactos provocados pelas mudanças climáticas.

Desde 1953, o relógio não está tão perto do “apocalipse”. Ocorre que quem faz o alerta são 14 cientistas – especialistas em energia nuclear, desarmamento, armas ou alterações climáticas – liderados por Lynn Eden, Investigadora no Centro para Cooperação e Segurança Internacional, da Universidade de Stanford, EUA. Esta apreciação é feita também por um painel de cientistas que inclui Freeman Dyson, Brian Greene, Stephen Hawking ou Martin Rees. Entre eles, há 15 cientistas laureados com o Prémio Nobel, como Steven Weinberg, Nobel da Física de 1979. Todos calculam se a humanidade está mais próxima ou mais longe de se autodestruir.

E as abelhas, coitadas, talvez sejam as primeiras vítimas de tantos desmandos.

http://revista.rebia.org.br/edicoes/2017

 


 

SUL-AMERICANOS E ASIÁTICOS COM ANCESTRAL COMUM
Correio Braziliense, 23/02/2017

Crânio de 10 mil anos achado em MG é similar ao de moradores atuais da Ásia

    
 
Fósseis encontrados no sítio arqueológico de Lagoa Santa, em Minas Gerais, estão ajudando a recontar a história da ocupação da América. Um estudo publicado na revista Science Advances, com base nos resquícios humanos escavados no local, sustenta que alguns povos sul-americanos compartilham um ancestral comum com populações modernas da Ásia, um resultado de múltiplas ondas migratórias.

A tese foi construída em cima do estudo morfológico de crânios dos homens que estavam na região mineira há 10 mil anos, depois comparados aos de indivíduos contemporâneos.
“Trata-se de um estudo de ancestralidade. Igual ao que faríamos com DNA para testar a paternidade de alguém. A diferença é que, aqui, estamos falando de ancestralidade numa escala de tempo de centenas de gerações e em uma perspectiva populacional”, explica o arqueólogo brasileiro André Strauss, professor visitante da Universidade de Tübingen, na Alemanha, e um dos autores do artigo.

“Outra diferença fundamental é que não estudamos o DNA. Em vez disso, comparamos a morfologia dos crânios dos grupos do passado com o grupo do presente. Hoje, sabemos que a morfologia do crânio tem um componente genético que permite fazer inferências de ancestralidade”, diz.

Para estudar os fósseis, os pesquisadores fizeram modelos tridimensionais dos crânios. A análise minuciosa de três regiões — abóbada, face e base — revelou que os homens que viviam em Lagoa Santa compartilham um ancestral com populações atuais do nordeste asiático. Os resultados também confirmam alguns estudos genômicos, incluindo aqueles que sugerem uma ligação entre os povos amazonenses e os australásios. Além disso, o trabalho, de acordo com os autores, dá suporte ao uso do formato craniano para fazer descobertas sobre a história de populações antigas quando as pistas de DNA são escassas.



“Por mais sofisticado que seja um método, ele ainda depende dos dados disponíveis para sua aplicação. No caso da América do início do Holoceno, ainda temos muitos poucos dados genéticos”, afirma Strauss. “Nossos esforços nesse momento estão direcionados justamente no sentido de melhorar a disponibilidade dos dados. Afinal, ainda que a morfologia craniana possa ser usada, as informações moleculares é que são os marcadores de ancestralidade por excelência”, reconhece. (PO)

 


DISTANCIAMENTO DA NATUREZA: OS RESPONSÁVEIS SOMOS NÓS MESMOS
Tereza Magro*, Correio Braziliense, 23/02/2017


Richard Louv, em seu livro Última criança na natureza, utiliza o termo “transtorno de deficit de natureza” para definir um fenômeno que estamos cientes há um bom tempo: nosso distanciamento da natureza. E não há motivos para discordar. Por um tempo, pensei que fosse o avanço da tecnologia, com toda a sedução e atrativos que fornece a baixo custo e pouco esforço, o responsável por isso. 


Também pensei que a grande culpada fosse a mídia, divulgando paraísos naturais de difícil acesso para a maior parcela da população. Porém, se pensarmos profundamente, os responsáveis somos nós mesmos.
Como jornalista, Louv sabe a força que as palavras bem colocadas têm. No início, muitas pessoas falaram do assunto nos Estados Unidos, concordando ou criticando, de modo que se expandiu para outros países. O objetivo de disseminar o termo “transtorno de déficit de natureza” foi alcançado, pois ampliou-se uma discussão que antes estava restrita a poucas pessoas.



Um dos primeiros fatores a serem analisados a respeito dessa questão é se existe a possibilidade do contato com a natureza, seja apreciando o céu em meio à cidade, seja fazendo uma trilha em um parque, seja mergulhando em uma cachoeira. Se isso tudo está disponível e a pessoa não busca maior proximidade é porque ela tem desinteresse ou não aprendeu o quanto o contato com o ambiente natural pode ser prazeroso para sua saúde física, mental e espiritual.



Por outro lado, também há o medo — de ser picada e mordida por animais ou de ser roubada, por falta de segurança em lugares mais ermos. E, atualmente, pode-se dizer que o medo é o maior responsável pelo afastamento das pessoas da natureza. Além disso, no Brasil, o planejamento urbano carece de espaços para a recreação familiar em contato com a natureza. Ainda há poucas praças e parques disponíveis para o uso da população, bem como hortas e jardins comunitários. E o que pode ser feito para mudar isso? Os governos deveriam dedicar um pouco mais de atenção e recursos financeiros para a criação de espaços de uso comum, onde a natureza esteja disponível.



