Notícias

Jornal Eletrônico da SBPC/PE #23 Ano: 4

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Notícias:

INSCREVA-SE NA 72ª REUNIÃO ANUAL DA SBPC!

ACADEMIA PERNAMBUCANA DE CIÊNCIAS (APC), PROMOVEU ENCONTRO SOBRE INSTALAÇÃO DE UMA
USINA NUCLEAR EM ITACURUBA. PERNAMBUCO.

CONTRA OU A FAVOR? DOIS CIENTISTAS DISCORDAM SOBRE USINA NUCLEAR NO SERTÃO

USINAS HIDRELÉTRICAS REVERSÍVEIS VERSUS USINAS TERMO NUCLEARES

CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA VETERINÁRIA. NOTA DE REPÚDIO À PORTARIA DO MEC  N.2117

AEP PE, CREA-PE E SENGEPE PARTICIPAM DA MESA REDONDA DE VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL DA ENGENHEIRA DE PESCA

EX-PRESIDENTE DO INPE RICARDO GALVÃO É ESCOLHIDO UM DOS DEZ CIENTISTAS DO ANO PELA 'NATURE'

MESMO BLINDADO, ORÇAMENTO DA CIÊNCIA JÁ NASCE CONTINGENCIADO PARA 2020

RELATÓRIO DENUNCIA PERSEGUIÇÃO A ACADÊMICOS E UNIVERSIDADES NO MUNDO, COM DESTAQUEINÉDITO AO BRASIL

ATAQUES À CIÊNCIA SÃO ATAQUES À DEMOCRACIA A ATUAÇÃO DA ABC

UNIVERSIDADES NO BRASIL TÊM LIBERDADE DE PENSAMENTO AMEAÇADA, DIZ RELATÓRIOINTERNACIONAL

PESQUISADORAS DA EMBRAPA ESTÃO ENTRE OS CIENTISTAS MAIS INFLUENTES DO MUNDO

MADEIRA FUNCIONALIZADA PROMETE SUBSTITUIR PLÁSTICOS

MATERIAL EXTRAÍDO DA CELULOSE PROMETE REVOLUCIONAR A CIÊNCIA E A TECNOLOGI

ESTUDO DESENVOLVE 'EQUAÇÃO' QUE MOSTRA QUE NÃO DESMATAR PODE TRAZER MAIS LUCROSPARA O PAÍS


 

Secretária Regional: Maria do Carmo Figueredo Soares
Secretaria Regional Adjunta: Marília Regina Costa Castro
 

José Antônio Aleixo da Silva (Editor)
Professor titular da DCFL/UFRPE
Conselheiro da SBPC

Paulo Henrique PontesDesigner do Jornal


A Secretaria Regional da SBPC-PE vem neste final de ano desejar a tod@s boas festas e um excelente 2020, na esperança que a Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação sejam reconhecidas como a base de um desenvolvimento econômico, social e ambientalmente sustentável  e que os que governam o Brasil tenham a compreensão de que sem estes setores jamais seremos um país de primeiro mundo.

 

Neste momento é bom lembrar o que Oswaldo Cruz falou no início do século passado.

“Meditai se só as nações fortes podem fazer ciência, ou se é a ciência que as fazem  fortes”

Oswaldo Cruz (1900)

 

Voltaremos em fevereiro.

 


 

INSCREVA-SE NA 72ª REUNIÃO ANUAL DA SBPC!

JC Notícias, 13.12.2019

 

Com o tema “Ciência, Educação e Desenvolvimento Sustentável para o Século 21”, o evento será realizado na UFRN, em Natal, entre os dias 12 e 18 de julho de 2020

Já estão abertas as inscrições para a 72ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que será realizada de 12 a 18 de julho de 2020, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal (RN). Com o tema “Ciência, Educação e Desenvolvimento Sustentável para o Século 21”, o evento será um diálogo com as novas gerações, convidando a pensar no futuro, a partir do presente.

Esta edição contará com uma Programação Científica composta por conferências, mesas-redondas, encontros, sessões especiais, minicursos e a sessão de pôsteres, que inclui a Jornada Nacional de Iniciação Científica. Também são realizadas outras atividades, como a SBPC Inovação, SBPC Afro e Indígena, SBPC Educação, SBPC Cultural, SBPC Jovem, ExpoT&C, e o Dia da Família na Ciência.

Os valores variam de R$ 80,00 a R$ 400,00, conforme a categoria do participante, sendo opcional o livro impresso da programação e a sacola do evento (entre R$ 30,00 a R$ 60,00 adicionais).

A inscrição somente é necessária para quem quiser submeter trabalho, frequentar um minicurso ou ainda obter o certificado de participação geral e o material do evento. Para os demais, a participação no evento é livre e gratuita.

Os interessados em submeter trabalhos terão até 23 de março de 2020 para fazer a inscrição. O evento terá um limite de 1000 trabalhos que, se for atingido, poderá antecipar o encerramento do prazo.

Acesse mais informações no site do evento.

A Reunião Anual

A SBPC foi criada em 1948 e é uma entidade voltada à defesa do avanço científico e tecnológico e do desenvolvimento educacional e cultural do Brasil. Atualmente possui cerca de 150 sociedades científicas associadas, em todas as áreas do conhecimento, e mais de 5 mil sócios ativos.

Considerado o maior evento cientifico da América Latina, a cada ano a Reunião Anual da SBPC é realizada em um estado brasileiro, sempre em universidade pública. O evento reúne milhares de pessoas, entre cientistas, professores e estudantes de todos os níveis, profissionais liberais e visitantes. Além de autoridades e gestores, formuladores de políticas públicas para ciência e tecnologia no País.

As reuniões anuais da SBPC têm, concomitantemente, os objetivos de debater políticas públicas nas áreas de Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação e de difundir os avanços da Ciência nas diversas áreas do conhecimento para toda a população.

 

Jornal da Ciência


 

ACADEMIA PERNAMBUCANA DE CIÊNCIAS (APC), PROMOVEU ENCONTRO SOBRE INSTALAÇÃO DE UMA USINA NUCLEAR EM ITACURUBA. PERNAMBUCO. 

                                                      
A APC promoveu no dia 06 de dezembro, no auditório do Espaço Ciência, o debate “INSTALAÇÃO DE UMA USINA NUCLEAR EM ITACURUBA-PERNAMBUCO: PRÓS E CONTRAS”, em parceira com a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação de Pernambuco (SECTI).
Além d@s acadêmic@s da APC, compareceram a reunião representantes das seguintes instituições: UFPE, UFRPE, UPE, INICAP, IFPE, ITEP, CPRH, FAFIRE, SECTI, CRCN, SEFAZ, Assembléia Legislativa de Pernambuco-ALEPE, Secretaria de Educação, Corpo de Bombeiros, ONG Amazônia na Rua, Marcha Mundial da Mulheres MMM, Academia Pernambucana de Ciência Agronômica-AP CA, Academia Pernambucana de Engenharia-APEENG, Associação Comercial de Pernambuco-ACP, Ordem dos Advogados do Brasil-OAB, CIMI-NE, WWF-Brasil, PROVIDA, STR LTDA, Planejamento Integrado, FUNDAJ, IPSA, AMUPE, MNU-PE, Espaço Ciência, CEPLAN, Deputado líder do Governo na ALEPE, Prefeito de Mirandiba, Vice-Prefeito de Itacuruba e vários profissionais liberais.
A reunião teve início com a formação da mesa coordenadora composta por José Aleixo (Presidente da APC), Aluísio Lessa (Secretário da SECTI) e Antônio Carlos Pavão (Espaço Ciência).

 

Pavão, Aleixo e Aluísio Lessa

 

Logo após, iniciou a apresentação das palestras na seguinte sequência: Carlos Mariz (Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares - ABDAN), Heitor Scalambrini (UFPE), Sérgio Machado Rezende (UFPE) e Vania Fialho (UPE), moderada pelo Aluísio Lessa.Carlos Mariz – ABDAN

 

Carlos Mariz 

Heitor Scalambrini – UFPE

Sérgio Rezende – UFPE

Vânia Fialho - UPE

Após a apresentação das palestras ocorreu um coffee break, sendo que depois reiniciou o evento para o debate com a plateia. A mesa foi formada com os quatro palestrantes e o moderador José Aleixo. Os debates iniciaram às 11h30min e encerrado às 13h15min com intensa participação da plateia.
Em função das apresentações dos prós e contras e do intenso debate ocorrido, é muito provável que outro(s) encontro(s) envolvendo outros setores da discussão poderão ocorrer, sendo que em função de um convite da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) existe alta probabilidade que o evento realizado se repita em Petrolina no mês de fevereiro ou março.


 

CONTRA OU A FAVOR? DOIS CIENTISTAS DISCORDAM SOBRE USINA NUCLEAR NO SERTÃO

Marco Zero Conteúdo, 13.12.2019

 

Nos assuntos mais buscados no Google pelos brasileiros, este ano, está o seriado Chernobyl, que narra a catástrofe vivida na cidade ucraniana de mesmo nome, quando uma usina nuclear explodiu, em 1986. Estamos falando de uma série de TV, mas usinas nucleares não são papo de ficção científica. No mundo há, pelo menos, 450 reatores em funcionamento. O Brasil tem três.

Este ano, o governo brasileiro retomou planos de construção de uma usina nuclear no sertão pernambucano. Itacuruba, município de 4 mil habitantes às margens do rio São Francisco, foi apontado em estudos da Eletronuclear como local adequado para abrigar uma central com até seis reatores, conforme o ministério de Minas e Energia documenta em resposta a um pedido de informação feito pela OAB (Ordem de Advogados do Brasil). 

Os debates em torno do projeto Itacuruba, e sobre a instalação de usinas nucleares em si, envolvem uma série de fatores ambientais, sociais e políticos. Por exemplo, cientistas garantem que, mais de 30 anos depois do acidente nuclear na antiga União Soviética, os equipamentos evoluíram bastante em segurança e tecnologia. A energia nuclear é, inclusive, considerada uma fonte limpa de geração elétrica, por não emitir gases de efeito estufa, embora sua fonte não seja renovável, como a solar e a eólica. Além das usinas, a tecnologia nuclear também tem aplicações importantes na medicina.

Apesar disso, o tema é complexo e as dúvidas persistem. Afinal, as usinas nucleares são seguras? Este tipo de projeto é vantajoso para o Brasil? Quais os riscos envolvidos?

 

Conversamos com dois respeitados físicos brasileiros que têm experiência na área de energia. Sérgio Rezende, que é favorável ao projeto, e Ildo Sauer, que é contrário. Leia as respostas deles e tire suas próprias conclusões.

 

Sérgio Rezende é professor da UFPE. Foi ministro da Ciência e Tecnologia nos dois mandatos do ex-presidente Lula. Rezende também foi secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente em Pernambuco.

 

Ildo Luis Sauer é ex-diretor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP) e PhD em Engenharia Nuclear pelo Massachusetts Institute of Technology. Foi diretor de gás e energia da Petrobras e também é ex-gerente de projeto de reator nuclear para a Marinha do Brasil.

 

Custos

SauerDe modo geral, o país tem outras opções para produzir energia que vão custar em torno da metade de uma usina nuclear. Temos os melhores recursos naturais do mundo para a geração de energia. Apenas a conclusão de Angra 3, fora o que já foi gasto, vai exigir de R$ 16 a R$ 20 bilhões, com capacidade de gerar 1.341 megawatt (MW), que, descontado o tempo de manutenção da usina, no final resulta em 1.000 MW .Ou seja, o custo de energia gerada é acima de 200 MW por hora (MWh). Usando usinas eólicas, essencialmente no Nordeste, onde se tem muito vento, o governo precisaria gastar metade – R$ 8 a 10 bilhões – para construir o número de usinas eólicas (geração de energia com o vento) que chegue a uma geração de 2 mil MW. Para fazer usina fotovoltaica (geração solar) custaria de R$ 8 a R$ 10 bilhões para construir 5 mil a 6 mil MW.

