Notícias

Jornal Eletrônico da SBPC/PE #20 Ano: 4

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Notícias:

ACADEMIA PERNAMBUCANA DE CIÊNCIA PROMOVE O I ENCONTRO PERNAMBUCANO DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA: CONHECENDO PERNAMBUCO.

ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA HOMENAGEIA OS MAIS NOVOS NOTÁVEIS CIENTISTAS PERNAMBUCANOS.

EM RECADO A BOLSONARO, CÂMARA DO RECIFE APROVA PAULO FREIRE COMO PATRONO DA EDUCAÇÃO MUNICIPAL.

ENTIDADES CIENTÍFICAS ALERTAM CONTRA O DESMANTELAMENTO DO SISTEMA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO PAÍS.

FUSÃO CNPQ COM A CAPES: UM EQUÍVOCO GIGANTESCO.

EDUCAÇÃO: FUSÃO ENTRE CAPES E CNPQ GERA PROTESTOS ATÉ DENTRO DO GOVERNO.

EX-MINISTROS DA CIÊNCIA ALERTAM CONTRA ESTRANGULAMENTO DE INOVAÇÃO DO PAÍS.

EM DEFESA DAS AGÊNCIAS FEDERAIS DE FOMENTO À CIÊNCIA E TECNOLOGIA.

UNICAMP APROVA MOÇÃO EM ASSEMBLEIA DE 8 MIL PESSOAS.

DOUTOR HONORIS CAUSA DA UFRN RECEBE PRÊMIO NOBEL DE FÍSICA.

APOIO À CIÊNCIA BÁSICA PERMITE AO BRASIL AVANÇAR EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL.

COMPUTADORES E SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS.

EXPLORAÇÃO DA AMAZÔNIA DEVE SE BASEAR NO CONHECIMENTO DA NATUREZA.

CIDADES INTELIGENTES: CONHEÇA QUATRO PROJETOS PELO MUNDO.

BOLSAS DE PÓS-GRADUAÇÃO NA ALEMANHA.

 


 

Secretária Regional: Maria do Carmo Figueredo Soares
Secretaria Regional Adjunta: Marília Regina Costa Castro
 

José Antônio Aleixo da Silva (Editor)
Professor titular da DCFL/UFRPE
Conselheiro da SBPC

Paulo Henrique Pontes
Designer do Jornal

 


 

ACADEMIA PERNAMBUCANA DE CIÊNCIA PROMOVE O I ENCONTRO PERNAMBUCANO DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA: CONHECENDO PERNAMBUCO.

PROGRAMAÇÃO DO “I ENCONTRO PERNAMBUCANO DE EDUCAÇÃO,CIÊNCIA E TECNOLOGIA – CONHECENDO PERNAMBUCO

 

DIA 31 DE OUTUBRO

 

8h - 9h - CREDENCIAMENTO

9h – 10h - ABERTURA E ENTREGA DOS PRÊMIOS: Ricardo Ferreira e Naíde Teodósio

(Cientistas sêniores) e Marcionilo Lins e Rachel Gevertz (Jovens cientistas)

10h – 10h20 - COFFEE BREAK

10h20 – 10h50 - SAUDAÇÃO AOS NOVOS ACADÊMICOS E PALESTRA HISTÓRICO

DAS ACADEMIAS DE CIÊNCIAS NO MUNDO” Acad. Mauro C dos Santos

10h50 – 12h - POSSE DOS NOVOSACADÊMICOS DAAPC

12h - 14h - INTERVALO PARAALMOÇO

14h – 16h - “O PAPEL DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS NO DESENVOLVIMENTO

DE PERNAMBUCO”

Anália Keila Ribeiro (IFPE); Alfredo Macedo Gomes (UFPE); Maria José Sena (UFRPE);

Pedro Henrique de B. Falcão (UPE); Helinando Oliveira (UNIVASF)

Coordenador: Acad. Anísio Brasileiro de Freitas Dourado

16h - 16h15 - COFFEE BREAK

16h15 - 18h15 - “DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO NAS

INSTITUIÇÕES DE PESQUISA DE PERNAMBUCO”

Suzana Montenegro (APAC); Benedito A. Macedo (CESAR), Frederico Toscano

(CETENE); Sinval Brandão (FIOCRUZ); Gabriel Maciel (IPA); Antônio Vaz (ITEP)

Coordenador: Acad. André Freire Furtado

 

DIA 01 DE NOVEMBRO

 

9h – 10h - “EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA E INOVAÇÃO INDUSTRIAL

(EMBRAPII) NO DESENVOLVIMENTO DO BRASIL”

Palestrante: Jorge Almeida Guimarães – Presidente da Embrapii

Coordenador: Acad.Amaro Henrique Pessoa Lins

10h - 10h15 - COFFEE BREAK

10h15 – 11h15 - “A SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA

(SBPC) E O DESENVOLVIMENTO DO BRASIL”

Palestrante: Ildeu de Castro Moreira – Presidente da SBPC

Coordenador: Acad. José Antônio Aleixo da Silva

11h15 – 12h15 - “PAULO FREIRE, O PATRONO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA”

Palestrante: Silke Weber – Ex-secretária de Educação de Pernambuco

Coordenadora: Acad. Leda Narcisa Regis

12h15 - 14h - INTERVALO PARAALMOÇO

14h – 15h - “FOMENTO À PESQUISA E DESENVOLVIMENTO NO ESTADO DE

PERNAMBUCO”

Palestrantes: Aluísio Lessa, Secretário de C&T-PE

Fernando Jucá, Presidente da FACEPE

Coordenador: Acad. Abraham Benzaquem Sicsu

15h - 16h - “EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA NO DESENVOLVIMENTO DE

PERNAMBUCO”

Palestrante: Tânia Bacelar – Academia Pernambucana de Ciências

Coordenadora: Acad. Lucia Carvalho de Pinto Melo

16h - 16h15 - COFFEE BREAK

16h15 - 17h15 - “CIÊNCIA E TECNOLOGIANO DESENVOLVIMENTO DE BRASIL”

Palestrante: Sérgio Machado Rezende – Ex-Ministro de C&T do Brasil

Coordenador: Acad. Ivon Palmeira Fittipaldi

17h15 - 18h - SESSÃO DE ENCERRAMENTO

 

Dias: 31/10 e 01/11/2019 – Horários: 09h às 12h e 14h às 18h.

Local: Auditório Frederico Simões Barbosa

Instituto Aggeu Magalhães – FIOCRUZ - Universidade Federal de Pernambuco

Inscrição grátis no local. Haverá entrega de certificados

 


 

ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA HOMENAGEIA OS MAIS NOVOS NOTÁVEIS CIENTISTAS PERNAMBUCANOS.

 

 

 


 

EM RECADO A BOLSONARO, CÂMARA DO RECIFE APROVA PAULO FREIRE COMO PATRONO DA EDUCAÇÃO MUNICIPAL.

Felipe Vilar*, Blog do Jamildo, 15.10.2019

 

Nesta terça (15), a Câmara Municipal do Recife aprovou um Projeto de Lei instituindo o pedagogo Paulo Freire como patrono da educação na capital pernambucana.  Freire já é o Patrono da Educação Brasileira.

O Projeto de Lei Ordinária (PLO) 199/2019 foi proposto pelo vereador Rinaldo Júnior (PSB). Segundo o parlamentar, o nome de Freire, que é recifense, foi escolhido “em razão da dedicação de grande parte de sua vida à alfabetização e à educação da população pobre e dos relevantes serviços prestados à educação no Brasil” 

A votação ocorreu em pleno Dia dos Professores. O projeto foi aprovado por unanimidade pela Casa e segue para sanção do prefeito Geraldo Júlio (PSB).

Rinaldo Júnior/Foto: Luara Olívia

 

Rinaldo Júnior aproveitou a votação para atacar o presidente Jair Bolsonaro (PSL). “Em contraponto ao presidente Jair Bolsonaro, que chegou até a afirmar, em seus momentos de loucura, que se pudesse lançaria um lança-chamas em toda a obra de Paulo Freire, ameaçando até retirar o nome do educador do título de Patrono da Educação do Brasil”, afirmou.

“Professor, educador, pedagogo, escritor, filósofo, o recifense Paulo Freire foi o brasileiro que mais recebeu títulos honoris causa pelo mundo, por isso o nome deste ilustre recifense merece ser exaltado e seu legado reconhecido” , continuou.

Em agosto, o ministro da Educação, Abraham Wintraub, fez uma postagem em seu perfil no Twitter criticando um monumento a Paulo Freire. A publicação tinha a legenda “Não é feio de doer?”. O mosaico atacado por Weintraub está localizado em frente ao prédio do Ministério da Educação, em Brasília.

No mesmo dia, o ministro participou do programa de rádio “Morning Show”, da rádio Jovem Pan.  Na ocasião, ele criticou o método de alfabetização criado pelo pedagogo pernambucano: “O Paulo Freire se fosse tão bom, ia ter pelo menos mais um país além do Brasil usando o método dele. Coisa boa a gente copia”.

 


 

ENTIDADES CIENTÍFICAS ALERTAM CONTRA O DESMANTELAMENTO DO SISTEMA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO PAÍS.

Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2019 ABC PR-139/2019/Carta Conjunta

 

Presidente do Senado Davi Alcolumbre

Presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia

Ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira

Ministro-chefe da Casa Civil Onyx Dornelles Lorenzoni

Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações Marcos Cesar Pontes

Ministro da Economia Paulo Roberto Nunes Guedes

Ministro da Educação Abraham Weintraub

Prezados Senhores,

As entidades abaixo relacionadas vêm, respeitosamente, dirigir-se a Vossas Excelências com o objetivo de manifestar sua posição contrária à fusão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e à transferência do FNDCT para o Ministério da Economia e da FINEP para o BNDES.

 A proposta de fusão do CNPq e CAPES, se efetivada, poderá trazer consequências comprometedoras, tanto para o sistema de ensino brasileiro como para o sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação. Seria uma medida equivocada sob todos aspectos já que as duas instituições, criadas e desenvolvidas ao longo de mais de seis décadas, têm missões bastante claras e complementares, que funcionam como pilares do sistema educacional e científico do País.