Isso vai acontecer quando alguém mostrar a economia que os governantes podem ter evitando ausências do trabalho, pagamento de tratamentos, remédios e internações por falta de contato com o ambiente natural. As escolas também podem, aos poucos, retornar algumas aulas com atividades físicas nas quais as crianças possam ser expostas ao sol. Já há escolas nas quais essas atividades ao ar livre são feitas todos os dias e contribuem para o nível de vitamina D das crianças.



Outro caminho é usar com mais frequência os locais públicos que são adequados para desenvolver atividades ao ar livre. Usando a tecnologia a favor, é possível buscar áreas com vegetação próximas às nossas residências ou do trabalho para caminhar, por exemplo. Se o local não for seguro, os vizinhos podem ajudar a exigir ações para melhorar a segurança. As próximas férias também podem ser escolhidas não com base no hotel mais confortável, mas, sim, onde a natureza esteja presente.



Pensando nisso, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2017 como o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento. A intenção é contribuir com o avanço do setor do turismo, baseado nos três pilares da sustentabilidade (econômica, social e ambiental), e valorizar as riquezas naturais de cada país. É um incentivo para a aproximação com a natureza durante o ano e de levar os benefícios para toda a vida.

Em nosso dia a dia, o principal é não sucumbir à sedução da tecnologia que nos afasta cada vez mais de nossa essência humana. Temos que descobrir um caminho mais tentador que nos tire do trecho confortável que vai da poltrona até a porta da geladeira,e isso só depende de nós.

*Teresa Magro
Professora da Universidade de São Paulo (USP) no Departamento de Ciências Florestais e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza

 


 

BIOPNEUS: PNEUS RENOVÁVEIS FEITOS DE BIOMASSA
Site Inovação Tecnológica -  24/02/2017

 

Planta em escala de laboratório produzindo isopreno renovável a partir de biomassa. [Imagem: UMN]

Pneus renováveis

Uma nova tecnologia para produzir pneus de automóveis usando matérias-primas vegetais - árvores e gramíneas - promete virar a indústria em direção ao uso de recursos renováveis.
Os pneus de carro são vistos como ambientalmente hostis porque são predominantemente feitos de combustíveis fósseis e não há muito o que fazer com eles depois que chegam ao final de sua vida útil. Contudo, até hoje não existem materiais alternativos em termos de preço e desempenho.

A equipe que desenvolveu o novo processo afirma que os pneus de carro produzidos a partir da biomassa serão idênticos aos pneus atuais, com a mesma composição química, cor, forma e desempenho.

"Nossa equipe criou um novo processo químico para fazer isopreno, a molécula-chave nos pneus de carro, a partir de produtos naturais como árvores, gramíneas ou milho. Esta pesquisa poderá ter um grande impacto sobre a multibilionária indústria de pneus de automóveis," disse o professor Paul Dauenhauer, da Universidade de Minnesota, nos EUA.

Isopreno biológico

Hoje, o isopreno é produzido separando-se termicamente moléculas no petróleo que são semelhantes à gasolina, em um processo chamado craqueamento. O isopreno é então separado de centenas de outros produtos e purificado. No passo final, o composto é posto para reagir consigo mesmo, formando cadeias longas que originam um polímero sólido que é o componente principal dos pneus de automóvel.

O isopreno de biomassa, por sua vez, é fabricado a partir de açúcares extraídos de plantas como gramíneas, árvores ou milho, em um processo de três passos "hibridizado", o que significa que ele combina a fermentação biológica, usando microrganismos, com a refinação catalítica convencional, que é semelhante à tecnologia de refinação do petróleo.

O primeiro passo é a fermentação microbiana dos açúcares da biomassa, como a glicose, para se obter um composto intermediário, chamado ácido itacônico. No segundo passo, o ácido itacônico reage com hidrogênio, gerando um produto químico chamado metil-THF (tetrahidrofurano). Esta etapa foi otimizada quando a equipe identificou uma combinação metal-metal única que serviu como um catalisador altamente eficiente.

Mas o grande avanço tecnológico do processo está no terceiro passo, quando o metil-THF é desidratado para gerar o isopreno. Usando um catalisador recentemente descoberto, chamado P-SPP (pentasilautoempilhado fosfórico), a equipe foi capaz de demonstrar uma eficiência catalítica de até 90%, com a maior parte do produto catalítico sendo isopreno.

Combinando as três etapas em um processo, o isopreno renovável pode ser obtido de forma renovável a partir da biomassa.
A tecnologia foi patenteada e está disponível para licenciamento pela Universidade.

Bibliografia:

Renewable Isoprene by Sequential Hydrogenation of Itaconic Acid and Dehydra-Decyclization of 3-Methyl-Tetrahydrofuran
Omar A. Abdelrahman, Dae Sung Park, Katherine P. Vinter, Charles S. Spanjers, Limin Ren, Hong Je Cho, Kechun Zhang, Wei Fan, Michael Tsapatsis, Paul J. Dauenhauer
CatalysisVol.: 7 (2), pp 1428-1431DOI: 10.1021/acscatal.6b03335

 

 


SECRETARIA REGIONAL DE PERNAMBUCO

Prof. Marcos Antonio Lucena - Secretário Regional

Profa. Rejane Mansur Nogueira - Secretária Adjunta

 

José Antônio Aleixo da Silva (Editor)Professor titular da UFRPE e membro da Diretoria da SBPC.

Bianca Pinto Cardoso
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