RezendeSe você cobrir 2,5% da área de Pernambuco com painéis solares você gera toda a energia elétrica usada no Brasil. Mas a usina solar só gera em um terço do tempo da nuclear, é uma geração intermitente porque não tem sol o dia todo. E os custos são altos. Não seria factível economicamente para gerar toda a energia que precisamos. Mas é factível ter várias usinas solares, sim, só que precisa de uma energia de base, de geração contínua. As energias solar e eólica sozinhas não resolvem o problema.

Energias renováveis X energia nuclear

Sauer Para avançar economicamente e socialmente o Brasil precisa dobrar a produção de energia. É possível uma combinação entre energia solar, eólica e hidrelétrica, sem precisar da nuclear. Cobrindo a cidade São Paulo com painéis solares seria possível gerar mais energia do que hoje é consumido no Brasil. O problema é a conciliação dia e noite, porque a usina nuclear opera continuamente e a geração solar é intermitente. Mas temos um potencial de de geração de energia eólica 500 e 800 mil MW instalável, mais 100 mil MW de potencial instalável em hidrelétricas. Isso sem falar que as gerações eólica e a fotovoltaica ainda têm ganhos tecnológicos possíveis. Há um potencial eólico offshore (em alto mar) e de geração de energia a partir dos resíduos urbanos orgânicos ainda não explorado, sem falar da geração a partir do bagaço da cana-de- açúcar (biogás).

Rezende É preciso energia de base, como disse. É o caso das usinas hidrelétricas, das térmicas e das nucleares. Nós precisamos ter saídas para energia porque precisamos aumentar a quantidade de energia e não pode ser com combustíveis fósseis. Atualmente mais de 60% da energia consumida no Brasil vem de combustíveis fósseis. O problema é que os combustíveis fósseis geram fumaça e o que está acontecendo com a Terra é a cada ano o efeito estufa aumenta. A temperatura do planeta está subindo, o nível do mar está subindo, a cobertura de neve no Hemisfério Sul tá reduzindo. No governo Dilma foram construídas três hidrelétricas importantes, mas que causam impactos ambientais porque inundaram áreas grandes. Mesmo assim, seriam uma boa opção, mas no Brasil não há mais sítios para as grandes hidrelétricas.

Série Chernobyl reavivou o debate sobre usinas nucleares

Riscos

SauerExistem hoje reatores mais seguros do que os de Angra, mas o custo deles é três vezes maior do que usinas eólicas e a fotovoltaicas. O projeto de Angra 3, por exemplo, é avançado para a década de 70. Isso sem dizer que cada reator gera cerca de mil toneladas de combustíveis irradiados, requerendo cuidados por muitas gerações depois.

Além de custar o dobro das outras alternativas , as usinas nucleares nos deixam uma herança. Um reator precisa de 300 anos de cuidado se os combustíveis irradiados forem reprocessados ou de 2 mil anos, se não forem, (os de Angra, por exemplo, estão sendo mantidos em piscinas). Fora o risco, que existe, de episódios e acidentes como aconteceu em Three Mile Island (nos Estados Unidos) e Fukushima (no Japão), que aconteceu em decorrência de uma tsunami.

RezendeA usina nuclear gera energia a partir da desintegração de átomos de metais pesados. No reator de uma usina, essa reação é controlada. O calor gerado esquenta água, gera vapor e move uma turbina. Um reator nuclear tem três circuitos independentes, mas ligados, que objetivam aumentar a segurança da operação. Os dois acidentes – houve Chernobyl e Three Miles – são muitos antigos. Por conta desses acidentes a segurança nos reatores aumentou muito. Deixou-se de usar certos tipos de reatores. Em Fukushima não houve acidente nuclear, foi algo geológico. Teve um maremoto que invadiu a usina.

Uma usina nuclear tem que ser construída perto da água e é melhor água doce, porque a salgada corrói a tubulação. A maioria é perto do mar, como Angra 1 e 2, mas elas exigem manutenção maior e a durabilidade é menor. Numa usina nuclear, o circuito da água não tem contato com a radioatividade. Por isso, a água do rio São Francisco, no caso de Itacuruba, não seria retida. Ela entra e sai e só é usada para refrigerar o sistema. Não tem contato com a radioatividade. 

Impactos sociais

SauerA compensação para a população de Itacuruba, se houver, vai vir como indenizações do governo. Os custos recaem no dinheiro dos próprios brasileiros – nos impostos, nos recursos que deveriam ser investidos em melhorias para a população e na tarifa elétrica, que fica mais cara. Pela metade do custo temos outras opções que geram mais emprego. Pás eólicas, por exemplo, já são produzidas no Brasil e temos empresas nacionais produzindo geradores para torres de geração de energia eólica. Oferecer migalhas e compensações para ludibriar ou atrair pessoas faz parte de uma estratégia que não é necessária.

Rezende – Itacuruba foi escolhida por condições geográficas, como o terreno plano, o solo muito estável. Mas também por ser uma região muito sofrida. Acredito que seria uma grande vantagem para a economia da região ter um projeto como esse que vai gerar empregos e renda.

 


 

USINAS HIDRELÉTRICAS REVERSÍVEIS VERSUS USINAS TERMO NUCLEARES

Blog Inovação e Adaptação ao Aquecimento Global, 12.12.2019


Há, em alguns países, a visão de que o esforço para redução da emissão de gases provocadores de Efeito Estufa oferece uma oportunidade impar para retomada da construção de reatores nucleares de potência visando à produção de energia elétrica limpa das tais emissões.
Neste sentido houve um debate no passado 6 de dezembro, em Recife, Brasil, propiciado pela Academia Pernambucana de Ciências sobre uma proposta de implantação de um reator nuclear no município de Itacuruba, nas margens da represa de Itaparica, no Rio São Francisco a cerca de 300 km de sua Foz. A sessão foi aberta ao público que atendeu ao seu anúncio, tendo ocorrido no Espaço Ciência, um museu de ciência desenhado para complementar a educação científica do sistema formal de ensino básico e médio, simbolicamente instalado num ponto entre Recife e Olinda, de vital importância no nascer da colônia Brasil e que, construído em um mangue, será, infelizmente, uma das primeiras áreas no Brasil a ser inundada pela inexorável subida do nível do mar. 
O Brasil possui duas usinas nucleares de produção de energia elétrica no Sudeste, em atividade em Angra dos Reis e uma terceira em construção no mesmo parque. Satisfazem elas, o que o Brasil precisa de domínio de conhecimento sobre energia nuclear a partir do uso da energia nuclear para fins de produção de energia elétrica, imprescindível a um país da dimensão do Brasil. A imprescindibilidade de energia de origem nuclear ser ampliada com a instalação de outros reatores foi debatida sob a arguição de que as ampliações de capacidade de geração recentes no país são proporcionadas por energia de fonte eólica e de fonte solar, pela via do uso dos painéis fotovoltaicos. Essas duas fontes têm descontinuidades.
As turbinas eólicas são imprevisíveis, dado a necessidade de uma velocidade mínima do vento. A energia fotovoltaica só é gerada durante os períodos de insolação. Um expositor colocou as nuvens como interrompendo da produção de energia das células fotovoltaicas. De fato as nuvens reduzem a eficiência da produção de energia elétrica das células. Certos tipos de nuvens podem até zerar a produção. Indiscutivelmente a produção tem um componente de aleatoriedade, além da ciclicidade diária de mais da metade do dia sem produção de energia.
A potência firme da usina termonuclear independendo das condições climáticas e do horário, faz vista como indispensável esta fonte de energia na matriz elétrica para garantir estabilidade da rede. Pelo tom dos debates estando esgotada a disponibilidade para expansão da energia hidrelétrica, a alternativa à energia nuclear, como fonte firme, contínua, seria apenas as fontes termelétricas de origem fóssil. 
É interessante registrar que o debate passou ao largo de alternativas ao uso de reatores nucleares para resolver o problema de estabilidade da rede e de oferta independente de condições de vento e da ciclicidade da  incidência dos raios solares. Foi implicitamente colocado, se resolve o problema da descontinuidade das fontes eólica e solar de energia elétrica com a instalação de usinas termonucleares ou, usa-se fonte fóssil, hoje indesejável pelos seus rebatimentos no agravamento do Aquecimento Global. A energia nuclear, surge como uma fonte indispensável. Mas não haverá mesmo alternativa, ou estará sendo esquecida?
Visando enriquecer o debate, insere-se aqui uma alternativa. Trata-se de gerar energia elétrica no montante suficiente para acumular energia potencial hidrelétrica, possibilitando gerar a energia elétrica suficiente requerida durante o período de indisponibilidade de fontes renováveis. Isto é conseguido em usinas hidrelétricas reversíveis, uma multisecular ideia posta em prática já nos anos 1890. Nos anos 1930 já era disponível para uso comercial, uma turbina capaz de funcionar como motor para o gerador acionado pela turbina, funcionando ela também como bomba para elevação da água, movida pelo motor elétrico em que se converte o gerador. 
Água é bombeada de um reservatório de menor cota para um de cota mais elevada. Posteriormente é usada para gerar energia elétrica, enquanto retorna do reservatório de cota mais elevada para o de menor cota. O ciclo de que se está tratando é diário no que concerne a suprir o período diário de não geração de energia elétrica em painéis solares. Deve se considerar um componente adicional para suprir deficiência de geração de energia elétrica em turbinas eólicas devido a velocidade do vento poder ser, em partes do dia, inferior à requerida pelas turbinas, ou gerar um fluxo insuficiente de energia elétrica face ao requerido. Vê-se que os reservatórios têm da ordem de milésimos do volume requerido por kwh nas usinas hidrelétrica convencionais. Representam, portanto, sob este aspecto, estes reservatórios, custos ecológicos e econômicos de ordem de grandeza substancialmente menores do que os reservatórios das usinas hidrelétricas convencionais.
A eficiência das usinas hidrelétricas reversíveis é satisfatória. Entre outros fatores depende principalmente da diferença de cotas entre a entrada, ou seja, a tomada da água, e a saída da água; e da intensidade do fluxo de água. O valor típico da eficiência pode ser tomado como 80% (RAIMUNDO, 2019, p.32).
Dada a alta eficiência das células solares no Nordeste, com latitudes abaixo de 10 graus de latitude Sul, mesmo perdendo 20% para armazenamento de energia, o custo da energia elétrica fica menor do que a gerada por células solares em 52 graus de latitude Norte, como Berlim, capital da Alemanha, pais que é grande usuário de energia elétrica de fonte fotovoltáica.
Note-se que os reservatórios das Usinas Hidrelétricas Reversíveis que sejam ao ar livre (o inferior pode estar em uma mina abandonada, sem insolação, portanto) apresentam perdas por evaporação. Mas, a evaporação pode ser significativamente reduzida se a lâmina d’água for ensobrada por painéis solares, geradores de energia elétrica. Quem está entre menos e mais dez graus de latitude tem condições privilegiadíssimas para utilizar a energia solar transformando-a diretamente em energia elétrica, e assim, gerar durante as horas de insolação energia elétrica para horas sem insolação, usando usinas hidrelétricas reversíveis como acumuladores de energia.
É patente a afinidade dos cientistas com formas de gerar energia elétrica que demandam o emprego de cientistas e de engenheiros de larga formação científica, onde se distingue a energia termonuclear. Mas, acreditando que os cientistas estejam interessados no bem-estar da população, acreditamos, por decorrência, que a Academia Pernambucana Ciências venha a promover debates que contemplem a solução nuclear face a soluções mais convencionais.
RAIMUNDO, Danielle Rodrigues. Análise ambiental de projeto de armazenamento de energia via Usina Hidrelétrica Reversível. 2019. 107 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Energia) – Universidade Federal de Itajubá, Itajubá, 2019. Disponível em:https://repositorio.unifei.edu.br/xmlui/handle/123456789/1987. Acesso em: 11 dez., 2019.