 A Capes e o CNPq são instituições com estruturas, finalidades e objetivos específicos. Desde que foram criadas, em 1951, receberam missões distintas na construção do Brasil moderno. A missão inicial da Capes se referia exclusivamente à qualificação de profissionais de nível superior, o que resultou na criação e expansão de nosso eficiente e modelar sistema de pós-graduação. Assim, diante de sua eficiência na organização dos níveis mais sofisticados de ensino, a Capes recebeu, poucos anos atrás, duas novas missões: ajudar na qualificação dos professores da nossa educação básica e na solidificação do ensino à distância no Brasil. Em síntese, a missão da Capes é fomentar a qualificação de recursos humanos em praticamente todos os níveis do sistema educacional brasileiro.

Já a missão do CNPq, desde sua criação, é fomentar projetos de pesquisa científica, de modo a contribuir para o desenvolvimento científico e tecnológico do País. Mais recentemente, incluiu entre seus objetivos contribuir também para a promoção da inovação tecnológica e social, visando expandir as atividades de ciência e tecnologia para o ambiente empresarial e para a melhoria das políticas públicas.

A coexistência da Capes e do CNPq é fundamental para o nosso desenvolvimento econômico, social, cultural e ambiental. Alterar essas estruturas é fragilizar um dos alicerces – talvez o mais importante deles – de sustentação do Brasil contemporâneo que mira um futuro promissor para todos os brasileiros. Lembramos que ambas instituições foram criadas no ano de 1951, sendo o CNPq fruto da visão estratégica do Almirante Álvaro Alberto e de outros cientistas.

A Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) é a outra agência de importância vital para o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. A FINEP foi criada em 24 de julho de 1967, durante o governo militar, para institucionalizar o Fundo de Financiamento de Estudos de Projetos e Programas, criado no ano de 1965. Seu papel foi, é e continuará sendo fundamental para o sistema, que olha toda a cadeia de desenvolvimento tecnológico e de inovação. Seu impacto é extenso em todas as áreas, da agricultura, à aeronáutica, à indústria de medicamentos e equipamentos médicos, entre tantos outros.

Cabe lembrar que o FNDCT foi criado em 1969, por meio do Decreto-Lei nº 719, e regulamentado conforme a Lei nº 11.540, de 12 de novembro de 2007 e o Decreto nº 6.938, de 13 de agosto de 2009. A secretaria executiva do FNDCT é exercida pela FINEP, empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

 Especialmente a partir deste século, com a criação dos Fundos Setoriais de Ciência e Tecnologia, o FNDCT se tornou o principal instrumento de financiamento às atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação em nosso País. Em razão da diversidade de suas fontes de recursos e da amplitude de seus objetivos na política de desenvolvimento científico e tecnológico, sua execução exige uma estrutura complexa de análise e acompanhamento de projetos de pesquisa e inovação, que certamente deverá ser continuamente aprimorada, mas que não se adequa à experiência, finalidade e organização do Ministério da Economia e do BNDES.

 Reivindicamos que a consolidação dessas propostas seja feita num diálogo aberto e com intercâmbio de informações e opiniões com a comunidade de ciência, tecnologia e inovação - vale dizer, instituições de pesquisa, entidades representativas da comunidade científica, tecnológica e da inovação, empresas que investem em P&D e órgãos de governo relacionados ao tema.

A transferência do FNDCT para o Ministério da Economia significará um retrocesso irreparável, bem como a transferência da FINEP para o BNDES. Lembramos que as atividades desenvolvidas pela FINEP não poderão ocorrer no BNDES, por muitas razões, inclusive aquelas relativas ao fato do BNDES ser um banco e estar sujeito às normas da Basiléia.

Reiteramos ainda a importância da manutenção do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Quando se evidencia o impacto da ciência, tecnologia e inovação em nosso País, torna-se clara a relevância da existência de um Ministério para Ciência e Tecnologia nos últimos 30 anos.

 Ressaltamos que a Constituição Federal, em seu artigo 218, afirma que “O Estado promoverá e incentivará o desenvolvimento científico, a pesquisa, a capacitação científica e tecnológica e a inovação” e que “A pesquisa científica básica e tecnológica receberá tratamento prioritário do Estado, tendo em vista o bem público e o progresso da ciência, tecnologia e inovação”. Há que cumpri-la.

 Saudações cordiais,

 

 Academia Brasileira de Ciências (ABC)

 Academia Nacional de Engenharia (ANE)

 Academia Nacional de Medicina (ANM)

 Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (ABIPTI)

 Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (ABRUEM)

 Associação Nacional de Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES)

 Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos de Inovação (ANPROTEC)

 Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (CONFIES)

 Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (CONIF)

 Conselho Nacional de Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP)

 Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (FORTEC)

 Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas (RBCIH)

 Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

 


 

FUSÃO CNPQ COM A CAPES: UM EQUÍVOCO GIGANTESCO.

Isaac Roitman*, Opinião, Monitor Mercantil, 16.10.2019

 

No início da década de 50 do século passado, dois visionários criaram duas instituições que tiveram um papel importante na educação e no sistema de Ciência e Tecnologia do Brasil.

O primeiro deles foi Anísio Teixeira, que criou a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), que desempenhou um papel fundamental na expansão e consolidação da pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado).

Em 2007 passou também a atuar na formação de professores da educação básica, ampliando o alcance de suas ações na formação de pessoal qualificado no Brasil e no exterior.

As principais ações da Capes são:

1 – Avaliação da pós-graduação strictu sensu

2 – Acesso e divulgação da produção científica

3 – Investimento na formação de recursos humanos de alto nível, no país e no exterior

4 – Promoção da cooperação científica internacional

5 – Indução e fomento da formação inicial e continuada de professores para a educação básica nos formatos presencial e a distância.

A Capes tem sido decisiva para os êxitos alcançados pelo Sistema Nacional de Pós-Graduação, tanto no que diz respeito à consolidação do quadro atual, como na construção das mudanças que o avanço do conhecimento e as demandas da sociedade exigem.

 

Vamos rogar a Santa Dulce para evitaresse erro que compromete o futuro do Brasil

O segundo foi o Almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, que criou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A lei de criação do Conselho estabelecia como suas finalidades promover e estimular o desenvolvimento da investigação científica e tecnológica, mediante a concessão de recursos para pesquisa, formação de pesquisadores e técnicos, cooperação com as universidades brasileiras e intercâmbio com instituições estrangeiras.

A missão do CNPq era ampla, uma espécie de “estado-maior” da ciência, da técnica e da indústria, capaz de traçar rumos seguros aos trabalhos de pesquisas científicas e tecnológicas do país, desenvolvendo-os e coordenando-os de modo sistemático.

 

As principais ações do CNPq são:

1 – Promover e fomentar a pesquisa científica e tecnológica e a inovação

2 – Promover a realização de acordos, protocolos, convênios, programas e projetos de intercâmbio e transferência tecnológica entre entidades públicas e privadas, nacionais ou internacionais

3 – Apoiar e promover reuniões de natureza científica e tecnológica

4 – Promover e realizar estudos sobre o desenvolvimento científico e tecnológico

5 – Credenciar instituições para, nos termos da legislação pertinente, importar bens com benefícios fiscais destinados a atividades diretamente relacionadas com o desenvolvimento científico brasileiro.

Desde sua criação, as duas agências têm desempenhado um papel absolutamente importante no desenvolvimento da educação e no desenvolvimento científico-tecnológico. No passado recente a mídia noticiou que o governo estuda fundir o CNPq com a Capes, já que os dois órgãos são importantes para o desenvolvimento social e econômico do país, mas têm funções distintas. Em adição, é importante lembrar uma famosa frase comumente utilizada no mundo do futebol: “Em time que está ganhando não se mexe”.

A comunidade acadêmica e científica é contra essa fusão. Liderada pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e subscrita por mais de uma centena de entidades ligadas às áreas de Educação e Ciência, foi enviada uma carta para os presidentes da Câmara e do Senado, para a Casa Civil e Secretaria de Governo da Presidência da República, para os ministros da Economia, Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e Educação.

Destaco um trecho dessa carta: “A proposta de fusão do CNPq e Capes, se efetivada, poderá trazer consequências comprometedoras, tanto para o sistema de ensino brasileiro como para o sistema nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Seria uma medida equivocada sob todos os aspectos, já que as duas instituições, criadas e desenvolvidas ao longo de mais de seis décadas, têm missões bastante claras e complementares, que funcionam como pilares do sistema educacional e científico do país.”

Vamos esperar bom senso de nossos governantes e rogar para que a nossa santa brasileira Dulce ajude a evitar esse equívoco gigantesco que pode comprometer o futuro do Brasil.

 

* Isaac Roitman. Professor emérito da Universidade de Brasília, pesquisador emérito do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

 


 

EDUCAÇÃO: FUSÃO ENTRE CAPES E CNPQ GERA PROTESTOS ATÉ DENTRO DO GOVERNO.

Ana Luiza Basilio, Carta Capital. 17.10.20 

 

PESQUISADORES DERAM UM ABRAÇO SIMBÓLICO NO PRÉDIO DO CNPQ, EM BRASÍLIA, CONTRA PROPOSTA DE FUSÃO DO GOVERNO. CRÉDITOS: FOTO: SINDGCT/DIVULGAÇÃO

 

Comunidade científica – até o ministro da Ciência – reage contra a proposta e fala em impactos negativos na sociedade

O governo Bolsonaro estuda fundir a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Existem rumores de que há uma medida provisória pronta para decretar a fusão das agências, aguardando apenas a assinatura do presidente. 

A comunidade científica se opõe à medida e fala em desestruturação do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia, com graves impactos no funcionamento das instituições de pesquisa e universidades, sucateamento de laboratórios e êxodo de pesquisadores, além de impactos negativos na sociedade, na economia e na qualidade de vida das pessoas.

Na tarde da quarta-feira 16, centenas de pesquisadores e servidores da área de ciência e tecnologia deram um abraço simbólico no prédio do CNPq em Brasília, em um ato de protesto contra a possível fusão do conselho com a Capes.

 

A proposta de fusão

A proposta nasceu do Ministério da Educação e teria como prerrogativa a redução de custos, ainda que os dois órgãos não sejam atrelados à pasta. Apenas a Capes é do MEC. O CNPq é ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). O projeto de lei orçamentária para 2020 prevê que a Capes conte com 2,2 bilhões de reais, quase a metade da previsão de 2019 (51,7%) ou 64,1% do valor real (pós-contingenciamento). A previsão orçamentária do CNPq em 2020 é praticamente o mesmo autorizado em 2019, 1,2 bilhão de reais.


A ideia é que a fusão dê origem a uma nova agência, em formato de fundação, controlada pelo Ministério da Educação. Já a Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep), atualmente vinculada ao MCTIC, seria absorvida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Seu papel é conceder recursos reembolsáveis e não-reembolsáveis a instituições de pesquisa e empresas brasileiras, com apoio a todas as etapas e dimensões do ciclo de desenvolvimento científico e tecnológico: pesquisa básica, pesquisa aplicada, inovações e desenvolvimento de produtos, serviços e processos.

Criadas em 1951, Capes e CNPq têm funções distintas. A primeira é ligada à expansão, consolidação e avaliação da pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) em todos os estados da Federação. Também atua na formação de professores da educação básica, ampliando o alcance de suas ações na formação de pessoal qualificado, no Brasil e no exterior. Já o CNPq tem como principais atribuições fomentar a pesquisa científica e tecnológica e incentivar a formação de pesquisadores brasileiros.

 

Divergências

A proposta causa divergência entre os próprios integrantes do governo. Em um post feito em suas redes sociais, o ministro do MCTIC, Marcos Pontes, se mostrou contrário à ideia do MEC e do governo. “A posição do MCTIC é contrária à fusão, pois seria prejudicial ao desenvolvimento científico do País”.

Marcos Pontes

Sobre a idéia divulgada de junção do CNPq e CAPES:  a posição do MCTIC é contrária à fusão, pois seria prejudicial ao desenvolvimento científico do País.

Existe algum sombreamento de atividades e pontos de melhoria na gestão.

Esses problemas já estão sendo trabalhados no CNPq.

CartaCapital questionou o MEC sobre a proposta e sobre as dissidências ocasionadas no governo. A pasta respondeu, via assessoria de comunicação: “O Ministério da Educação acatará a decisão que o presidente da República considerar mais conveniente para o Brasil”.

Também em nota, o CNPq afirmou ser contra a fusão, tendo em vista a diferença de missão e atuação de cada uma das agências. “Reforçamos que ambas são essenciais dentro dos seus propósitos e uma fusão entre elas pode prejudicar significativamente a missão de cada uma.”

 

Reações

No último dia 10, oito entidades que compõem a Iniciativa para Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br), apoiadas por mais de 47 instituições acadêmicas, científicas e tecnológicas de todo o País, elaboraram uma carta contra a fusão, posteriormente entregue a parlamentares da Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização, da Câmara dos Deputados, e a senadores e deputados do Congresso Nacional.

No texto, o grupo reafirma a importância da manutenção das três agências de fomento federais com recursos compatíveis às suas funções. “Qualquer extinção/fusão/incorporação dessas agências será prejudicial e lesiva ao funcionamento do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação”. O documento ainda reforça o papel da área para o desenvolvimento econômico e social e para a soberania de qualquer país.

Ainda de acordo com as entidades, o argumento de que o país passa por uma crise e há falta de recursos para a área não se aplica. “Os recursos para essas áreas no Orçamento da União correspondem a apenas 0,25% de seu valor total. Os signatários alertam que “a redução drástica de recursos para essas áreas é uma decisão política”.

A Coalizão Ciência e Sociedade, composta por membros da sociedade civil, também lançou um manifesto em defesa da Ciência e contra a proposta ventilada pelo governo. No texto, o grupo afirma que “não há espaço para planejamentos míopes e de curto-prazo quando se trata do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia”. “Os impactos de tais mudanças geram danos que não podem ser mitigados rapidamente e condenam o Brasil à perda de competitividade, de independência e de condições para o enfrentamento de crises que afetam vários setores da economia e da sociedade”, condena.

Para o presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Ildeu de Castro Moreira, a medida é mais um ataque injustificado à ciência brasileira. “Países como os EUA, por exemplo, têm dez agências diferentes de fomento à pesquisa. Isso não significa desperdício, mas eficiência”, atesta. O pesquisador fala em possíveis interesses do MEC por poder interno e critica os frequentes discursos da pasta desqualificando a pesquisa brasileira, “que tem avançado e construído respeito internacional”, pondera.

“Claro que as agências de fomento à pesquisa e as universidades podem ser melhoradas. A questão é que isso não deve recair apenas sobre a área da Ciência, Tecnologia e Inovação. É também um desafio de governo, das políticas públicas fazer com que as pesquisas tenham repercussão maior na inovação tecnológica, social, na gestão pública e no sistema produtivo. Essa é uma questão histórica brasileira, que tem que ser abordada. Mas que certamente não será alcançada com a desestruturação do que construímos ao longo de décadas”.

 

 

 


 

EX-MINISTROS DA CIÊNCIA ALERTAM CONTRA ESTRANGULAMENTO DE INOVAÇÃO DO PAÍS.

Rafael Garcia, O Globo, 17.10.2019

 

Mudanças propostas para o Finep incluem retirada da maior fonte de recusos do principal órgão de fomento do setor 

Edifício Ventura, onde está a sede na Finep, no Centro do Rio. (Foto: Lucas Tavares/Zimel/Agência O Globo) Foto: Lucas Tavares / Agência O Globo

 

RIO - Três ex-ministros de Ciência e Tecnologia afirmaram ao GLOBO que mudanças cogitadas pelo governo Bolsonaro para a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) teriam como efeito o esvaziamento do papel da entidade e o estrangulamento do setor de inovação no país. 

O físico Sérgio Rezende, que vê "desconhecimento ou má intenção" por trás da proposta, se junta ao matemático Marco Antonio Raupp, para quem o governo quer "nivelar por baixo" sua política de inovação, e a Luiz Carlos Bresser-Pereira, para quem "este governo não quer mais saber de financiar as inovações brasileiras".

Os três reagiram a sugestões contidas em uma apresentação de slide da Secretaria de Orçamento Federal, do Ministério da Economia, exibida em uma reunião interna. O documento foi vazado no mês passado pela Associação dos Empregados da Finep e revelado pelo site Direto da Ciência. A apresentação em questão lista um conjunto de medidas propostas para a administração do MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações).

A SOF sugere "destituir a Finep como secretaria-executiva e agente financeiro do FNDCT [Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]", o que significa tirar desta sua principal fonte de recursos.

A ideia, afirma o documento, é que verbas que hoje estão sob a gestão da Finep sejam manejadas diretamente pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

O Ministério da Economia não se manifestou abertamente sobre a proposta. A diretoria da Finep diz que não "tratou deste assunto com o Ministério da Economia" e "reafirma seu compromisso de atuar alinhada com o MCTIC".

Segundo Sergio Rezende, o que pode aparentar ser uma mudança meramente burocrático-administrativa tem um sentido mais grave.

— Tirar o FNDCT da Finep significa extinguir a Finep — afirma Rezende, que antes de ser ministro foi presidente da agência. — Eles acham que se juntarem a Finep com o BNDES vão economizar dinheiro, mas não vão economizar nada.

Segundo o ex-ministro, a agência tem se sustentado historicamente apenas com os retornos dos empréstimos que faz, e não faria sentido sacrificá-la em um ajuste fiscal para cortar recursos.

 

'E a Finep faria o quê?'

Para os ex-ministros ouvidos pelo GLOBO, esvaziar o papel da Finep na política de inovação do país seria uma medida difícil de reverter, porque a agência agrupou uma equipe especializada ao longo de seus 50 anos de existência, e recompô-la seria uma tarefa difícil em outra instituição.

— O BNDES também pode executar esta missão, adequando-se. E a FINEP faria o quê? — questiona Marco Antonio Raupp, hoje diretor-geral do Parque Tecnológico de São José dos Campos. — Não seria um desperdício dos esforços realizados na Finep para capacitá-la para essa missão, com bons resultados até aqui?

Para Rezende, a Finep tem importância estratégica hoje em conectar empresas ao setor acadêmico para estimular a inovação: uma articulação delicada que se perderia dentro do turbilhão do BNDES, que lida com um bolo financeiro 50 vezes maior.

Bresser-Pereira, que foi ministro nas pastas da Fazenda e da Ciência e Tecnologia, diz crer que o o esvaziamento do papel da Finep reflete uma política sem visão estratégica

— o governo está dizendo não só que é contra a política industrial, mas contra a política de ciência e tecnologia. Eles acham que o Estado não tem nada a ver com isso, e portanto o setor privado que cuide do assunto — afirmou.

Segundo o economista e cientista social, a redução do investimento em inovação não se compensa como ajuste fiscal.

— Já vi todas as formas de neoliberalismo nesses últimos 40 anos, mas nem o liberal mais exaltado diz que o Estado pode se retirar do financiamento da tecnologia e da ciência — afirma Bresser.

 

Empréstimo e devolução

A Finep trabalha com duas linhas de financiamento. Uma, destinada a empresas, é "reembolsável" na forma de empréstimos a juros baixos, mas pode representar apenas uma parcela do bolo da Finep. A outra linha, "não-reembolsável", é aplicável a instituições de pesquisa e é feita a fundo perdido, como uma doação.

Uma proposta da SOF para a agência, porém, é justamente "retirar a limitação de percentual de receitas a serem aplicados na modalidade reembolsável". Outra delas é "estudar a possibilidade de criação de um fundo privado, com aporte da União, via integralização de cotas, em substituição ao FNDCT, para o financiamento de projetos de ciência e tecnologia."

A intenção das propostas não é totalmente clara a partir da leitura da apresentação de slides, afirma Raupp.

— Minimamente parece ser uma busca de "tempo" para iniciar efetivas ações de financiamento do sistema, que está em plena operação e necessitado, sob pena de degradação em seu desempenho — diz o ex ministro.

Na opinião de Rezende, a proposta de rebaixamento da Finep se encaixa dentro de contexto de um ataque orquestrado à política do país para o setor. Ele critica também a sugestão de fusão do CNPq com a Capes, agências federais de fomento à ciência com papéis distintos.

— Este governo não valoriza a ciência e tecnologia — diz o físico, que destaca o papel da Finep na criação da Embraer e no uso da Embrapa para impulsionar o agronegócio brasileiro — Eles acham que [inovação] é uma atividade diletante, que o Brasil não precisa disso e que quando a gente precisar de uma coisa, basta a gente comprar.

A Finep, que teve uma despesa executada média de R$ 1,8 bilhão nos últimos quatro anos, processou apenas R$ 270 milhões em 2019 até setembro.