 

Wikipedia (2019). Pumped-storage hydroelectricity. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Pumped-storage_hydroelectricity.Acesso em 8 dez., 2019.
Observações
1 O assunto tratado nesta postagem é associado ao da postagem anterior, https://inovasmtp.blogspot.com/2019/12/uma-usina-nuclear-em-itacuruba.html

2 As postagens deste Blog Inovação e Adaptação ao Aquecimento Global constituem ações voluntárias dos mantenedores do Blog a uma melhor compreensão dos formadores de opinião e da sociedade em geral sobre as questões que possibilitam uma vida melhor face aos desafios postos pelo Aquecimento Global, pensando, principalmente nos povos que não causaram o Aquecimento, contribuem marginalmente para ele, sofrem com peso conhecidamente alto as suas consequências, são pressionados a porem barreiras em seus processos de desenvolvimento para mitigar o fenômeno que não causaram e têm escassíssimos recursos para se contraporem a seus efeitos maléficos por meio de Adaptação. Se o leitor concorda que tais ações aqui relatadas são úteis, não se exima de contribuir proporcionando divulgação do aqui exposto.  

 


 

CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA VETERINÁRIA. NOTA DE REPÚDIO À PORTARIA DO MEC N.2117

CRMV-PE, 13.12.2019

 

O Conselho Regional de Medicina Veterinária de Pernambuco (CRMV-PE), em nome dos seus dirigentes e das classes profissionais que representa – Medicina Veterinária e Zootecnia –, vem manifestar publicamente o seu repúdio à Portaria 2117 do Ministério da Educação (MEC), publicada em 6 de dezembro de 2019, que permite que os cursos presenciais tenham até 40% das aulas realizadas na modalidade EAD, de Ensino à Distância.

Como se não bastasse a situação precária do ensino no Brasil, com abertura indiscriminada de novos cursos de nível superior, muitos sem a mínima condição de oferecer um ensino digno, nos deparamos agora com o ensino a distância. É fato que as novas tecnologias tornaram as distâncias menores, permitindo a troca de informações em tempo real, porém o ensino a distância não pode ser utilizado de forma indiscriminada, desrespeitando princípios básicos do aprendizado. A presença do professor, o contato com o objeto de estudo e o desenvolvimento de habilidades são premissas extremamente importantes para serem desprezadas

Em especial para os cursos da área de saúde, onde o contato direto com pacientes (humanos ou animais), a vivência in loco com situações reais e o treinamento nas mais diversas disciplinas fornecem a base para a formação de um profissional confiante e capacitado.

Nesse contexto, a Medicina Veterinária, que é um dos alicerces da saúde única (a que envolve a saúde humana, animal e ambiental), sofre um enorme golpe na capacidade de formar bons profissionais. O Médico Veterinário tem uma forte ligação com a saúde pública, pois realiza o combate às zoonoses, fiscaliza a qualidade dos alimentos de origem animal, faz a vigilância sanitária, entre outras atividades que protegem a saúde dos cidadãos, sendo assim, é inadmissível que seja realizado o preenchimento de carga horária através do ensino a distância.

O uso de carga horária EAD nos cursos de graduação presencial, principalmente, na área de saúde, sendo este instituído através de ato administrativo, impedindo um debate aprofundado com a sociedade e com a comunidade acadêmica, poderá trazer prejuízos incalculáveis ao ensino. Salientamos, ainda, a caracterização de possíveis elementos de ilegalidade e de inconstitucionalidade.

Em razão do exposto acima, conclamamos toda a sociedade e instituições para, juntos, rechaçarmos a liberação do EAD nos cursos da área de saúde no nosso País.

 

Marcelo Teixeira Weinstein

Presidente do CRMV/PE

CRMV/PE nº 1874

 


 

AEP PE, CREA-PE E SENGEPE PARTICIPAM DA MESA REDONDA DE VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL DA ENGENHEIRA DE PESCA


Na semana da Engenheira de Pesca, a AEP PE coordenou a mesa redonda de política profissional. “VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL DA ENGENHEIRA DE PESCA”.

Participaram  o Sindicato dos Engenheiros de Pernambuco, por meio do presidente Mozart Bandeira, o coordenador nacional da câmara de Agronomia e coordenador da câmara de Agronomia do CREA PE, o Engenheiro de Pesca presidente da Federação Nacional dos Engenheiros de Pesca  José Carlos Pacheco, representando o CREA PE, e o presidente da Associação dos Engenheiros de Pesca do Estado de Pernambuco e conselheiro do CREA PE, Engenheiro de Pesca Rodolfo Rangel.

O representante do CREA PE, José Carlos Pacheco, apresentou com destaque  a importância do Registro no CREA e  da Anotação de Responsável Técnica,  bem como do papel do Engenheiro de Pesca e sua relação com o sistema CONFEA-CREA, relacionamento da profissão com o ambiente de trabalho que são os oceanos, mares, rios, riachos, fazendas aquáticas e as águas interiores .Também abordou as lutas nacionais da Engenheira de Pesca , no âmbito do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia .

O presidente do SengePE, convidou para a AEP PE, participar do processo de Engenharia para todos e na luta para a Engenheira para a sociedade. Para Mozart a valorização profissional da Engenheira de Pesca passa pelas políticas públicas da classe trabalhadora e que precisamos juntar forças com as entidades para alcançarmos as conquistas. Também ressaltou aos profissionais e estudantes presentes a prestarem serviços técnicos como forma de contribuir com a qualidade de vida da sociedade.

O presidente da AEP PE, Rodolfo Rangel apresentou um elenco de conquistas coletivas que vem ocorrendo no âmbito da gestão atual, relembrando que a Engenharia popular foi fruto de uma proposta da AEP PE, na penúltima Soea, que vem se fundamentando na produção de alimento, com o pescado, com reforço da extensão aquícola familiar e é preciso avançar com projetos pilotos para que seja efetivado os benefícios à sociedade.

A gestão atual da AEP PE  tem avançado com muito no diálogo com a sociedade, como por exemplo,  nos temas do acidente do óleo diesel, estando lado a lado com os pescadores artesanais, apoiando ações governamentais de minimizar os impactos com a ampliação de seguros, defesa do instrumento do registro geral da pesca que deixa de fora uma grande part dos pescadores artesanais, bem como, respaldando  conhecimento técnico  que possa esclarecer a sociedade quando houver riscos de contaminação do pescado,  e combate as desinformações que afugenta o consumidor de pescado, assim como, ações que possam mitigar os efeitos da retração momentânea do consumo do pescado. E também nas diversas ações de parceria e diálogo que parcela dos Engenheiros de Pesca exerce na extensão pesqueira e aquícola públicas ou não, com os pescadores artesanais e da aquicultura familiar e com produtores rurais isolados e em comunidades de assentamentos indígenas e de quilombolas.

A atual gestão da AEP PE em anos anteriores em parceria com o SengePE, realizaram o curso de extensão pesqueira pelo Engenheiro de Pesca do IPA Jair Valentim. Também trabalhou com pescadores e aquicultores na construção da política da pesca e aquicultura em diversos fóruns com o debate interno e externo que também abordem o mercado de trabalho da Engenheira de Pesca, bastante plural, desde os segmentos sociais até segmentos do aquonegócio, principalmente na expansão no segmento do empreendorismo, tema que precisa de maiores debates. atrelando ações ao crédito da caixa de assistência dos profissionais do CREA PE aos seus associados Engenheiros de Pesca.

Para Rangel, "são muitos desafios que precisam ser enfrentados, destacando-se o cumprimento da lei 4950-A, do salário mínimo profissional e da política salarial da classe trabalhadora na pesca e aquicultura e na indústria pesqueira.

Outras ações precisam ter continuidade junto com as instituições parceiras, destacando-se a construção com o Programa de Educação Tutorial da UFRPE, com a coordenação do Engenheiro de Pesca, Paulo Oliveira, que coordena ações juntos aos estudantes da Engenheira de Pesca da UFRPE, sobretudo para coparticipações na realização do próximo Congresso Brasileiro de Engenharia de Pesca e o segundo Congresso Latino Americano de Engenheira de Pesca em 2021, a ser realizado em Pernambuco.

Ressalte-se que esses Congressos de Engenharia de Pesca têm apoio governamental da Secretária de Desenvolvimento Agrário.


 

EX-PRESIDENTE DO INPE RICARDO GALVÃO É ESCOLHIDO UM DOS DEZ CIENTISTAS DO ANO PELA 'NATURE'

Johanns Eller, O GLOBO, 13.12.2019

 

Físico foi exonerado do cargo em agosto, após embate com Bolsonaro, que questionou dados de desmatamento na Amazônia; revista é referência na área.


O físico Ricardo Galvão, ex-presidente do Inpe Foto: Lucas Lacaz Ruiz/A13 / Agência O Globo

 

RIO — O ex-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)Ricardo Galvão é um dos dez especialistas escolhidos pela revista "Nature", referência da área, para o "Nature's 10", premiação anual para os destaques na ciência. A informação foi confirmada pelo próprio físico. Galvão protagonizou em julho um duro embate com o presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, após divulgar dados oficiais do desmatamento na Floresta Amazônica.

A lista completa será divulgada pela "Nature" na próxima terça-feira, às 13h, no horário de Brasília. Galvão contou ao GLOBO que foi entrevistado por jornalistas da revista há duas semanas, quando participava de um ciclo de palestras na Universidade Columbia, em Nova York, nos EUA.

— Naturalmente, como brasileiro, me sinto triste pelo motivo da indicação ter sido o fato de o governo não ter cumprido suas obrigações com a preservação da Floresta Amazônica. Por outro lado, fico satisfeito, porque foi um momento difícil decidir o que fazer naquela ocasião, mas entendi que deveria demarcar uma posição firme. Não era apenas a questão do desmatamento, mas um ataque à ciência brasileira — afirma Galvão. — A parte boa é que a reação não só da sociedade brasileira, mas de toda a comunidade internacional, foi enorme. A preservação da Amazônia atraiu interesse do mundo todo e colocou o governo brasileiro em uma posição extremamente constrangedora.

Análise: Defesa da ciência levou brasileiro a ser reconhecido pela 'Nature'

A exoneração de Galvão, em agosto, causou forte repercussão na comunidade científica brasileira e internacional. Na ocasião, Bolsonaro sugeriu que o cientista poderia "estar a serviço de alguma ONG" e questionou os dados divulgados pelo Inpe, que apontaram um aumento expressivo do desmatamento na Amazônia no mês anterior. Seu substituto, o oficial da Aeronáutica Darcton Policarpo Damião, declarou que o aquecimento global "não era sua praia".

"A ciência não pode jamais ser atacada"

O ex-presidente do Inpe, que tem 71 anos, recebeu na última semana o título de cidadão paulistano pela Câmara Municipal de São Paulo.

— Uma das razões que a "Nature" me informou ter me escolhido é que, no momento em que se propagam questões obscurantistas, negacionistas e terraplanistas, tive a coragem de contrariar o governo mostrando a importância da ciência. Ela não pode de forma nenhuma ser atacada. Tenho sempre repetido que todo gestor público, todo líder de um país deveria ter consciência de que, quando se trata de questões científicas, não há autoridade acima da soberania da ciência.

A indicação se tornará pública em meio à participação do Brasil na 25ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-25), em Madri, onde os índices de desmatamento anunciados pelo Inpe e pesaram contra o tradicional protagonismo que o país exercia na área.

— Infelizmente vimos o ministro Salles falar (na COP-25) que o Brasil não pode ser atacado porque ainda tem 80% da floresta. É um discurso para enganar bobo, porque assim ele busca esconder a ausência de ações de fiscalização e de controle da Amazônia que deveriam ser tomadas. Medidas que, inclusive, são regulamentadas pela lei 2.187 no Brasil no combate ao aquecimento global — afirma o ex-presidente do Inpe.

 


 

MESMO BLINDADO, ORÇAMENTO DA CIÊNCIA JÁ NASCE CONTINGENCIADO PARA 2020

Herton Escobar,  Jornal da USP, 13.12.2019

 

Proposta do governo reduz em 15% os recursos para o MCTIC e coloca 40% em reserva de contingência, indisponíveis para gasto

O anúncio de que o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) ficará isento de contingenciamentos em 2020 foi uma boa notícia inesperada para a comunidade científica nesta reta final de 2019. Mas não há muito o que comemorar. Por baixo dessa “blindagem”, o orçamento proposto para o MCTIC no ano que vem é 15% menor do que o deste ano, e já traz embutido nele um contingenciamento de quase 40%, que não poderá ser desfeito.