 

Comunidade acadêmica

As manifestações de Rezende e Raupp se unem a um protesto da comunidade científica, que enviou na última sexta-feira uma carta aberta às cúpulas dos poderes Executivo e Legislativo do governo federal.

Ao todo, 11 entidades, que incluem a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e a ABC (Academia Brasileira de Ciências), reclamam da falta de transparência do governo no planejamento de mudanças para CNPq, Capes, Finep e FNDCT.

Os acadêmicos alertam para o problema de tirar a gestão de inovação do país das mãos do MCTIC e da Finep. "Sua execução exige uma estrutura complexa de análise e acompanhamento de projetos de pesquisa e inovação, que certamente deverá ser continuamente aprimorada, mas que não se adequa à experiência, finalidade e organização do Ministério da Economia e do BNDES", escrevem.

 

 


EM DEFESA DAS AGÊNCIAS FEDERAIS DE FOMENTO À CIÊNCIA E TECNOLOGIA.

Wanderley de Souza, Monitor Mercantil, 16.10.2019

 

Nas últimas semanas, a comunidade que milita no campo da Ciência e Tecnologia (C&T) no Brasil passou por momentos tensos. Circulou amplamente um documento intitulado “Propostas de Melhoria da Gestão do Orçamento do MCTIC” elaborado pela Secretaria Especial de Fazenda e pela Secretaria de Orçamento Federal, ambas integrando a estrutura do Ministério da Economia.

Este documento faz considerações equivocadas sobre o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), principal fonte de recursos para os programas desenvolvidos pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que não foi consultada.

Os comentários sobre o FNDCT são equivocados, indicando desconhecimento total sobre sua importância, sobre o seu marcante e reconhecido impacto positivo no estabelecimento da infraestrutura científica nacional e seu papel vital para a existência da própria Finep.

Ao propor transferir o FNDCT da Finep para o BNDES, confunde os recursos de C&T com recursos para desenvolvimento industrial mediante operações de crédito, além de essa medida implicar no fechamento da Finep.

 

Autoridades do Ministério da Economia acham que é mais barato comprar tecnologia

Justifica a existência inconstitucional a Reserva de Contingência como devido a “vinculação excessiva de receitas, alguns comentários equivocados do TCU ou mesmo problemas fiscais”. Na realidade, nenhum dos argumentos apresentados procede, e se esquecem que nos anos 2010–2014, o FNDCT executou plenamente o que arrecadou.

Ao mesmo tempo foi divulgada a informação de que Ministério da Economia e a Casa Civil da Presidência da República, estavam finalizando uma medida provisória extinguindo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vinculado ao MCTIC, transferindo suas funções para a Capes, vinculada ao MEC.

Tudo isso junto parecia uma orquestrada ação para acabar com a pesquisa científica no Brasil. Descobriu-se, ainda, que altas autoridades do Ministério da Economia consideram que o Brasil não deveria investir tanto em desenvolvimento de tecnologia pois custa menos comprá-la. Acresce, ainda, o silêncio sepulcral do ministro Marcos Pontes e sua equipe.

Obviamente, a comunidade científica despertou e partiu para a luta, sobretudo junto ao Congresso Nacional. Hoje temos a posição de importantes líderes na Câmara e no Senado em defesa da permanência das agências de fomento, cada qual com sua especificidade clara e conhecida de todos.

Uma vez descrito o triste cenário em que vivemos, cabe agora algumas reflexões sobre o tema. Uma análise do documento apresentado pelo Ministério da Economia nos deixa duplamente preocupados. Primeiro, pela qualidade técnica do documento, indicando que seus autores não têm a mínima ideia do que é o Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia, construído de forma exemplar na década de 1950 e aperfeiçoado ao longo dos anos.

Ficamos perplexos com o fato de pessoas que nada entendem do assunto terem a coragem de fazer propostas que só servem para liquidar com o que a comunidade científica e governos anteriores conseguiram conquistar ao longo de alguns decênios. Espero que não sejam os mesmos que estão a cuidar da “saúde econômica” do país.

Todos os membros da comunidade científica sabem das especificidades de cada agência de fomento e vão até as últimas consequências para defendê-las. Nenhum país concentra toda a atividade de fomento em uma única agência.

O CNPq tem como foco principal o pesquisador e seu grupo de pesquisa, concedendo prioritariamente:

(a) bolsas de Iniciação Científica para estudantes de graduação que fazem estágio em laboratórios de pesquisa

(b) bolsas de apoio técnico

(c) bolsas de produtividade acadêmica para os pesquisadores

(d) bolsas de pesquisadores visitantes

(e) apoio para viagens ao exterior visando estágios e participação de congressos científicos

(f) apoio financeiro para que possam manter seus laboratórios, o que é feito via o Edital Universal, ou constituir redes temáticas integradas por vários grupos de pesquisa, como é o caso dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs)

(g) apoiar a cooperação internacional entre grupos de pesquisa.

Acresce, ainda, o apoio a um conjunto de programas importantes como biodiversidade, Antártica, entre outros, bem como programas articulados com outros ministérios, entre os quais destaco o da Saúde. Cabe esclarecer que o universo da pesquisa científica com o qual o CNPq lida diariamente abrange cerca de 200 mil pessoas.

 

O Finep e o BNDES poderiam se associar em projetos estratégicos de Estado

A Capes tem como função primordial o aperfeiçoamento de pessoal de nível superior, que se dá sobretudo nos cerca de 7 mil cursos de pós-graduação que contam com 280 mil alunos, formando anualmente cerca de 87 mil mestres e doutores necessários para o pleno funcionamento do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia.

Ao contrário do CNPq, que só lida com a pessoa física do pesquisador, a Capes se relaciona de forma institucional com as várias universidades e centros de pesquisa. Essa agência conta ainda com um forte programa de cooperação institucional com vários países, com destaque para programas como Fulbright (EUA), DAAD (Alemanha), Cofecub (França), entre outros.

Cabe ainda à Capes uma forte presença no sistema público de ensino universitário via educação à distância, dirigindo a Universidade Aberta do Brasil, hoje com cerca de 140 mil alunos de graduação, bem como importantes programas de apoio à melhoria do ensino básico. Logo, nada a ver com a missão do CNPq. A fusão destas agências é um desserviço a C&T no Brasil. Certamente há entre as duas agências alguma sobreposição, que pode ser resolvida facilmente.

Já a Finep tem missões bem diferentes daquelas exercidas pelo CNPq e pela Capes, não se relacionando diretamente com os pesquisadores e cursos de pós-graduação, mas sim com as instituições no seu mais alto nível hierárquico, sempre tendo como foco principal o apoio à criação, consolidação, manutenção e expansão da infraestrutura física (com construções de médio e grande porte espalhados por todo o país) e da infraestrutura científica, via a concessão de recursos para grandes equipamentos.

Todo esse apoio, feito às instituições públicas e às privadas sem fins lucrativos, é realizado com recursos não reembolsáveis do FNDCT, dirigido por um Conselho Científico de alto nível, sob a presidência do ministro de Ciência e Tecnologia. A invejável infraestrutura científica brasileira é fruto, principalmente, da atuação da Finep.

Por outro lado, essa agência também apoia, com recursos não reembolsáveis, projetos de pesquisa de maior porte em áreas estratégicas relacionadas com os vários fundos setoriais que abastecem o FNDCT, bem como pesquisas tecnológicas desenvolvidas em empresas brasileiras, nesse último caso via recursos de subvenção econômica.

Por último, ela também faz operações de crédito em condições especiais para as empresas desenvolverem novas tecnologias, preferencialmente em associação com centros científicos. Ao longo de sua história, a Finep consolidou uma equipe de analistas que conhece muito bem a vida das empresas de base tecnológica e as instituições acadêmicas mais adequadas para apoiarem o desenvolvimento de seus projetos. Neste sentido, ela é insubstituível, nada tendo com as importantes ações exercidas pelo BNDES.

Na realidade, o ideal seria a associação da Finep e do BNDES em projetos estratégicos de Estado, onde a Finep financiaria o desenvolvimento tecnológico até o protótipo de um produto, e o BNDES financiaria seu escalonamento para o mercado nacional e internacional. Não faltam exemplos de atuação nesse sentido, como o que ocorreu com a Embraer, entre outros.

 

* Wanderley de Souza, Professor titular da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina.


 

UNICAMP APROVA MOÇÃO EM ASSEMBLEIA DE 8 MIL PESSOAS.

Agência Anhanguera de Notícias, 15.10.2019

 

A moção, dirigida à sociedade brasileira, foi aprovada de forma unânime em ato inédito realizado no Ciclo Básico da Unicamp

Divulgação

 

Milhares de pessoas que compõem a comunidade interna da Unicamp ergueram as mãos em um dos momentos mais emocionantes do ato

Em assembleia extraordinária inédita em sua história, que reuniu milhares de alunos, professores e trabalhadores hoje à tarde, a Unicamp aprovou uma moção em defesa da ciência, da educação e da autonomia universitária. A moção, dirigida à sociedade brasileira, foi aprovada de forma unânime em ato inédito realizado no Ciclo Básico da Unicamp. O documento foi elaborado, em consenso, pelos representantes da Reitoria, Associação dos Docentes da Unicamp (Adunicamp), Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU), Diretório Central dos Estudantes (DCE) e da Associação de Pós-Graduandos da Unicamp (APG).

Em um dia histórico, como mencionou o reitor Marcelo Knobel na abertura da Assembleia Universitária Extraordinária, milhares de pessoas que compõem a comunidade interna da Unicamp ergueram as mãos em um dos momentos mais emocionantes do ato. É a primeira vez em 53 anos de história que a Unicamp convoca um movimento nestas proporções. A mobilização marcou a unidade das entidades acadêmicas em torno de uma causa comum. Diversas entidades da comunidade acadêmica puderam se manifestar durante o ato, que reuniu cerca de oito mil pessoas.

A assembleia extraordinária foi realizada no contexto de uma drástica redução de recursos federais destinados ao financiamento de bolsas e demais auxílios à pesquisa, essenciais para milhares de estudantes brasileiros e para a sustentabilidade do sistema nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) registrou este ano um déficit de R$ 330 milhões, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), de R$ 800 milhões, e a Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep) está paralisada pela falta de recursos necessários para honrar compromissos assumidos.