“A situação não é nada animadora; temos um quadro muito difícil pela frente”, diz o físico Ildeu Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Procurado pela reportagem para comentar os números, o MCTIC destacou por meio de sua assessoria de comunicação que vem atuando junto ao Congresso Nacional e ao Governo Federal “no sentido de demonstrar a importância de investimentos contínuos e previsíveis no sistema de ciência, tecnologia e inovação, que são a ponta de lança do desenvolvimento de qualquer país”. (Leia a nota completa abaixo.)

O orçamento total previsto para o MCTIC na última versão do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA 2020) apresentado pelo governo é de aproximadamente R$ 13 bilhões, 15% menos do que os R$ 15,3 bilhões aprovados na Lei Orçamentária Anual (LOA) deste ano, segundo uma comparação feita pela assessora Mariana Mazza, da SBPC (veja quadro abaixo).

Desse total, cerca de R$ 5,1 bilhões (39%) estão alocados como “reserva de contingência” — o que significa que o dinheiro está lá, no orçamento do MCTIC, mas não pode ser gasto com ciência e tecnologia (fica reservado para composição de superávit primário e pagamento de juros da dívida pública).

 

Foto: Marcio Nascimento / Ascom / MCTIC

 

A “blindagem” aprovada pelo governo impede que o orçamento seja contingenciado em 2020, uma vez aprovado o PLOA, mas não desfaz esse contingenciamento que já está embutido no projeto de lei. “Importante ressaltar que essa reserva de contingência não é liberada nunca”, diz o professor Glaucius Oliva, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP. “Não é um chocolatinho que vai voltar no fim do ano, se as coisas melhorarem. É um dinheiro perdido. 

Além disso, R$ 1,3 bilhão (10% do total) estão inscritos no orçamento como “crédito suplementar”, sujeito a aprovação posterior do Congresso Nacional para sua utilização. Ou seja, é um recurso que está previsto, mas não garantido.

No fim das contas, excluindo-se ainda os recursos já comprometidos com salários, aposentadorias e outras despesas obrigatórias, o que sobra como recursos discricionários, disponíveis para investir em ciência e tecnologia, são R$ 4,7 bilhões — uma redução de 38% em relação a 2019, segundo os dados da SBPC.

“A perspectiva para 2020 segue muito ruim”, conclui Oliva, que também é ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) — um dos órgãos mais afetados pelos cortes. 

COLAPSO ORÇAMENTÁRIO

O que está previsto na última proposta orçamentária do governo (PLOA 2020) para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e outras instituições de relevância para o setor em 2020, em valores arredondados:

 

MCTIC

O orçamento total proposto para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) é de 13 bilhões uma redução de 15% em relação a 2019. Dentro desse total, 5,1 bilhões estão alocados como reserva de contingência, o que significa que não poderão ser usados; 1,3 bilhão estão inscritos como crédito suplementar, ou seja, são condicionados a aprovação do Congresso para sua utilização. O orçamento disponível para o financiamento de pesquisas, bolsas e outras atividades de fomento à ciência (excluindo salários, reserva de contingência e outras despesas fiscais obrigatórias) é de 4,7 bilhões uma redução de 38% em relação a 2019.

FNDCT / Finep

O orçamento previsto para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e consequentemente para a Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep), que administra esses recursos, é de 4,9 bilhões. Isso representa um aumento de 15% em relação ao valor do fundo em 2019. Porém, 87% desse total, 4,3 bilhões estão alocados como reserva de contingência, o que significa que não poderão ser gastos. O valor efetivamente disponível para investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, portanto, é de apenas 600  milhões.

 CNPq

Orçamento total proposto para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vinculado ao MCTIC, 1,3 bilhão um aumento de 8% em relação a 2019. Desse total, apenas 17,6 milhões estão reservados para atividades de fomento à pesquisa (financiamento de projetos), uma redução de 83% em relação a 2019. O valor reservado para bolsas é de 1 bilhão um aumento de 30% em relação a 2019 (compensando o rombo que havia no orçamento deste ano).

Embrapa

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), deve receber 3,8 bilhões um aumento de 5,5% em relação ao orçamento de 2019. Desse total, porém, o valor reservado para atividades de “pesquisa e inovação agropecuária” é de apenas 198  milhões uma redução de 42,6% em relação a 2019.

Capes

O orçamento total previsto para a Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), vinculada ao Ministério da Educação (MEC), é de 3,1 bilhões uma redução de 28% em relação a 2019.

Fiocruz

O orçamento total previsto para a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), vinculada ao Ministério da Saúde, é de 4,2 bilhões uma redução de 4,7% em relação a 2019.

Fonte: Mariana Mazza / SBPC — Elaboração: Jornal da USP

“O orçamento proposto para o CNPq em 2020, de R$ 1,3 bilhão, garante o pagamento de bolsas para o próximo ano, mas reduz a quase zero (R$ 17,6 milhões) os recursos disponíveis para financiamento de projetos de pesquisa e outras atividades de fomento, que são a razão primordial de existir do conselho. Principal agência de fomento à pesquisa científica no Brasil, o CNPq chegou a empenhar R$ 3,3 bilhões de orçamento em 2014, segundo Oliva, sendo R$ 1 bilhão disso em fomento. 

 

Votação da LDO no Congresso Nacional – Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

 

O edital mais tradicional de apoio à ciência básica do órgão, conhecido como Chamada Universal, costumava distribuir R$ 200 milhões em recursos para irrigar milhares de projetos de pesquisa em todo o Brasil. Nos últimos anos, nem chegou a ser realizado. 

“A situação do CNPq é dramática, e toda a ciência brasileira sofre com isso”, afirma Moreira. Para piorar a situação, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), agência de fomento vinculada ao Ministério da Educação (MEC), deve ter seu orçamento cortado em quase 30% em 2020, com possíveis impactos sobre os programas de pós-graduação, que são a principal máquina de produção científica do País.

Votação final

A proibição de contingenciamento do orçamento do MCTIC em 2020 faz parte de um pacote de ressalvas feitas por parlamentares à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e acatadas (em parte) pelo presidente Jair Bolsonaro no início deste mês. 

Na terça-feira, dia 10, o Congresso aprovou ainda uma emenda, articulada pela SBPC e apresentada pelo deputado pernambucano João Campos (PSB), que estende essa “blindagem” à Embrapa, Fiocruz, IBGE, Ipea e ao FNDCT; mas essa extensão ainda depende de aprovação presidencial.

A expectativa é que a PLOA 2020 seja votada no dia 17, às vésperas do recesso parlamentar — como ocorre todos os anos. O Legislativo tem poder para alterar o orçamento enviado pelo Executivo, mas não é o que costuma ocorrer. “O Congresso não tem tradição de mexer no orçamento, diferentemente do que ocorre em outros países”, ressalva Moreira. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Congresso reverteu vários cortes à ciência propostos pelo presidente Donald Trump nos últimos anos. Em vez de diminuir, aumentaram os investimentos no setor.

Nota do MCTIC à reportagem:

“Em relação à obrigatoriedade das despesas com Ações vinculadas à Função Ciência, Tecnologia e Inovação na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2020, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) destaca a atuação da pasta no ano de 2019 com o Congresso Nacional e o Governo Federal no sentido de demonstrar a importância de investimentos contínuos e previsíveis no sistema de ciência, tecnologia e inovação, que são a ponta de lança do desenvolvimento de qualquer país. 

Por sua própria natureza, a pesquisa científica é particularmente sensível a interrupções, podendo acarretar em prejuízo nos resultados e inviabilizar a continuidade do trabalho de pesquisadores, que muitas vezes dedicam muitos anos a um único projeto. Não obstante a boa notícia para a comunidade científica, o MCTIC esclarece que tem priorizado os recursos para seus institutos de pesquisa e entidades vinculadas, não aplicando qualquer tipo de contingenciamento em seus orçamentos e mantém permanente diálogo com os gestores de suas entidades vinculadas para que os recursos sejam otimizados, minimizando o impacto em suas atividades.

Quanto aos recursos para fomento no CNPq, o MCTIC informa que o valor precisa ser ampliado e está buscando a complementação do orçamento. Sobre o FNDCT, trata-se de um dos principais instrumentos de fomento à inovação do país, portanto é importante que os recursos do fundo sejam destinados a essa finalidade.”

 

 


 

RELATÓRIO DENUNCIA PERSEGUIÇÃO A ACADÊMICOS E UNIVERSIDADES NO MUNDO, COM DESTAQUE INÉDITO AO BRASIL

Mariana Alvim, BBC News Brasil, 10.12.2019

 

Marcelo Sayao/EPA

 

Em 2018, após decisão judicial que determinou retirada de faixa com dizeres 'Direito UFF Antifascista', ela foi substituída por outra, denunciando: 'Censurado'; episódio é mencionado no relatório Free to Think 2019

Com cinco edições publicadas, o relatório anual Free to Think, que monitora a perseguição a acadêmicos e a universidades em todo o mundo, já teve estampadas em sua capa fotos do Irã, da Turquia, do Paquistão e Egito. Na edição de 2019, quem ocupa a primeira página do relatório é o Brasil.

A capa traz uma imagem de estudantes protestando no Rio de Janeiro em maio contra cortes de orçamento e bolsas anunciados pelo governo federal, capturada por Ricardo Moraes, da agência Reuters. Pela primeira vez, o Free to Think ("Livre para pensar", em tradução livre) traz também um capítulo dedicado ao Brasil, afirmando que "pressões significativas no ensino superior brasileiro aumentaram na véspera e no período posterior às eleições presidenciais de 2018". Nas edições anteriores, o Brasil não foi mencionado.

O relatório, de caráter mais qualitativo, cita na edição de 2019 declarações de membros e iniciativas do governo federal brasileiro cortando investimentos para instituições e disciplinas específicas, como a sociologia e a filosofia; apresenta ainda ações que, de acordo com o documento, limitam a autonomia das universidades; e episódios de pressão, por agentes policiais e civis com motivações políticas, contra campus durante e depois das eleições presidenciais.

O destaque inédito ao Brasil justifica-se não necessariamente pela dimensão da perseguição a acadêmicos no país em comparação com o resto do mundo, e sim a uma mudança na conjuntura, explicou à BBC News Brasil Robert Quinn, diretor executivo da organização sem fins lucrativos que produz o relatório, a rede internacional Scholars at Risk ("Acadêmicos em risco"), baseada na Universidade de Nova York. A publicação detalha ainda os casos da China, Índia, Sudão e Turquia e abrange o período de setembro de 2018 a agosto de 2019.

Quinn, doutor em filosofia e com uma trajetória de prêmios e passagens por organizações dedicadas à promoção científica e aos direitos humanos, diz que além do relatório, outra atividade do Scholars at Risk é receber pedidos de assistência por acadêmicos que denunciam estar sendo vítimas de perseguição.

A rede, que está celebrando 20 anos de existência, recebeu em sua história 34 solicitações desse tipo vindas do Brasil — 30 delas no último ano, o que fez a rede acompanhar mais de perto a situação do país e depois incluí-lo no relatório.

"Eu não leria a imagem como dizendo: o Brasil foi o pior país do mundo no ano passado. Isto seria injusto", afirmou, falando de Nova York em entrevista via chamada de vídeo. "Mas acho que o que ela está dizendo é: o Brasil está aqui, e isto é novo."

"Há algo acontecendo e precisamos olhar para isso. Não quer dizer que há um grande problema, mas significa que precisamos analisar. E, quando olhamos, uma parte dos incidentes foi muito bem pronunciada por representantes do governo ou políticos no Brasil. Algumas destas falas circularam pelo mundo", diz.

 

Declarações de Jair Bolsonaro e de Abraham Weintraub são mencionadas em relatório como uma retórica que contribui para estigmatização e cerceamento da liberdade das universidades

REUTERS/Ueslei Marcelino

 

Declarações de Jair Bolsonaro e de Abraham Weintraub são mencionadas em relatório como uma retórica que contribui para estigmatização e cerceamento da liberdade das universidades

O relatório apresenta, por exemplo, declarações do ministro da Educação, Abraham Weintraub, e do presidente Jair Bolsonaro. Uma delas foi uma entrevista de abril em que Weintraub afirmou que as universidades federais Fluminense (UFF), da Bahia (UFBA) e de Brasília (UnB) teriam cortes de verba por promover "balbúrdia" em vez de buscar excelência acadêmica, segundo ele. Outra fala do mesmo mês incluída no documento foi referente às disciplinas de filosofia e sociologia, que de acordo com o ministro poderiam ter verbas para seus cursos cortadas por não serem rentáveis.

Esta posição foi endossada por Bolsonaro no Twitter, onde ele escreveu que a medida teria o objetivo de "focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina".

A reportagem solicitou posicionamento dos ministérios da Educação e Ciência e Tecnologia na manhã de segunda-feira (9), mas não obteve resposta até esta publicação.

Fazendo uma analogia com a medicina, Quinn diz que há casos em que a tensão entre as universidades e o poder é crônica, ou seja, se expressa de uma forma saudável, por meio de debates públicos e protestos, por exemplo.

E há os casos agudos, em que a tensão é liberada em forma de violência e perseguição. Para ele, a escalada de casos do Brasil que chegaram à organização indica que o país pode estar chegando em sua fase aguda.

"Baseado na história em outros lugares, temos um alarme do que pode acontecer e do que pode piorar. A situação (no Brasil) é preocupante."

"Acho que o maior sintoma de todos no Brasil, pois é algo que se observa historicamente, voltando literalmente a séculos atrás, é a construção artificial do 'outro' por aqueles que estão no poder. Esta criação não se vale do conhecimento, da racionalidade ou de evidências, mas de emoções, energia negativa e uma remissão a um passado imaginário 'puro'".

"No ensino superior, isso se manifesta com governos, partidos ou representantes importantes do poder mirando um acadêmico em especial ou uma disciplina particular como estrangeira, não tradicional".

Ainda que o relatório lembre que os cortes nestas universidades e disciplinas não tenham sido concretizadas, Quinn diz que tais falas contribuem para um cenário de cerceamento à liberdade de pensamento — que não deve ser orientado apenas pelo critério da rentabilidade, ele destaca.

 

"Acho que o maior sintoma de todos no Brasil, pois é algo que se observa historicamente, voltando a séculos atrás, é a construção artificial do 'outro'", afirmou Quinn em entrevista à BBC News Brasil

Divulgação

 

"Acho que o maior sintoma de todos no Brasil, pois é algo que se observa historicamente, voltando a séculos atrás, é a construção artificial do 'outro'", afirmou Quinn em entrevista à BBC News Brasil.

"No nosso histórico de casos, por exemplo, vemos que qualquer disciplina pode se tornar um alvo", aponta o diretor.

"Há alguns anos, tivemos o caso de um professor na Tunísia que lecionava uma disciplina sobre saúde pública, e trabalhava especificamente com mortalidade infantil. Você pode perguntar: por que isto se tornaria algo político? Porque o governo, e se tratava de uma ditadura, estava mentindo sobre a mortalidade infantil — a situação era muito pior do que estava sendo divulgado."

"Se você considera a história da União Soviética, por exemplo, os físicos lideravam a dissidência. Mas nunca pela física em si, pelas fórmulas. Era porque eles queriam conversar com físicos de outros países, mas eram impedidos de viajar."

"Hoje, no cenário contemporâneo, há países, como o Irã, que tentam recrutar físicos para participar de seus programas nucleares. E, se eles se negarem, vão para a prisão."

É também lembrado no relatório sobre o caso brasileiro um decreto presidencial de maio que alterou os procedimentos para nomeação de órgãos vinculados à administração federal (não apenas instituições de ensino).

Na visão de entidades que se manifestaram sobre o decreto, como o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN) e a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) do Ministério Público Federal, ele poderia afetar diretamente a autonomia das universidades públicas.

Isto porque o texto abre caminho para que o governo, e não mais os reitores, designem nomes para cargos de vice-reitor, pró-reitor, diretores e vice-diretores de faculdades.

 

Anúncio de cortes em disciplinas e instituições específicas deve servir de alerta, aponta relatório Free to Think 2019

Reuters

 

Anúncio de cortes em disciplinas e instituições específicas deve servir de alerta, aponta relatório Free to Think 2019

Pressão vinda da Justiça e de grupos políticos em campus brasileiros

Além de ações do governo federal, o relatório aponta para decisões de juízes e ações policiais em universidades no contexto eleitoral, motivadas por acusações de que estudantes e professores estariam se manifestando partidariamente em espaços públicos.

Foi o caso do confisco, por decisão judicial, de uma faixa pendurada na Universidade Federal Fluminense (UFF) com as palavras "Direito UFF Antifascista"; ou de folhetos de uma associação de docentes da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) intitulados Manifesto em defesa da democracia e das universidades públicas.

O relatório Free to Think lembra que, no final de outubro de 2018, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia concedeu medida cautelar suspendendo ações de busca e apreensão, autorizadas por juízes de Tribunais Regionais Eleitorais, em universidades de todo o país.

Do período eleitoral, o documento denuncia ainda relatos de ataques e assédios de grupos civis com motivações ideológicas contra estudantes da Universidade de Fortaleza (Unifor); Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio); Universidade Federal do Pará (UFPA); e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Por fim, o relatório apresenta recomendações específicas para o caso brasileiro, como a investigação e eventual punição de autores de incidentes em que membros da comunidade universitária tenham sido colocados em risco; e o recuo de declarações e políticas que estigmatizem e ataquem o ensino superior do país.

Em relação às 30 solicitações de assistência do Brasil recebidas pelo Scholars at Risk (SAR) no último ano, a entidade disse que seis estão sob acompanhamento de fato, enquanto as outras não puderam ser atendidas diretamente pela organização, sendo direcionadas a outras formas de assistência.

"Em relação às outras 24 aplicações, algumas não atenderam aos critérios de bolsa ou risco. Como é possível observar em nossas ações, como o Free to Think, o SAR está preocupado com as pressões no setor da educação superior no Brasil que estão impactando todos os acadêmicos e estudantes do país. Devido aos recursos limitados e um crescente volume de pedidos de assistência, nossos serviços de proteção priorizam aqueles que relatam experiências de ataques e ameaças diretos", diz nota enviada à reportagem.

A rede SAR foi fundada em 1999 e tem seções em diferentes partes do mundo, principalmente na América do Norte, Europa e África. Na América Latina, a rede tem colaboradores que participam anonimamente no monitoramento e verificação de incidentes.

Nos casos mais graves de perseguição a acadêmicos, o Scholars at Risk tem um projeto que organiza asilo para que pesquisadores possam trabalhar e morar em outros lugares em que não estejam sob risco; há também serviços de assistência e campanhas para casos de acadêmicos presos.

A organização tem apoio da Universidade de Nova York, onde é sediada, e recebe doações individuais e de outras entidades, como a Vivian G. Prins Foundation, Open Society e National Endowment for Democracy.

 

Preocupação que perdura na Turquia

ADEM ALTAN/AFP

Professores e pesquisadores da Turquia protestam em Ancara, com cartaz dizendo: "Estamos juntos pelo direito de nossos estudantes à educação"

No período abordado pelo relatório, o Scholars at Risk diz ter coletado relatos de centenas de incidentes em 56 países. No entanto, alguns deles, como o Brasil, ganharam neste ano capítulos em particular: foi o caso da Índia, Turquia, Sudão e China.

A Turquia tem destaque importante por seu quarto ano consecutivo, já que a organização recebeu relatos de "ataques extraordinários" no ensino superior do país. Lá, acusados de traição e terrorismo, milhares de acadêmicos enfrentam processos judiciais e prisões por terem assinado em 2016 uma petição crítica às ações repressivas do governo contra os curdos. Alguns são vítimas da chamada "morte civil", ou seja, foram demitidos de seus cargos públicos, proibidos de assumir novas posições e de deixar o país legalmente. Há ainda no país outros casos de perseguição a pessoas e grupos considerados opositores que não necessariamente têm relação com o episódio da petição.

Na China, a histórica perseguição a acadêmicos se intensificou no último ano, com um aumento nas demissões, prisões, restrições de viagens daqueles considerados divergentes, por sua postura crítica, origem étnica ou religiosa, das diretrizes do Partido Comunista no país.

No Sudão, que viveu uma onda de protestos que levou em abril à queda do então presidente Omar al-Bashir, as universidades foram alvo de repressão, com força de segurança se valendo de prisões e violência, às vezes letal, contra estudantes e professores manifestantes. Mesmo após a queda de al-Bashir, foram relatados casos de ataques perpetrados por grupos paramilitares.

Já denúncias vindas da Índia também não são novidade, mas viram uma piora no último ano, segundo o relatório. Foram registrados conflitos graves entre grupos internos de estudantes; ou com grupos externos e milícias, muitas vezes motivados por divergências religiosas, étnicas ou ideológicas; ou ainda com a polícia. O relatório apresenta também casos de acadêmicos que foram retaliados profissionalmente pelas próprias instituições de ensino às quais estavam vinculados, como em demissões motivadas por opiniões por eles expressas.

Na entrevista à BBC News Brasil, Robert Quinn reconheceu que o formato do relatório não é quantitativo, com uma precisão como a de uma pesquisa demográfica por exemplo.

"Ao mesmo tempo, avaliamos que temos uma amostra representativa razoavelmente boa, pelo menos dos casos mais notáveis que aconteceram no ano passado", diz o diretor da organização. "Nossa metodologia está no nosso relatório e em nosso site, para que todos possam explorá-la."

Getty Images

 

Universidades estão no meio do caminho entre o poder e as ideias, diz Robert Quinn. 

Quinn diz que vê o trabalho do Scholars at Risk como estando no meio do caminho entre o poder e as ideias, onde estão os acadêmicos e as universidades - "o trabalho deles é gerar ideias, fazer perguntas, o que por definição se choca com o poder", aponta.

Mas esse poder é sempre político? Para o entrevistado, a resposta dá destaque justamente à América Latina.

"Sem dúvidas há pressão também do poder econômico, e não surpreenderia se os números apontassem para a América Latina como vivendo um problema maior nesse sentido — mas eu precisaria checar os dados. Acadêmicos que trabalham com direitos fundiários, particularmente dos povos indígenas, ou aqueles que trabalham com meio ambiente muitas vezes entram em contato, e muitas vezes em conflito, com interesses corporativos e comerciais."

O embate entre o poder e as ideias, ele diz, acontece há séculos — mas há "algo diferente hoje", fazendo das ameaças aos acadêmicos e ao livre pensamento algo global.

Quinn atribui esta globalização dos riscos a uma combinação de fatores — alguns que considera positivos: a democratização do ensino superior em todo o mundo e do acesso à internet; e o encurtamento de fronteiras, com o transporte e as tecnologias.

"Tudo isso está se combinando para formar um clamor pelo restabelecimento da expertise, da curadoria do conhecimento. No passado, quando a educação não era nem um pouco democrática, muito elitista, a curadoria do conhecimento acontecia pela limitação do acesso".

"Mas parece que hoje estamos tendo muito mais dificuldade em filtrar as informações de qualidade do que é ruído."

"A ironia é que, ao meu ver, isso faz das comunidades acadêmicas mais importantes do que nunca. A sociedade civil precisa da contribuição de uma expertise responsável e com interesse público para orientar o acesso à informação. Então, trata-se de um momento verdadeiramente único, mas não sem riscos."


ATAQUES À CIÊNCIA SÃO ATAQUES À DEMOCRACIA A ATUAÇÃO DA ABC

Yuri Castelfranchi, Academia Brasileira de Ciências, 03.12.2019

 

O evento de jovens cientistas “Ciência na América Latina: hoje e amanhã”  promovido na ABC contou com um painel sobre comunicação científica, realizado na tarde de 28/11, com quatro participantes: os cientistas Yurij Castelfranchi, sociólogo e Stevens Rehen, biólogo, e os jornalistas Herton Escobar e Ana Carolina Leonardi.