“Nenhum país em crise financeira corta recursos em educação e ciência, ao contrário, são essas áreas que permitem a recuperação e o desenvolvimento econômico”, afirma o reitor da Unicamp, Marcelo Knobel. Segundo os organizadores, a assembleia foi marcada pela união de toda a comunidade em defesa da universidade pública. As informações são da Assessoria de Imprensa da universidade.

 

 Veja a íntegra da moção aprovada 

A comunidade acadêmica da Unicamp manifesta sua indignação diante dos reiterados ataques contra a educação e a ciência perpetrados no Brasil nos últimos meses, e conclama a sociedade a unir-se em defesa da universidade pública gratuita, laica, socialmente referenciada e de qualidade.

Neste momento preocupante da história nacional, caracterizado por uma crise econômica e política sem precedentes, é vital que as universidades públicas reafirmem seu valor e ressaltem a importância da autonomia para o cumprimento de sua missão.

Como se sabe, a missão primordial de universidades como a Unicamp, mantidas com recursos provenientes de impostos, consiste em formar pessoas altamente qualificadas, desenvolver pesquisas de impacto e colocar o conhecimento que produzem à disposição da sociedade por meio de atividades de extensão e assistência.

Ao mesmo tempo, espera-se das universidades públicas que acompanhem as transformações acadêmicas, científicas, tecnológicas, sociais e culturais do mundo contemporâneo, buscando formas de promover a diversidade e a inclusão social em suas comunidades, de ampliar a transparência de seus processos e de atender aos objetivos de desenvolvimento sustentável.

Nada disso é possível sem que se observe o princípio da autonomia, garantido às universidades públicas pelo artigo 207 da Constituição Federal de 1988. Atentar contra a autonomia significa impedi-las de fazer suas próprias escolhas, fundamentais para a criação e manutenção de um ambiente estimulante, desafiador, criativo, dinâmico e, sobretudo, de respeito às pessoas e à diversidade de opiniões.

Os obstáculos que têm sido impostos às universidades públicas – seja por meio de cortes orçamentários diretos, diminuição dos recursos direcionados às agências de fomento ou pressões de natureza econômica, ideológica ou social – colocam em risco a estrutura do sistema nacional de ciência, tecnologia, inovação e ensino, deixando o país sujeito ao retrocesso e ao obscurantismo.

Os argumentos nos quais se baseiam os ataques recentes, fortemente marcados pelo anti-intelectualismo e por um profundo desprezo pelo conhecimento científico, revelam uma visão equivocada da função da educação superior e da ciência. Os recursos de que as universidades públicas necessitam para realizar suas atividades-fim não podem jamais ser encarados como um custo para o Estado, mas sim como um investimento no futuro do país.

No Brasil, assim como em todos os países desenvolvidos, a pesquisa nas universidades é financiada majoritariamente pelo Estado, por meio de suas agências de fomento. Interromper o fluxo de recursos para essas instituições constitui um equívoco que impedirá o país de enfrentar e resolver os grandes desafios sociais e econômicos que se apresentam.

Da mesma forma, as críticas a áreas específicas, como as humanidades e as artes, demonstram uma ignorância absoluta do papel fundamental que a busca por conhecimento exerce no desenvolvimento do pensamento crítico e criativo, bem como na formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento social, à redução das desigualdades e ao respeito à diversidade.

Diante de tudo isso, cabe à Unicamp unir-se às demais instituições que buscam reagir às investidas contra as universidades públicas e, por conseguinte, ao violento processo de desmonte dos sistemas nacionais de educação superior e de ciência, tecnologia e inovação.

A comunidade acadêmica da Unicamp reafirma, aqui, o seu compromisso com a defesa das liberdades de cátedra e de livre organização associativa e estudantil. É preciso, neste momento, zelar pelo patrimônio inestimável que as universidades públicas representam para o Brasil. Urge uma consistente mobilização para evitar que os frutos de tantos anos de investimento de toda a sociedade sejam colocados em risco por uma política que ignora tanto o passado, quanto o presente, e ainda ameaça o futuro do país. A isso, é preciso reagir!

 


 

DOUTOR HONORIS CAUSA DA UFRN RECEBE PRÊMIO NOBEL DE FÍSICA.

Nossa Ciência, 09.10.2019

Michel Mayor foi o primeiro a descobrir um planeta fora do nosso sistema solar.

 

Pesquisador suíço, Michel Mayor, integra consórcio de universidade que atua na construção de novos equipamentos utilizados na busca por novos planetas 

A Academia Real de Ciências da Suécia anunciou nesta terça-feira, 08 de outubro, os nomes dos laureados do Nobel de Física de 2019. Entre os laureados está o doutor honoris causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Michel Mayor, da Universidade de Genebra (Unige), na Suíça. Ele recebeu a honraria conjuntamente com o cientista Didier Queloz, também da Unige, pela descoberta de um exoplaneta orbitando uma estrela do tipo solar. O pesquisador James Peebles, da Universidade de Princeton, EUA, também recebeu o reconhecimento por descobertas teóricas em física cosmológica.

Mayor recebeu o título honorífico da UFRN, em 2006, por indicação do físico José Renan de Medeiros, do Departamento de Física Teórica e Experimental (DFTE), de quem foi orientador e compartilhou algumas publicações. Ele também colaborou em estudos com o professor José Dias, também do DFTE.

Para o reitor José Daniel Diniz, o título concedido a Michel Mayor em reconhecimento a sua contribuição para o progresso das ciências, especialmente, da Astronomia e da Cosmologia, foi ainda uma forma de agradecer pelos relevantes serviços que prestou à UFRN, com quem possui parcerias científicas. “É uma grande honra para a UFRN saber que Michel Mayor foi agraciado com o Prêmio Nobel de Física”, destacou.

Vencedores do Prêmio Nobel de Física de 2019: Michel Mayor (esq.), James Peebles (centro) e Didier Queloz (dir.) — Foto: Reprodução/Twitter Nobel Prize.

O professor José Renan conta que conheceu Michel Mayor em 1985 quando foi para Genebra realizar seu doutorado na área de Astronomia. “Desde então, esta relação se transformou em uma grande amizade”, diz. Tanto que, ao longo desses 34 anos, os dois publicaram 17 artigos científicos juntos, sendo o mais importante o que resultou de sua tese que se trata de um catálogo sobre medidas de rotação de estrelas e detecção de multiplicidade entre as estrelas (que observa se existe um companheiro junto à estrela, seja estelar ou planetário). “Esse trabalho é muito citado porque inúmeros estudos para a busca de exoplanetas utilizaram as medidas que nós apresentamos neste estudo”, afirma.

José Renan diz ainda que quando chegou na Suíça, o professor Mayor estava começando a utilizar o “coravel”, instrumento utilizado para acompanhar e analisar a luz das estrelas e ver se essa luz está sofrendo a influência de um companheiro em sua órbita. Este instrumento foi pioneiro neste campo de pesquisa e é o mesmo que ele utilizou na descoberta do exoplaneta. “Tive o privilégio de ser um de seus primeiros estudantes de doutorado e a responsabilidades de ser um dos primeiros que fez a calibração deste instrumento”, reforça.

O professor da UFRN participou também do grupo de observação com este instrumento, localizado no Observatório de Haute-Provence, no sul da França. “Ele começou a fazer medidas utilizando este instrumento e, cerca de 14 anos depois, finalmente pode anunciar a descoberta do primeiro exoplaneta, orbitando a estrela 51 Pegasus. Ele fez esse anúncio em Florença, na Itália, onde, quase quatro séculos antes, Galileu Galilei fez o anúncio de suas descobertas. Eu participei desse momento, no dia 5 de outubro de 1995, junto com minha família”, completa.

Nesta foto de 2006, Michel Mayor (à esquerda) aparece ao lado do professor José Renan e do ex-reitor Ivonildo Rego – Foto: Arquivo.

 

Além do nosso sistema

A busca por exoplanetas e uma resposta para o enigma da matéria escura – na UFRN é pesquisado pelo Instituto Internacional de Física (IIF) – são os dois grandes problemas colocados há mais de 10 anos pelas principais agências espaciais do mundo como os eixos para o futuro da Física.

Outros grupos estavam envolvidos nas primeiras detecções de planetas, mas sem grande sucesso em sua comprovação. Os trabalhos desenvolvidos pelos três pesquisadores ajudaram a comprovar as detecções de planetas em sistemas estelares de nossa galáxia, ao mesmo tempo em que mudaram a compreensão sobre como surgem estes sistemas. Por causa dessas novas visões, hoje sabemos que a maioria dos planetas surgem em situações diferentes das do sistema solar.

De acordo com o professor José Dias, que lidera um grupo de pesquisa em exoplanetas na UFRN, o trabalho de Mayor abriu uma nova linha na Física, na qual o estudo das estrelas e sua composição se tornou a chave para descoberta de novos planetas, pois suas atmosferas poderiam ser analisadas através de técnicas como a espectroscopia de transmissão.

O prêmio de 9 milhões de coroas suecas (R$ 3,72 milhões) dado aos homenageados será dividido pela metade meio entre o grupo das universidades de Genebra e Princeton. O professor Dias explica que, paralelamente aos esforços realizados por Mayor e Queloz, a contribuição do professor Peebles foi justamente no campo da detecção de elementos. “Peebles trouxe a observação para a cosmologia. Por muito tempo as pesquisas tinham apenas a sustentação teórica. Ele trabalhou nos elementos químicos das estrelas”, explica Dias.

O pesquisador acredita que este Nobel, que já era esperado por muitos, significará uma maior atenção para a área. “Acho que isso abre os olhos das pessoas para a importância da ciência, mas também para verem que existem cientistas também no Brasil descobrindo novos planetas. Na maior parte das vezes dentro das universidades públicas”, conclui.

 

Aqui o pesquisador José Dias aparece ao lado do professor Michel Mayor –  Arquivo/2006.

 

A UFRN no espaço

Mais de 20 anos depois do anúncio do primeiro exoplaneta, pesquisadores do mundo inteiro se depararam com mais de 4 mil novos planetas extra-solares, o que levou a Ciência a uma nova perspectiva na busca pela inquietante pergunta se há vida além da terra. Neste quadro, pesquisadores da UFRN têm protagonismo importante na colaboração para as novas descobertas.

Nos últimos dez anos, a UFRN conseguiu montar uma estrutura que permite uma associação com grupos internacionais nesta busca interestelar. Em parceria com outras universidades internacionais, o Departamento de Física Teórica e Experimental (DFTE) construiu dois instrumentos que, segundo o cientista José Renan de Medeiros, prometem provocar uma revolução na busca por planetas, sobretudo aqueles parecidos com a terra.

O primeiro deles é um “pente de frequências laser”, cujo objetivo é fazer a calibração dos detectores. Este instrumento está pronto e sua construção foi conduzida por um consórcio constituído pela UFRN, Instituto de Astrofísica de Canárias, em Tenerife (Espanha), Instituto Max Planck, em Munique (Alemanha) e o Observatório Europeu para o Hemisfério Sul (ESO). A expectativa da comunidade científica é que ele ofereça as precisões das medidas na detecção de um planeta com as mesmas semelhanças do nosso, capaz de abrigar vida.

Em paralelo, devido ao sucesso na construção deste “pente”, o grupo da UFRN, constituído pelos professores José Renan, Bruno Canto Martins e Izan Leão, começou, dois anos atrás, a construção de um detector parecido com o Coravel, de Michel Mayor, porém, muito mais avançado. O novo instrumento, um espectrômetro chamado de Nirps, que a grosso modo é um “caçador de planetas”, está em sua fase final de ajustes e deve ser entregue em abril de 2020.

Professor José Renan mostra modelo semelhante ao equipamento que está sendo desenvolvido com a colaboração da UFRN – Foto: Wallacy Medeiros.

Coube à UFRN desenvolver o desenho ótico e arquitetura, bem como os softwares deste novo equipamento. Há dois anos, o professor Alan Martins, do Departamento de Engenharia Elétrica (DEE/UFRN), está em Genebra trabalhando como engenheiro principal da parte de software deste equipamento. O mesmo trabalho foi realizado no último ano pelo professor Bruno Canto Martins, do DFTE, que ficou lá por doze meses.

O consórcio que conduz este projeto é constituído pela UFRN, Universidade de Montreal, no Canadá, Universidade de Genebra, Universidade Grenoble, na França, pelo Instituto de Astrofísica de Canárias, em Tenerife (Espanha) e pela Universidade do Porto, em Portugal. “Não sei se o nosso time aqui da UFRN vai descobrir a primeira “terra”, mas, certamente, quem a descobrir vai citar a UFRN como tendo participado do desenvolvimento deste instrumento”, afirma José Renan.

Pesquisadores das universidades envolvidas na construção deste projeto receberam do Observatório Europeu para o Hemisfério Sul 720 “noites” para efetuarem novas buscas por exoplanetas. “Certamente isso trará uma contribuição muito importante, seja para o desenvolvimento da ciência, na transferência de tecnologia para o nosso país, ou para a formação pós-graduada de nossos estudantes aqui na Física e nas engenharias. Acreditamos que a UFRN vai fazer parte da revolução que se anuncia dentro da exoplanetologia”, finaliza José Renan de Medeiros.

 


 

APOIO À CIÊNCIA BÁSICA PERMITE AO BRASIL AVANÇAR EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL.

Elton Alisson, Agência FAPESP, 17.10.2019

 

A inteligência artificial tem avançado exponencialmente nos últimos anos e diversas aplicações práticas têm surgido em todo o mundo. O apoio à pesquisa e à formação de recursos humanos nessa área da Ciência da Computação nas últimas décadas permitirá ao Brasil, agora, avançar e até mesmo liderar inovações em setores como agropecuária e exploração de petróleo em alto-mar.

A avaliação foi feita por especialistas que participaram do lançamento do Centro de Pesquisa em Engenharia (CPE) em Inteligência Artificial, financiado pela FAPESP em parceria com a IBM. O evento foi realizado no dia 4 de outubro, durante o “IBM Research Brasil Colloquium 2019 – os caminhos para IA no Brasil”. Na ocasião, a Universidade de São Paulo (USP) foi anunciada como a instituição parceira e sede do novo CPE.

“Há uma base de pesquisa construída no Brasil nas últimas décadas e muitas empresas sabem que vão se beneficiar dos avanços nessa área, que tornou-se economicamente relevante nos últimos anos em razão do aumento da capacidade de processamento dos computadores”, avaliou Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

De acordo com Brito Cruz, a Fundação financia projetos sobre o tema desde a década de 1970. O primeiro a adotar o termo “inteligência artificial” data de 1975.

Desde então, já foram apoiados mais de 1.100 projetos sobre esse assunto e, nos últimos sete anos, sextuplicou o número de startups nessa área apoiadas pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE).

“Esse é o papel que uma fundação pública deve desempenhar: apoiar novas ideias para ter um número suficiente de pesquisadores que dominam determinados temas e saibam como aplicá-los quando se tornarem relevantes, como foi o caso da inteligência artificial”, disse.

“Agora que esse tema tornou-se importante, é possível mobilizar pesquisadores que na década de 1980 tiveram apoio da FAPESP por meio de bolsas de iniciação científica ou de mestrado, por exemplo, e fazer parcerias em pesquisa com empresas como a IBM para criar centros de pesquisa nessa área”, acrescentou.

Um dos pesquisadores que receberam apoio da FAPESP para sua formação foi Fabio Gagliardi Cozman, diretor do novo CPE e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).

Por meio de projetos apoiados entre o final da década de 1990 e início de 2000, Cozman desenvolveu estudos sobre robôs autônomos e desenvolvimento de ferramentas computacionais para suporte e tomada de decisão na área médica, por exemplo.

“O Brasil tem hoje uma comunidade científica forte em inteligência artificial que pode fazer grandes contribuições em áreas nas quais o Brasil tem chance real de ser líder internacional ou já lidera de alguma forma. Agora, com o novo centro de pesquisa, podemos catalisar os esforços”, disse.

 

Eixos de pesquisa

Algumas das áreas de aplicações da inteligência artificial que o Brasil pode liderar são exploração autônoma de óleo e gás em alto-mar (offshore), agricultura digital – a criação de fazendas sustentáveis, geridas de forma autônoma – e doenças tropicais, avaliou Cozman.

Essas áreas estão inseridas nos eixos de pesquisa do novo centro – recursos naturais, agronegócio, meio ambiente, finanças e saúde –, que são os focos do laboratório de pesquisa da IBM no país.

“Como já temos dados de agricultura digital de praticamente todo o país, talvez possamos acelerar e criar uma nova geração de serviços para essa área. Mas o foco de pesquisa do centro não é estanque. Como terá duração de 10 anos, muita coisa pode mudar nesse período”, disse Ulisses Mello, diretor do Laboratório de Pesquisa da IBM Brasil.

Outro eixo de pesquisa transversal do centro será inteligência artificial e sociedade. Para cobrir esse tema, além de pesquisadores das áreas das Engenharias, Ciências da Computação, Matemática, Medicina e Agricultura, entre outras, o CPE terá a participação de pesquisadores das Ciências Humanas, de áreas como Ciências Políticas, Direito e Economia.

“Nosso objetivo é levar a pesquisa em inteligência artificial no país a um novo patamar, com o intuito de beneficiar a sociedade. Estamos interessados em discutir como essa tecnologia pode ser melhor aproveitada pela sociedade”, afirmou Cozman.

A expectativa é que os estudos feitos no âmbito do tema sobre inteligência artificial e sociedade possam contribuir para a regulamentação da área, como pretende um projeto de lei em tramitação no Senado.

“As pesquisas feitas no âmbito do CPE podem contribuir para que esse debate no Brasil aconteça de forma mais educada e organizada, de modo que o país possa elaborar uma legislação adequada sobre o assunto. Quando não se tem muito conhecimento sobre um determinado tema, em geral, são feitas legislações muito restritivas”, disse Brito Cruz.

 

Colaboração plena

O centro terá a participação de mais de 60 pesquisadores, de diversas unidades da USP e das universidades Estadual Paulista (Unesp) e Estadual de Campinas (Unicamp), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Centro Universitário FEI e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). As pesquisas serão feitas em estreita colaboração com os pesquisadores da IBM.

“Queremos colaboração plena, no sentido de colocar nossos pesquisadores junto com os das universidades participantes do consórcio, de modo a desenvolver projetos que sejam realmente em conjunto”, afirmou Mello.

“Isso permitirá unir as competências em pesquisa básica das universidades com as de aplicação da indústria, que enfrenta problemas reais no dia a dia. Há poucas colaborações em pesquisa entre universidade e empresa que funcionam dessa forma”, avaliou.

A pesquisa colaborativa plena entre universidades e empresas é justamente uma das principais missões dos CPEs, ressaltou Brito Cruz.

Algumas das exigências sobre o funcionamento do centro é que o diretor seja um pesquisador da universidade e o diretor-adjunto um pesquisador da empresa, que participe ativamente das decisões cotidianas.

“Não é uma pesquisa sob contrato, em que a empresa dá o recurso, esquece o assunto e, 10 anos depois, vai lá verificar os resultados. Os pesquisadores da universidade e da empresa vão fazer as descobertas e apresentar os resultados juntos”, afirmou Brito Cruz.

O CPE fará parte do Centro de Inovação Inova USP, localizado na Cidade Universitária, em São Paulo, e deverá iniciar as atividades em 2020.

Com financiamento de até 10 anos, FAPESP e IBM reservarão, cada uma, até US$ 500 mil anualmente para implementar o programa, que contará com avaliações periódicas. Já a USP, por sua vez, investirá até US$ 1 milhão por ano em instalações físicas, laboratórios, professores, técnicos e administradores para gerir a unidade, entre outros custos.

A definição do cronograma de construção do espaço e outros detalhes do projeto serão definidos em acordo previsto para ser assinado até o fim de 2019.

 


 

COMPUTADORES E SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS.

Reuber Brandão*, O Eco, 13.10.2019

Cada peça importa. Foto: Magnascan/Pixabay.

 

Olhe com atenção para o aparelho que você tem em frente de seu rosto. Seja ele um notebook ou um celular, ele possui diversas capacidades, extremamente valorizadas por você. Esse equipamento permite que você veja fotos, se conecte com a rede mundial de computadores, assista centenas de filmes, que você ouça suas músicas preferidas, receba notícias, mantenha contato com pessoas distantes. Por ele, você se alegra, se inspira, se manifesta, se entristece, se apaixona. Certamente não é apenas uma máquina. É algo mais, ao qual você se apega fortemente. 