Yurij Castelfranchi é professor associado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e diretor de Divulgação Científica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em física (Università degli Studi La Sapienza, Roma, Itália), com mestrado em comunicação da ciência (International School for Advanced Studies, Trieste, Itália) e doutorado em sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele coordena o Observatório Interdisciplinar InCiTe (Inovação, Cidadania, Tecnociência) e é membro do comitê gestor do Instituto Nacional de Comunicação Pública da C&T (INCT-CPCT). Seus principais temas de pesquisa envolvem sociologia da ciência e da tecnologia (C&T), comunicação pública da ciência, divulgação científica, jornalismo científico e ambiental, percepção pública de C&T, controvérsias sociais sobre C&T, apropriação e participação social em CT&I.

 

Sua apresentação começou questionando as afirmativas recorrentes que costumam ser usadas para representar a ciência e os cientistas. Seriam um farol na tempestade? Uma vela na escuridão? Ou será que a autoridade cultural da ciência é elástica, instável e insegura?

Castelfranchi alertou: vivemos em tempos perigosos. Os maiores problemas que ameaçam as democracias e a coesão social, segundo ele, vêm das teorias conspiratórias e dos fortes conflitos morais e políticos que afetam as evidências científicas e as decisões políticas baseadas em argumentos racionais.

Ele ressaltou que o “público”, “população” ou “sociedade” não devem ser tratados como pacientes, portadores de alguma deficiência cognitiva, e sim como agentes dessa nossa história.

Castelfranchi avalia que atualmente é fundamental para os cientistas e instituições de CT&I em todas as áreas e em todos os países entender como a opinião pública funciona em relação a ciência e tecnologia. “Interações ingênuas – ou recusas ingênuas em interagir – dos cientistas com o público ou com a mídia conduz a resultados catastróficos”, alertou. Em tempos de pós-verdade e teorias conspiratórias, as notícias falsas precisam ser combatidas não apenas em nível de comunicação institucional, em sua opinião, nem apenas por uma abordagem “verdade versus mitos”: envolvimento pessoal, ações de extensão e uma divulgação científica com base não apenas na transmissão de informação, mas no engajamento das pessoas e na construção de relações de confiança, são centrais neste processo.

A partir de pesquisas sobre percepção pública de ciência e tecnologia o Instituto Nacional de Comunicação Pública de Ciência e Tecnologia (INCT CPCT) , incluindo aí a percepção da relevância da ciência, o físico e sociólogo afirmou: não existe um movimento mundial anticiência. “A grande maioria da população brasileira não é ‘contra’ a ciência, pelo contrário”, ressaltou Castelfranchi. Mas esclareceu que, especialmente em momentos de crise de legitimidade e de polarização, as pessoas não confiam em autoridade. E quando a ciência é vista não como uma prática, mas apenas como uma autoridade, as pessoas têm problemas em aceitar afirmações, evidências, teorias, na ciência, que parecem entrar em conflito com seus posicionamentos morais ou escolhas políticas. “Existem grupos que se aproveitam disso: destruir a confiança na ciência e nas universidades é um meio para alcançar um fim”, assinalou o pesquisador.

Os resultados corroboram outros anteriores, no que tange à percepção positiva da relevância social da ciência, da percepção de professores, médicos e cientistas como as categorias sociais mais confiáveis e da categoria dos políticos como a menos confiável. Quanto à confiabilidade de jornalistas ou líderes religiosos, os brasileiros estão mais divididos: há uma porcentagem de pessoas que mencionam os religiosos entre as fontes mais confiáveis de informação, mas outra parcela que os menciona no conjunto dos menos confiáveis. O mesmo acontece com jornalistas.

Entre as boas notícias que a pesquisa traz está o fato de que mais da metade dos jovens pensa que a ciência deve receber mais investimentos, mesmo que se tenha que retirar recursos de outras áreas. Os demais acreditam que deveríamos manter os mesmos níveis de investimentos, mesmo em tempos de crise: quase ninguém, no Brasil, concorda com diminuir o investimento em C&T.

Um resultado muito interessante apresentado por Castelfranchi aborda questões controversas. As categorias mais significativas identificadas dizem respeito a “concordar com a teoria da evolução”, achar que “cientistas exageram sobre as mudanças climáticas”, “acreditar em astrologia” e achar que “vacinas podem ser perigosas para crianças”. Ele explicou que o cada uma dessas posições é defendida por grupos sociais diferentes, ou seja: não há uma parte determinada da população que seja uniforme quanto às controvérsias.

Algumas das opiniões a respeito de evidências científicas, em sua análise, dependem de capital cultural e acesso ao conhecimento. Outras opiniões, no entanto, são mais influenciadas por religião e valores morais. “A trajetória religiosa da pessoa, por exemplo, determina a aceitação ou não da teoria da evolução.” Já a posição anti-vacina não é apenas um efeito da desinformação, mas também uma causa. “É afetada por valores políticos e morais que aceitam ou rejeitam a informação em si, e confiam em fontes diferentes”, relatou.

Existem, por exemplo, pessoas acreditam na teoria da evolução e também em astrologia, mas acham que vacinas podem causar problemas e que cientistas exageram sobre o clima. E outras possíveis combinações de opiniões também ocorrem, assim como uma identificação positiva com apenas uma e nenhuma outra.

O pesquisador apontou que pesquisas internacionais nessa mesma linha confirmam esses resultados: as pessoas que se opõem a evidências científicas são diferentes, e o fazem por diferentes razões. “O maior problema é a confiança, não a ignorância. Esta é mais um efeito da desconfiança do que a causa das posições anti-ciência. É por isso que esclarecer informações falsas é importante, mas não é suficiente”, observou Castelfranchi.

Assumir uma posição de ‘soldado’ numa suposta ‘guerra contra a ciência’ não é a melhor maneira de lidar com a situação, segundo o estudioso. Pelo contrário, Castelfranchi argumentou que este tipo de abordagem afasta as pessoas, em vez de atrai-las. “Não podemos nos comportar como nas Cruzadas. Não devemos dizer que estamos defendendo a ‘cultura científica’ e ‘combatendo mitos’ sem entendermos, de fato o que significa ‘mito’ e o que significa ‘cultura’. Cultura envolve mitos, rituais, poder, desigualdade e inclusão.”

 


 

UNIVERSIDADES NO BRASIL TÊM LIBERDADE DE PENSAMENTO AMEAÇADA, DIZ RELATÓRIO INTERNACIONAL

Luiza Caires, Jornal da USP, 06.12.2019

 

Ataques e ameaças a estudantes e pesquisadores colidem com valores fundamentais das universidades

 Estudantes e professores de universidades públicas protestam contra agressões e corte de verba na educação – Foto: UFPR via Facebook

 

O Brasil entrou em uma lista de países nos quais a liberdade de pensamento nas universidades está em risco. A inglória posição deve-se a um aumento, identificado pelos organizadores de relatório internacional, nas pressões de motivação política em instituições brasileiras, incluindo ameaças e ataques a estudantes que fazem parte de minorias e propostas de legislação que colocam em risco as atividades e os principais valores das universidades.

O relatório em questão é o Free to Think 2019, produzido no projeto Academic Freedom Monitoring (Monitoramento da Liberdade Acadêmica), da organização Scholars At Risk (SAR), de Nova York, nos Estados Unidos. Ele foi divulgado, no final de novembro, como parte de um relatório anual da SAR e analisa 324 ataques a comunidades de ensino superior que ocorreram em 56 países entre setembro de 2018 e agosto de 2019.

O documento descreve essas agressões, incluindo uma série de atentados que resultaram na morte de acadêmicos e estudantes no Afeganistão; prisões e processos ilegais de estudiosos, em particular na Turquia e no Sudão; pressões diversas sobre a liberdade de expressão de estudantes envolvendo mais de cem incidentes documentados em todo o mundo; além de restrições às viagens acadêmicas, principalmente por parte de autoridades dos EUA, Israel e China.

Uma trajetória preocupante

No Brasil, o relatório afirma que os problemas se intensificaram já no período que antecedeu as últimas eleições, com universidades e seus membros sendo alvo de “altos níveis de pressão política e ideológica, incluindo ataques físicos”. E a situação prosseguiu após o pleito; relembre alguns casos ocorridos em 2018:
No Brasil, o relatório afirma que os problemas se intensificaram já no período que antecedeu as últimas eleições, com universidades e seus membros sendo alvo de “altos níveis de pressão política e ideológica, incluindo ataques físicos”. E a situação prosseguiu após o pleito; relembre alguns casos ocorridos em 2018:
Estudante negra da Universidade de Fortaleza (Unifor) sofre assédio, sendo avisada por pessoa não identificada que a universidade não era lugar para negros e que eles ‘limpariam a universidade’ do ‘seu povo’ quando Jair Bolsonaro assumisse a presidência. Recebeu ameaças por WhatsApp e acabou sendo estuprada perto do campus. A OAB declarou que o ataque tinha indícios de ter motivação política.
Autoridades invadiram universidades em todo o País, interrogaram professores, confiscaram materiais e ordenaram que sinais considerados políticos fossem retirados. Ordens judiciais eram baseadas em lei que proíbe publicidade política em espaço público, mas vários dos materiais não endossavam um candidato ou partido.
Na Paraíba, a polícia invadiu o escritório de um sindicato de professores da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), confiscando os folhetos “Manifesto em Defesa da Democracia e das Universidades Públicas” e um disco rígido.
Na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), mandado ordenou que faixas em homenagem a Marielle Franco fossem retiradas.Na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), um tribunal ordenou o cancelamento de uma palestra intitulada “Esmagando o Fascismo”.Carta anônima na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) listou mais de vinte estudantes e professores que o autor alegou que seriam banidos quando Bolsonaro assumisse o poder, incluindo pesquisadores das áreas de LGBTQ+, gênero e drogas.A deputada estadual Ana Caroline Campagnolo instou pelo Facebook os alunos a filmarem suas aulas, capturando comportamento “partidário político ou ideológico” dos professores. Foi disponibilizada uma linha telefônica anônima para as “denúncias”.Após a posse do presidente, autoridades, incluindo Bolsonaro, continuaram incentivando alunos a filmar professores em aula se suspeitassem que eles propagavam ideias “de esquerda”. “Professores precisam ensinar e não doutrinar”, escreveu no Twitter o presidente, sendo apoiado por políticos aliados.

Para André Azevedo da Fonseca, doutor em História e professor do Centro de Educação, Comunicação e Artes (Ceca), da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o relatório nos ajuda a visualizar a dimensão dos problemas, de modo que não normalizemos os ataques sofridos. Neste sentido, “ao nos igualar a países como Índia, Sudão, Turquia, que experimentam problemas análogos, acende-se uma luz vermelha, que nem é mais de alerta, para que a gente reaja à altura destes desafios”, afirma.

 

André Azevedo da Fonseca – Foto: arquivo pessoal

 

Apesar de trabalhar em uma universidade estadual, e não experimentar isso diretamente, ele afirma que isso chega de forma muito clara nas universidades públicas em geral. “Vemos algo inédito, um projeto de destruição mesmo. Todos estamos muito perplexos, alguns colegas até com depressão, tendo que defender coisas básicas e que já se supunham consensuais, como a importância da universidade para a ciência e a tecnologia. Participei de uma reunião com assessores de comunicação das universidades federais e todos se mostraram abismados pela forma humilhante como os reitores são tratados nas reuniões do MEC”, relata.

Mauro Bertotti, professor do Instituto de Química (IQ) da USP, não acredita que as políticas e ações governamentais hostis e declaradas contra a comunidade acadêmica que ocorrem no Brasil sejam semelhantes às mencionadas no relatório sobre outros países. Entretanto, diz ele, a falta de apoio federal às pesquisas científicas e os seguidos comentários pejorativos contra certas áreas do conhecimento claramente são manifestações que revelam ignorância sobre o papel da ciência básica para o progresso de um país e podem sim ser considerados uma agressão à comunidade acadêmica.

Fonseca ressalta que o relatório é bem pormenorizado, incluindo desde violências contra indivíduos, até algo que considera ainda mais grave, “por ser estrutural”, que são as ações do governo, seja em discursos hostis aos valores da universidade, desqualificando e estigmatizando pesquisadores e estudantes, seja com o corte de verbas, “uma ação traiçoeira, dizendo que se tratava de contingenciamento, mas liberando as verbas somente no fim do ano, quando é mais difícil aplicá-las”. Uma política, portanto, que cria muitas angústias, sobretudo entre os estudantes, que acabam desamparados e desmotivados. “Temos percebido uma redução na procura pela pós-graduação neste período conturbado”, exemplifica.

 

Mauro Bertotti – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

Neste aspecto, Mauro Bertotti também relata que o clima é de “ansiedade e insegurança”, especialmente nas universidades federais, e que o risco deste processo de sucateamento da pesquisa básica é a “fuga de cérebros”, tanto de alunos quanto de pesquisadores, que acabam encontrando opções melhores de trabalho no exterior.

Sobre os efeitos em longo prazo, Bertotti lembra que uma cultura científica nacional leva anos para ser construída. “A formação de pessoal qualificado é um processo lento, e se há pouco incentivo, a massa crítica para o progresso da ciência brasileira perde consistência e pujança”. As consequências, alerta, são sérias: “nossa competitividade fica comprometida e passamos a ser um país sem interlocução com nações mais desenvolvidas, com as quais poderíamos compartilhar conhecimentos”..

 

Resistência

André da Fonseca avalia que há muitas iniciativas de valorização da universidade em resposta a este cenário. “Muitos colegas foram provocados de forma a tentar reagir positivamente, se esforçando para fazer divulgação científica, desenvolvendo alternativas para aproximar mais a universidade da população. Ele diz que essa necessidade de aproximação é um problema que as universidades sempre tiveram, mas nem sempre enfrentaram com a intensidade necessária, sugerindo que deve haver uma convergência de esforços. O próprio docente é bastante ativo na comunicação com o público, mantendo um canal no Youtube com 52 mil assinantes que integra a rede de divulgação científica Science Vlogs Brasil, além de ser colunista do portal HuffPost Brasil.

Mauro Bertotti afirma não ter dúvidas de que somente uma forte mobilização dos principais interessados no avanço de uma cultura científica no País pode reverter a atual situação de desvalorização da ciência brasileira. Para ele, os atores desta ação são professores universitários, pesquisadores e alunos, especialmente os de instituições públicas nas quais a produção de conhecimento é um valor central. O professor do IQ acha que temos nos preocupado pouco em divulgar as atividades da universidade e sua importância, e por isso a sociedade e os políticos veem estas instituições apartadas da população, com regalias e pouco relevantes para o País. “Nosso trabalho é pouco compreendido e difundido. Cabe a nós empreender esforços para reverter a situação”, diz o docente, que tem discutido questões da universidade na seção de artigos do Jornal da USP.

André da Fonseca ressalta, porém, que não dá para cobrar muito mais dos professores e pesquisadores, pois todos já estão sobrecarregados. “O corte de pessoal faz com que a gente tenha que assumir mais aulas, mais tarefas administrativas, e isso tem consumido uma energia que deveria estar voltada para o desenvolvimento das universidades.”

O professor da UEL diz que também não se deve cair no catastrofismo, “afinal as universidades já têm uma história em que já enfrentaram a idade média, guerras e continuaram aí, então vão conseguir sobreviver a este governo.” Mas ao mesmo tempo, diz ele, não podemos ser idealistas achando que pequenas ações vão solucionar o problema definitivamente, nem supor que, se não fizermos nada, a situação vai ser resolvida sozinha.

Em entrevista recente ao Ciência na Rua, Marcos Nobre, coordenador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), entidade que chegou a sofrer um atentado a bomba em 1976,  lembra que o próprio Cebrap “só conseguiu ser fundado porque existia uma solidariedade muito grande das pessoas diante da ditadura. E eu espero, sinceramente, que consigamos produzir uma solidariedade nesse momento para evitar o risco autoritário que estamos vivendo seriamente”. Para o professor da Unicamp, sem um compromisso democrático de base não dá para fazer ciência.

Protesto contra corte de verba na educação na Av. Paulista. Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

 

Autonomia universitária em risco

O Free to Think 2019 traz também declarações que considera preocupantes, por membros do governo federal, no que diz respeito à autonomia universitária. “Em uma entrevista a um jornal em abril de 2019, por exemplo, o ministro da Educação Abraham Weintraub acusou três universidades – Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal da Bahia e Universidade de Brasília – de “promover rupturas” e “organizar eventos ridículos” em vez de focar em estudos acadêmicos de excelência e sugeriu que seu financiamento federal seria reduzido. Nos mesmo período, Weintraub sugeriu que o governo retiraria recursos de departamentos específicos – filosofia e sociologia -, que ele alegou serem “cursos para pessoas já muito ricas, da elite”, e a favor de investimentos “em faculdades que geram receita: enfermagem, veterinária, engenharia e medicina”, posição apoiada pelo presidente via Twitter.

Para os autores do relatório, ainda que até sua conclusão não tenham sido identificadas medidas práticas neste sentido, a sugestão de que certas ideias, áreas temáticas ou universidades sejam desfavorecidas e corram o risco de perder fundos pode afetar a autonomia da universidade e enfraquecer a liberdade de expressão acadêmica.

Uma outra fonte de preocupação é um decreto do governo Bolsonaro que permite ao Poder Executivo vetar indicações para autoridades universitárias e confere ao Poder Executivo do governo a autoridade para nomear reitores, vice-reitores e outros funcionários das universidades federais. Esses funcionários eram eleitos por consulta pública nas comunidades acadêmicas. O decreto não apenas prejudica a autonomia da universidade, mas também permite a politização das nomeações de universidades, na medida em que estabelece uma ampla estrutura para investigar, com a assistência da Agência Brasileira de Inteligência, o histórico de candidatos a cargos, inclusive de reitores federais e diretores.

 

Clare Robinson – Foto: Divulgação/Free To Think

 

“Desde 2011, a SAR registrou mais de 1.400 ataques ao ensino superior em mais de cem países. Esses ataques desafiam a liberdade de todos de levantar questões difíceis e compartilhar ideias”, diz Clare Robinson, diretora de advocacia da SAR. Para ela, é urgente a ação dos governos, líderes do ensino superior e da sociedade civil para proteger ativamente as comunidades do ensino superior e defender a liberdade acadêmica.

Robert Quinn – Foto: Divulgação/Free To Thin

 

“Os ataques às comunidades de ensino superior – independentemente de sua localização, escala ou escopo – trazem consequências para as sociedades em todos os lugares”, complementa o diretor executivo da SAR, Robert Quinn. “Em nosso mundo cada vez mais interconectado, esses ataques erodem um espaço onde acadêmicos, estudantes e o público em geral podem se reunir para entender e resolver os problemas complexos que estão afetando a todos nós”, sintetiza.

 


 

 PESQUISADORAS DA EMBRAPA ESTÃO ENTRE OS CIENTISTAS MAIS INFLUENTES DO MUNDO

Canal Rural, 15.12.2019

As engenheiras de alimento aparecem em lista, realizada anualmente por uma consultoria da Inglaterra, junto a laureados ao Prêmio Nobel

Duas pesquisadoras da Embrapa estão entre os cientistas mais influentes do mundo. A conclusão é de uma pesquisa elaborada pela consultoria britânica Clarivate Analytics. Figuram na classificação as engenheiras de alimentos Henriette Azeredo, da Embrapa Agroindústria Tropical, e Renata Tonon, da Embrapa Agroindústria de Alimentos.

Divulgada anualmente desde 2014, a lista Highly Cited Researchers é elaborada a partir de uma análise da quantidade de citações de artigos publicados por um pesquisador ao longo de uma década, utilizando a plataforma Web of Science. Os selecionados para a lista pertencem ao grupo dos 1% de pesquisadores que mantiveram as mais altas médias de citações durante o período.

Neste ano, ao todo, foram selecionados 6.216 pesquisadores em 21 áreas do conhecimento. Os Estados Unidos são o país com maior número de pesquisadores mencionados, 2.737 ao todo; em seguida, aparece a China, com 636; e, em terceiro lugar, o Reino Unido, com 516. A Universidade de Harvard (EUA) é a instituição de pesquisa com maior número de pesquisadores citados, 203.

A lista também inclui 23 laureados com o Prêmio Nobel, dos quais três foram anunciados este ano: Gregg L. Semenza, na área de Medicina; John B. Goodenough, em Química; e Esther Duflo, em Economia.

As pesquisadoras

Henriette Azevedo

Henriette Azeredo é pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical desde 2001, tendo atuado no Labex Europa entre 2013 e 2015, no Institute of Food Research, no Reino Unido, na área de tecnologias agroalimentares. Tem graduação em engenharia de alimentos pela Universidade Federal de Viçosa (1995) e doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (2001).

Coordena projetos de pesquisa focados no desenvolvimento de filmes e revestimentos biodegradáveis e comestíveis e no uso de nanoestruturas em materiais de embalagem. Atua principalmente nos seguintes temas: filmes comestíveis e biodegradáveis, nanotecnologia aplicada a embalagens de alimentos, uso de subprodutos da indústria de alimentos como fontes de compostos para elaboração de materiais, usos de celulose bacteriana em alimentos e embalagens.

Renata Tonon

Contratada pela Embrapa em 2010, Renata Tonon possui graduação (2002), mestrado (2005) e doutorado (2009) em engenharia de alimentos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com doutorado-sanduíche no Centre de Cooperation Internationale en Recherche Agronomique pour le Développement (Cirad), na França.

Tem experiência nas áreas de engenharia, ciência e tecnologia de alimentos, com ênfase em engenharia de processos, atuando principalmente nos seguintes temas: extração, concentração e microencapsulação de compostos bioativos, spray drying, tecnologia de membranas, aproveitamento de resíduos agroindustriais e propriedades físico-químicas dos alimentos. Também atua como docente permanente no Programa de Pós-Graduação em Ciência de Alimentos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 


 

 MADEIRA FUNCIONALIZADA PROMETE SUBSTITUIR PLÁSTICOS

Site Inovação Tecnológica, 11.12.2019

 

Um capacete para ciclistas e um elemento de parede feitos de madeira deslignificada.

[Imagem: Empa/ETH]

 

Funcionalização da madeira

A criação de madeiras superduras e de uma madeira transparente mostrou que esse material sustentável e biodegradável pode ocupar lugares hoje dominados pelos polímeros.

Tanto que uma equipe dos Laboratórios Federais Suíços de Ciência e Tecnologia de Materiais (EMPA) criou um projeto batizado de "Visão Madeira", que está trabalhando na "funcionalização" da madeira, ou seja, dar ao material as propriedades exigidas por cada aplicação.

Eles já conseguiram vários resultados interessantes, incluindo maçanetas de portas feitas de madeira antimicrobiana, madeira mineralizada para maior resistência antichama e até um tabuleiro feito de madeira magnetizada.

Madeira moldável

A tecnologia se baseia na deslignificação e compactação da madeira. Quimicamente, a madeira consiste essencialmente em três componentes: celulose, hemicelulose e lignina. A lignina garante que as longas fibrilas de celulose fiquem estáveis e não se dobrem.

"Nós usamos ácido para remover essa lignina da madeira e, assim, remover o adesivo natural," explica a pesquisadora Marion Frey.

A madeira - ou melhor, a celulose branca restante - pode ser facilmente transformada em qualquer forma quando úmida: a água penetra entre as células onde a lignina fornecia estabilidade, distribuindo-se e dissolvendo as conexões das células, o que garante a deformabilidade. Quando a madeira deslignificada é seca, as células se entrelaçam - o que, por sua vez, leva a compostos estáveis.

A madeira é então compactada por pressão, o que resulta em um material cerca de três vezes mais rígido e mais tenso que o abeto natural, por exemplo, madeira com que a equipe está trabalhando. Além disso, a adição de um revestimento repelente à água garante que o interior da madeira não fique mais úmido e, assim, mantenha a forma desejada.