Agora imagine que você desmonte, com zelo, minúcia e cuidado, o seu equipamento, peça por peça. Você pega todos os componentes, do menor ao maior deles, do parafuso mais ordinário ao processador mais complexo, e coloca cada uma dessas peças em uma caixa. Agora olhe para essa caixa com atenção. Todas as peças estão nessa caixa. A bateria, os processadores, a placa de vídeo, a placa de som, o monitor, as caixas de som, os botões. Todos permanecem ali, inertes. Você não tem mais acesso à internet, não escuta músicas, não recebe a ligação de pessoas queridas. Apesar de todas as peças estarem ali, definitivamente você não tem um computador. Afinal de contas, se esse amontoado de peças não é capaz de fazer o que se espera de um computador, você tem apenas um amontoado de peças. Estão todas as peças lá, mas nada acontece.

No entanto, quando você reúne novamente essas peças de forma organizada, considerando a função de cada peça, a composição de cada parte, sua posição no sistema e a estrutura do seu aparelho, quando você organiza a passagem da energia da bateria pelas peças, quando as peças recebem, utilizam e transmitem energia, você novamente tem um computador e tudo aquilo que você espera de um computador. 

O som, a imagem, a luz, o processamento, a conectividade, o armazenamento e diversas outras funções executadas pelo seu computador são propriedades emergentes de seu sistema computacional. Propriedades emergentes surgem como resultado da interação de diferentes partes de sistemas complexos. Elas nos mostram a importância da interação entre os diferentes componentes do sistema, pois o resultado dessa interação é maior que a simples soma das partes.

“Uma pessoa que vê um computador pela primeira vez é simplesmente incapaz de compreender todas as possibilidades do aparelho olhando apenas para a aparência das peças.”

A emergência de propriedades inesperadas é uma das principais características dos sistemas complexos. Uma pessoa que vê um computador pela primeira vez é simplesmente incapaz de compreender todas as possibilidades do aparelho olhando apenas para a aparência das peças. É necessário tempo, paciência e muita experimentação para entender os princípios básicos do funcionamento de um computador. No entanto, o computador terá todas as suas funcionalidades disponíveis, mesmo que você não saiba quais são essas possibilidades. 

Agora imaginemos que, por alguma razão, você resolva eliminar algumas peças de seu computador. Tirando alguns dos parafusos que seguram a carenagem, pouca coisa acontece no seu computador. Parafusos são abundantes e ordinários, assim como são os botões do teclado. Mas se você retirar todos os parafusos, você acaba causando mudanças na aparência do computador, mas ele ainda funciona. Você continua tirando peças. Dependendo das peças que você remove, ele perde algumas funções, mas continua mantendo outras. Dependendo da quantidade de peças que você remove, ele já apresenta problemas. Dependendo do que você retira, seu sistema está comprometido. Não é por acaso que o um dos maiores pesadelos de quem abandona seu amado computador no conserto é que técnicos desonestos roubem ou troquem componentes essenciais e valiosos. 

Assim como computadores, os ecossistemas também dependem da estrutura, função e composição de seus componentes para produzirem suas propriedades emergentes. Todos se preocupam (ou deveriam) com os serviços ecossistêmicos, mas poucos discutem que serviços ecossistêmicos são uma das propriedades emergentes dos ecossistemas e que o provimento desses serviços depende diretamente da manutenção do complexo sistema ecológico. A forma como os organismos capturam, produzem, organizam e transferem energia na natureza e como se organizam nesse processo, formam a geratriz das propriedades emergentes dos ecossistemas, incluindo aí os serviços ecossistêmicos.

As árvores estão lá, mas isso significa que a floresta está saudável? Foto: Rafael Baeta/Wikiparques.

 

Um besouro que deposita seus ovos em uma esfera de excrementos não está, de forma alguma, preocupado se está incrementando a dinâmica de incorporação de matéria orgânica no solo, nem um predador que captura uma presa doente se pergunta se está evitando a emergência de alguma epidemia, nem um morcego faminto que visita flores com néctar imagina que irá garantir a fecundação de flores. No entanto, apesar disso, o solo se torna mais fértil, a população de presas continua saudável e novos frutos são produzidos. Nesse processo, as peças estão ligadas por trocas de matéria e, consequentemente, de energia e essa é chave para que tudo ocorra.

Diversos estudos têm se ocupado em mensurar a escala de grandeza e a valorar serviços ecossistêmicos tais como a polinização, a produção de solo, a infiltração e evaporação de água, o controle de pragas. No entanto, diversas pessoas que eventualmente leem a palavra “polinização”, que é um termo aparente intuitivo e popular, não percebem a real dimensão dessa propriedade dos ecossistemas. A polinização envolve a atividade de diversas espécies de aves, de uma diversidade fantástica de morcegos, de incontáveis insetos, de uma infinidade de plantas, além das especializações morfológicas específicas entre esses organismos para que o processo aconteça, com a maior eficiência possível, mesmo que o interesse dos animais (obter recursos alimentares) sejam completamente diferentes dos interesses das plantas (dispersar células germinativas). E essa relação entre diferentes elementos do mundo natural gera um processo essencial para a reprodução de uma enormidade de plantas, muitas das quais nos fornecem alimento. Mesmo uma propriedade ecossistêmica aparentemente simples, é extremamente complexa e valiosa. Segundo um relatório produzido pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviço Ecossistêmicos, apenas a atuação dos polinizadores geraram, para a agricultura nacional, mais de 40 bilhões de reais em 2018

“Mesmo coleções de organismos vivos, como observamos em zoológicos, bancos de germoplasma, sementeiras ou orquidários, por exemplo, são incapazes (ou praticamente incapazes) de exercer qualquer serviço ecossistêmico. ”.

De forma análoga, vamos imaginar que fôssemos capazes de separar todos os elementos dos ecossistemas, um a um. Guardamos individualmente esses componentes em caixas, frascos e gavetas, organizados por tipo, por homologias, por função, por tamanho e por afinidade evolutiva. Apesar do enorme conhecimento adquirido por tal atividade, que permite (e permitiu) aprender muito sobre um ecossistema, esses elementos separados já não serão capazes de realizar nenhum serviço ecossistêmico. Mesmo coleções de organismos vivos, como observamos em zoológicos, bancos de germoplasma, sementeiras ou orquidários, por exemplo, são incapazes (ou praticamente incapazes) de exercer qualquer serviço ecossistêmico. O ecossistema vai produzir propriedades emergentes quando suas peças interagirem na captura, transformação, armazenamento e transmissão de energia em um sistema amplamente interconectado.

Agora, imaginemos que, por alguma razão obscura, alguém decida remover componentes dos ecossistemas. De forma análoga a outros sistemas complexos, pouca mudança ocorre quando você retira uma ou algumas poucas peças dos componentes mais abundantes. No entanto, da mesma forma que acontece com um computador canabalizado em uma assistência técnica desonesta, a capacidade do sistema produzir propriedades emergentes irá depender da intensidade de remoção de peças, da extensão dessa remoção e de quais peças são removidas. Muitos sistemas simplesmente podem deixar de existir e, com eles, os serviços ecossistêmicos que são gerados. É simples assim. 

Olhe novamente para o seu computador. Imagine que ele perdeu 10% de todas as peças. O que você espera da capacidade desse equipamento continuar “trabalhando” (i.e. continuar produzindo propriedades emergentes)? Não muito, acredito eu. No entanto, é exatamente essa porcentagem de peças que a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos estima estar ameaçada de desaparecimento no Planeta. Se existe na Terra algo em torno de 10 milhões de espécies, estamos falando no desaparecimento de 10% das plantas e animais do planeta. Não se sabe quais serão os efeitos da perda desses componentes nas propriedades emergentes dos ecossistemas naturais e na manutenção da qualidade da vida humana e não-humana em futuro próximo. 

Comércio de barbatana de tubarão é responsável pela morte de milhões de predadores por ano. Foto: Jeso Carneiro/Flickr.

 

No entanto, nenhuma analogia é perfeita. No caso de um computador com problemas, podemos adquirir peças novas no mercado, substituir as peças faltantes e manter todas as possibilidades do equipamento, até que a obsolescência programada determine seu destino final, gerando mais lixo tecnológico. Embora possamos atuar, através de técnicas de manejo, no funcionamento dos ecossistemas, não podemos simplesmente ir no mercado e comprar um predador topo de cadeia para substituirmos os predadores eventualmente perdidos (mas leia um pouco mais sobre a interessante discussão sobre os parques do pleistocenoMegafauna and ecosystem function from the Pleistocene to the Anthropocene; Pleistocene Park: Does re-wilding North America represent sound conservation for the 21st century?; The Pleistocene re-wilding gambit, Pleistocene Rewilding: An Optimistic Agenda for Twenty‐First Century Conservation.

A consequência é que precisamos nos preparar, como humanidade, para lidarmos com problemas no fornecimento de serviços ecossistêmicos. Tal situação é ainda mais alarmante quando pensamos do ponto de vista de falência de sistemas agrícolas. É estimado que apenas a polinização responda por 577 bilhões de dólares por ano na produção agrícola mundial, mas cerca de 16% dos animais polinizadores estão ameaçados de desaparecimento.

Alguém pode perguntar: “Mas porque o colapso dos ecossistemas ainda não aconteceu?”. Essa é uma boa pergunta e envolve também propriedades emergentes. A regeneração de áreas degradadas, a resiliência de comunidades e ecossistemas, a depuração da poluição em rios e mares, a dinâmica de populações, a delimitação de nichos ecológicos fundamentais e realizados, a migração e colonização, são todas propriedades emergentes dos ecossistemas e são, em diferentes escalas, responsáveis por evitarem que ocorra o imediato colapso dos ecossistemas naturais. 

Além disso, a natureza conta com a mais incrível nanotecnologia conhecida, onde diversos processos observados em escalas amplas, ocorrem também em escalas microscópicas, além de outros processos exclusivos, como a interação entre elementos químicos e bactérias, a mineralização da matéria orgânica e fantásticas relações mutualísticas. 

Devido à interação entre propriedades dos sistemas atuando em macro e micro escalas, os ecossistemas possuem diversos pontos de “equilíbrio”. Mesmo ecossistemas extremamente empobrecidos podem continuar apresentando propriedades emergentes e parecer, à primeira vista, que está tudo bem. No entanto, ecossistemas empobrecidos irão prover serviços ecossistêmicos empobrecidos, empobrecendo também, a longo prazo, a experiência humana sobre a Terra.