Com a remoção da lignina, a madeira perde sua cor. Após a compactação, ela fica três vezes mais forte que a madeira original.

[Imagem: Empa/ETH]

 

Porosidade

Além da deformabilidade, a remoção da lignina da madeira tem outro efeito: o aumento da porosidade. "Esta é uma grande vantagem para a funcionalização da madeira. Como há mais espaço entre as células e nas paredes das células, é mais fácil introduzir outras substâncias na estrutura da madeira que conferem à madeira modificada novas propriedades," disse o professor Tobias Keplinger.

Por exemplo, pode-se inserir óxido de ferro na madeira para magnetizá-la.

A equipe vê possíveis aplicações da madeira funcionalizada nas indústrias automotiva, de aviação e de móveis. A pesquisadora Meri Zirkelbach, por exemplo, já implementou suas primeiras ideias de produtos, um capacete para ciclistas, o acabamento interno de uma porta de carro e o espelho lateral de um veículo.

 


 

FMATERIAL EXTRAÍDO DA CELULOSE PROMETE REVOLUCIONAR A CIÊNCIA E A TECNOLOGIA

Folha de Vitória, 12.12.2019

 

A nanocelulose é natural, facilmente renovável e pode ser usada na produção de cosméticos, no fortalecimento de materiais de construção, peças leves para carros e até tecidos

Quem diria que de dentro de uma árvore de eucalipto seria possível extrair uma substância tão poderosa que é capaz de cicatrizar feridas mais rapidamente, fazer com que cosméticos penetrem nas camadas mais profundas da pele e ainda substituir o uso de petróleo em alguns produtos?

Estamos falando da nanocelulose, que tem sido considerada por estudiosos, como o maior avanço tecnológico dos últimos tempos. E os motivos vão desde a diversidade na utilização até a forma com que ajuda a preservar o meio ambiente.

A nanocelulose é uma micropartícula da celulose, com uma espessura dez mil vezes menor do que um fio de cabelo. Claro para chegar a esse material foram necessários anos de estudo, tecnologia e muita dedicação dos pesquisadores.

Sustentabilidade

Uma das fontes de celulose mais conhecidas é o eucalipto, que é obtido com florestas plantadas e não das nativas, melhor para a preservação do meio ambiente. Conforme a doutora em Química, Heliane Amaral, a celulose é mais abundante do que imaginamos e não está presente só nos resíduos de eucalipto.

"A celulose é o material mais abundante do mundo, porque está presente em todos os tipos de planta, então é possível obter celulose a partir de vários resídios, como do eucalipto, do bagaço de cana, da palha de coco, da casca do arroz, palha do café. Ou seja, com algo natural, podemos melhorar a produção de materiais diversos através da nanocelulose", explica Heliane.

Heliane diz ainda que a eficiência está fortemente ligada ao tamanho do material, então a nanocelulose tem propriedades melhoradas em relação a celulose. E ainda tem o ganho na economia, porque a nano usa apenas cerca de 3% da celulose.

A Suzano, que tem base em Aracruz, norte do Estado, especialista na produção de celulose e papel, tem investido há pelo menos cinco anos no estudo e experiências com a nanocelulose. A partícula já é usada em papéis, cosméticos e tintas.

A gerente executiva de desenvolvimento de celulose e biorrefinaria da Suzano, Bibiana Ribeiro Rubini, explica que as grandes propriedades dos materiais nanos são de dar mais resistência aos produtos: "É como se a nanocelulose transformasse o líquido em gel. É possível, por exemplo, fazer um papel mais resistente, uma tinta que não vai escorrer, nem manchar, um cosmético com mais aderência à pele, um cimento firme e com mais leveza, e até mesmo tecidos". 

Futuro e Sustentabilidade

Uma das grandes vantagens é que a nanocelulose tem a capacidade de modificar diversos materiais mas é um produto renovável, natural.

"Hoje, para que uma tinta não escorra, é usado petróleo na composição. Usando a nanocelulose para essa função estaremos dando um passo para investir na sustentabilidade do mundo", pondera a gerente executiva de desenvolvimento de celulose e biorrefinaria da Suzano, Bibiana Ribeiro Rubini.

Estudiosos acreditam que no futuro a nanocelulose possa substituir o plástico que tanto polui o nosso planeta ou mesmo o alumínio.

No Japão, um carro foi construído com fibras de nanocelulose. O material tem um quinto do peso e cinco vezes a resistência do aço, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente. Ao usar esse tipo de fibra para compor a maior parte do veículo, o resultado é um carro com metade do peso de um tradicional, com uma redução de 10% em sua massa total.

Nanotecnologia e beleza

A nanocelulose também é utilizada em cosméticos. Não só ela, mas outros produtos utilizados com nanotecnologia são capazes de melhorar o resultado do produtos. 

Não é difícil entender o motivo. Como a nanotecnologia usa partículas minúsculas, elas são capazes de penetrar de forma mais profunda na pele, alcançando locais que outros produtos não chegam. Nesse conceito, o que se prega é: "quanto menor, melhor".

Menos alergias e mais aderência na pele

Uma outra vantagem é que os medicamentos e cosméticos feitos com nanotecnologia dão menos reações alérgicas, como explica a farmacêutica Luiza Tomasi Scardua: "Essas bases mais naturais tem trazido benefício para as pessoas que tem uma sensibilidade maior na pele, inclusive crianças. Elas toleram muito bem os produtos e além disso são eles são mais aderentes e tem uma ótima textura". 

Nanotecnologia aumenta eficiência dos cosméticos

A dermatologista Thays Rigoni afirma que os cosméticos feitos com nanotecnologia são muito elogiados pelas pacientes. Um exemplo é a vitamina C, que é usada para combater os radicais livres e melhorar o aspecto geral da pele. Mas as propriedades tem perdas se usadas em cosméticos comuns. "Já com uso da nanotecnologia, a vitamina C fica mais estável e tem maior penetração na pele, por causa das partículas.

 


ESTUDO DESENVOLVE 'EQUAÇÃO' QUE MOSTRA QUE NÃO DESMATAR PODE TRAZER MAIS LUCROS PARA O PAÍS

Giovana Girardi, Terra, 11.12.2019. 

Pesquisa foi desenvolvida por brasileiros e americanos e propõe estratégias para regiões em diferentes condições fundiárias; ideia é mostrar que é possível ter desenvolvimento com desmatamento zero                   

  • MADRI - Um grupo de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos desenvolveu uma "equação do uso do solo" para mostrar como estratégias que reduzam o desmatamento da Amazônia podem fazer com que o País acabe lucrando mais do que com o modelo econômico que hoje se expande sobre a floresta.

O trabalho propõe estratégias para terras em diferentes condições fundiárias na região e calcula, por exemplo, quanto é possível aumentar em termos de produção de carne e grãos. A ideia é mostrar como é possível promover o desenvolvimento sustentável com desmatamento zero.

Os pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e do Centro de Pesquisa Woods Hole elaboraram um plano de ação em quatro categorias fundiárias na região: terras públicas não designadas, que hoje estão à mercê da grilagem; propriedades particulares com vegetação nativa além da prevista pelo Código Florestal; propriedades privadas de médio e grande porte; e áreas de produção familiar.

"Olhando os dados históricos da evolução evolução da fronteira agrícola, percebemos que entre 1985 e 2017 abrimos uma área equivalente à França. O Brasil se tornou no período um grande player da agropecuária mundial, ocupando a Amazônia e o Cerrado. Cresceu o PIB, o Brasil responde por 7% do mercado mundial de commodities, muita gente come no mundo porque o País produz alimento, mas dentro desse pressuposto que hoje ninguém aceita mais", disse ao Estado André Guimarães, diretor-executivo do Ipam e um dos autores do estudo.

"Agora precisamos continuar crescendo, continuar suprindo alimento, mas não mais dentro desse antigo paradigma de abrir fronteira. Então elaboramos esses quatro pilares para aumentar a renda no campo sem haver mais desmatamento", explica.

O primeiro pilar é sobre as áreas públicas sem nenhum tipo de destinação - o principal foco de grileiros. Um estudo anterior do Ipam estimou que há cerca de 65 milhões de hectares nessas condições na Amazônia. "Enquanto elas estiverem disponíveis, serão alvo", diz. A primeira proposta do trabalho, portanto, é que elas sejam destinadas para a conservação - transformadas em parques, por exemplo.

A ação dependeria de governos federais e estaduais, que de maneira coordenada poderiam eliminar o acesso de grileiros e permitir formas de desenvolvimento, como o turismo.

A segunda ação é incentivar o aumento da produtividade das áreas já abertas na Amazônia. Os pesquisadores calcularam que a produção da carne poderia subir dos atuais 60?kg/ha/ano para 150?kg/ha/ano em 21% da área de pastagem já existente na região (cerca de 11 milhões de ha). Isso liberaria 4 milhões de hectares, o que, de acordo com o cálculo, seria o suficiente para que o Brasil atinja suas metas de crescimento até 2030 de gado (43%) e grãos (33%).

"Se o País precisa produzir mais, a ideia é canalizar as políticas públicas para incentivar essa intensificação", diz Guimarães. "O Plano Safra deveria virar um grande Plano ABC", afirma, referindo-se ao recurso que hoje existe para a chamada "agricultura de baixo carbono", mas que hoje tem um valor bem baixo. Neste ano, recebeu apenas 0,9% do crédito agrícola que chega a mais de R$ 200 bilhões por ano.

"O Plano Safra é um subsídio público. É dinheiro nosso. Queremos que seja usado para intensificar a produção e não para abrir novas fronteiras agrícolas", defende Guimarães. "Por que não optar por canalizar o recurso para os produtores que tiverem projetos para esse fim?"

A terceira estratégia é pôr em prática o tão falado Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), a fim de eliminar o desmatamento que ainda poderia ocorrer de modo legal. O alvo aqui são propriedades privadas que têm um excedente de terras preservadas - além da área que deve ser protegida de acordo com o Código Florestal - de 80% no caso de propriedades no bioma Amazônia.

"A ideia é remunerar esses proprietários por esse excedente de Reserva Legal para que ele não exerça seu direito de desmatar", explica Guimarães.

Calcula-se que existam cerca de 28 milhões de hectares de vegetação nativa nessas condições em propriedades privadas. Por lei, os donos das terras poderiam vir a desmatá-las. Com o PSA, eles teriam uma renda e não precisariam fazer isso. Essa possibilidade já é prevista no Código Florestal, mas nunca foi regulamentada. O trabalho, publicado na revista Land Use Policy, também recomenda que mecanismos alternativos de PSA sejam estimulados.

O último pilar do estudo, que será divulgado nesta quinta-feira, 12, na Conferência do Clima da ONU, em Madri, é promover melhorias econômicas, ambientais e sociais na agricultura familiar, por meio de assistência técnica rural fornecida pelos Estados e pelo setor privado. "De todo o desmatamento na Amazônia hoje, cerca de 30% ocorre em pequena propriedade e isso ocorre por ausência total de assistência técnica. O capital financeiro não está disponível, o capital humano é baixo, então tudo o que eles têm é o capital natural, que é frequentemente aberto para gerar renda", explica.

O estudo cita como exemplo um trabalho do Ipam feito ao longo de cinco anos com 650 famílias no Pará que ofereceu assistência técnica continuada. Houve um aumento 121% da renda e redução de 79% no desmatamento.

"O resultado disso tudo é zerar o desmatamento, levar ao desenvolvimento e contribuir para mitigar mudança climática", afirma.

Segundo ele, houve um ensaio disso no período entre 2004 e 2012, quando houve uma queda de 83% no desmatamento da Amazônia ao mesmo tempo em que a produção de soja subiu 130% e a de carne, 72%. "Conseguimos isso no passado e foi com ideias mais mais ou menos assim. O governo federal destinou áreas para conservação, aumentou a governança, estimulou a produção sustentável com o Plano ABC e apoiou a pequena produção", lembra.

 


  

José Antônio Aleixo da Silva (Editor)
Professor titular da DCFL/UFRPE
Conselheiro da SBPC

Paulo Henrique Pontes

Designer do Jornal

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