“O fato de um computador estragado ligar quanto colocado na tomada não significa que ele vá funcionar a contento”.

Já os sistemas complexos produzidos pelo ser humano não apresentam essa capacidade de criar diferentes estados de “equilíbrio” antes de seu colapso final. Esses sistemas tenderão ao colapso de suas propriedades bem mais rápido. Mesmo a Economia Global, um dos únicos sistemas complexos produzidos pelo ser humano capazes de criar diferentes estados de “equilíbrio” mesmo quando extremamente empobrecidos, tenderá a colapsar rapidamente com o colapso dos ecossistemas. Por outro lado, estados de equilíbrio em sistemas paupérrimos não significam muita coisa e a Economia depende da constante produção e troca de dinheiro (ou outros recursos) para poder funcionar. No entanto, moedas são apenas um construto humano criado artificialmente que tenta representar, de forma precária, a troca de Energia nos Ecossistemas. Além disso, praticamente toda a produção de riqueza humana depende da transformação de recursos naturais…

O fato de um computador estragado ligar quanto colocado na tomada não significa que ele vá funcionar a contento, que ele irá executar o que se espera dele. Da mesma forma, é comum ouvirmos pessoas equivocadas dizerem que os ecossistemas naturais com os quais têm contato estão funcionando a contento pela simples presença de alguns elementos naturais. Você pode chegar em um ambiente e ver plantas e animais e achar que a natureza está em “equilíbrio” ou em “harmonia”, quando os componentes que você enxerga são espécies invasoras (talvez o melhor análogo natural para os vírus computacionais) em um ambiente degradado ou apenas os últimos indivíduos de uma população sofrendo constante declínio populacional em um ecossistema esquálido. 

Humanos são conhecidos pela capacidade de adaptação a diferentes condições. Vejamos como iremos nos adaptar à perda das propriedades emergentes sobre as quais construímos nossos ecossistemas artificiais. Que a Economia tenha piedade de nós.

 

* Reuber Brandão, Professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília. Membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.


 

EXPLORAÇÃO DA AMAZÔNIA DEVE SE BASEAR NO CONHECIMENTO DA NATUREZA.

Elton Alisson,  Agência FAPESP – Agencia FAPESP, 15.10.2019

 

O modelo de exploração econômica da Amazônia praticado nas últimas décadas tem causado o aumento do desmatamento e não tem se revertido em melhoria na distribuição de riqueza ou em benefícios econômicos e sociais para as populações locais.

A fim de mudar esse quadro e assegurar a permanência da floresta e o uso sustentável de seus recursos é preciso implementar um novo modelo de desenvolvimento econômico para o bioma baseado no conhecimento da natureza – a chamada bioeconomia.

A avaliação foi feita por pesquisadores participantes do sétimo episódio de 2019 do programa Ciência Aberta com o tema “Amazônia”, lançado nesta terça-feira (15/10).

Participaram do debate Paulo Moutinho, pesquisador sênior e cofundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam); Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG); e Ricardo Abramovay, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP.

“Ainda tem sido replicado na Amazônia o mesmo modelo existente há 25 anos de uso e ocupação da terra – em boa parte de forma ilegal, pela agropecuária, exploração madeireira e o garimpo –, que só tem gerado destruição”, disse Moutinho.

“É preciso que a sociedade brasileira faça uma escolha definitiva do modelo de desenvolvimento econômico que se quer para a Amazônia porque o que está em vigor só tem gerado concentração de riqueza e de terra e desmatamento da floresta”, avaliou.

De acordo com Abramovay, apesar da riqueza natural da Amazônia, que possui entre 10% e 20% da biodiversidade do planeta, a população da região apresenta os piores indicadores sociais do país.

“Até hoje, a Amazônia tem sido uma espécie de almoxarifado em que o Brasil busca matéria-prima e energia barata, sem que isso se reverta em benefícios para as pessoas que vivem na região. Mas existem alternativas que podem permitir, sobretudo às populações tradicionais da Amazônia, se transformar em protagonistas de mudanças”, avaliou.

Uma das alternativas seria transformar a Amazônia em um centro de pesquisa ou “Vale do Silício da biodiversidade”, de modo a possibilitar a exploração econômica sustentável dos recursos da floresta e a descoberta de moléculas e de insumos de interesse das indústrias farmacêutica e de cosméticos, exemplificou o pesquisador.

Para isso, seria preciso fazer investimentos maciços em infraestrutura – que não significa abertura de estradas –, prover conexão à internet generalizada na região, permitir o acesso de pesquisadores para fazer estudos sobre biodiversidade e investir na formação de pessoas, indicou Abramovay.

“O Brasil está na retaguarda da inovação global e como o país possui a maior biodiversidade do planeta é nela que pode apostar para recuperar o tempo perdido”, avaliou.

Algumas das atividades econômicas que também poderiam ser fomentadas na região são a piscicultura – a criação de peixes em cativeiro – e o turismo ecológico, que cresce a taxas de 15% ao ano e está estagnado no Brasil, sobretudo na Amazônia, disse o pesquisador.

“Todas essas atividades geram emprego e renda por meio do uso de conhecimento da natureza e não da destruição”, afirmou.

Esse novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia não exclui as atividades já praticadas na região, mas propõe seu redimensionamento, ponderou Moutinho.

Boa parte do desmatamento ilegal da floresta está relacionada ao avanço da pecuária extensiva na Amazônia, que ocupa grandes áreas com menos de uma cabeça de gado por hectare.

Ao incentivar a intensificação, aumentando o número de cabeças de gado por hectare, seria possível liberar para a agricultura 40 milhões de hectares de áreas já desmatadas, que foram convertidas em pastagens e posteriormente abandonadas, disse o pesquisador.

“Uma boa parte do avanço da plantação de grãos na Amazônia ocorre hoje em áreas que eram de pastagem”, afirmou Moutinho.

Como muitos pecuaristas não têm incentivo para fazer pecuária intensificada eles vendem a terra para fazendeiros plantarem soja e movem o gado para a floresta, explicou.

“Há um ciclo dos pecuaristas na Amazônia de moverem o gado para a floresta para continuar produzindo porque não têm incentivos para fazer intensificação. É preciso um plano nacional de intensificação da pecuária para reduzir o avanço dessa atividade sobre a floresta”, avaliou.

 

Desmatamento zero

Na opinião de Artaxo, é possível atingir o desmatamento zero na Amazônia sem causar prejuízos para a produção agrícola e isso quase aconteceu em um período recente.

Em 2004, foram desmatados 28 mil quilômetros quadrados (km²) da floresta e, em 2012, esse número caiu para 4 mil km². Nesse período, o país foi o que mais contribuiu para a redução das emissões de gases de efeito estufa no mundo e a produção agrícola aumentou.

“Isso mostrou que não é preciso desmatar para aumentar a produção agrícola e que é possível reduzir o desmatamento a zero, que não custa caro e é a melhor medida para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, a Amazônia possui o maior reservatório de carbono em área continental no mundo. Além disso, é uma grande processadora do vapor d’água oriundo do oceano Atlântico tropical, que forma as chuvas que caem nas partes central e Sul do Brasil e irrigam as lavouras do país.

Dessa forma, a aceleração do desmatamento da floresta contribuirá não só para aumentar as emissões de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, e intensificar o aquecimento global, como também coloca em risco o agronegócio brasileiro.

“O pior uso que se pode fazer da Amazônia é queimar a floresta para criação de áreas de pastagem e transformá-la em gases de efeito estufa”, avaliou Artaxo.

A fim de garantir o desmatamento zero da floresta amazônica é necessário apenas cumprir a lei, punindo os desmatadores ilegais, apontou Abramovay.

“Só 1% das multas aplicadas para quem exerceu atividades de desmatamento ilegal é pago. E, agora, até essas multas deixaram de ser pagas”, afirmou.

Do total de 5,5 milhões de km² da floresta amazônica, 20% (1 milhão de km²) já foram desmatados.

A maior parte do desmatamento – 70% – está concentrada em grandes faixas ao longo das estradas que cruzam a Amazônia, destacou Moutinho. “Não estou dizendo que não tem de ter estradas lá, mas é preciso uma outra compreensão do desenvolvimento da região que não ocorreu no início de sua ocupação”, ponderou.

O episódio “Amazônia” do programa Ciência Aberta teve a participação de alunos das universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp), do Instituto Federal de São Paulo, campus avançado de Jundiaí, Fatec de Itapetininga e da Escola Estadual Prof. Manuel Ciridião Buarque.

 


CIDADES INTELIGENTES: CONHEÇA QUATRO PROJETOS PELO MUNDO.

MundoGEO, 15.10.2019

 

O desenvolvimento sustentável e planejado de cidades pelo planeta é um desafio. A tendência é esse cenário ser ampliado pela crescente urbanização

 

Só na América do Norte, mais de 81% das pessoas estão em áreas urbanas. A América Latina e Caribe praticamente igualam os EUA com 80% de urbanização, sendo a Europa a terceira colocada, com 74%. Na Ásia o índice está em (49%). Já na África, (41%).

O contexto incentiva a construção de megaprojetos de cidades inteligentes, construídas do zero e tendo por trás grandes companhias ou marcas. Conheça abaixo algumas dessas cidades fantásticas.

 

Japão – Fujisawa Sutainable Smart Town 

Idealizada pela Panasonic e outras sete empresas japonesas e uma norte-americana, a Fujisawa Sutainable Smart Town (Fujisawa SST) é totalmente sustentável, ecológica e muito humanizada. Com investimento estimado de R$ 1,3 bilhões, a cidade conta com rede elétrica inteligente, energia solar e baterias em cada casa, iluminação pública interconectada, além de vias públicas projetadas para bicicletas, pedestres e veículos elétricos. Os moradores ainda podem acompanhar os gastos gerados por aplicativo e identificar qual equipamento consome mais energia.

Carros movidos a combustível não são bem-vindos à cidade. Há smart spots, lugares onde os moradores podem alugar bicicletas e veículos elétricos. As reservas podem ser feitas por meio do aparelho televisor da sala, por exemplo.

 

 

Brasil – Smart City Laguna e Smart City Natal: bem-estar humano

O Grupo Planet pretende implantar 10 cidades inteligentes no Brasil até 2022. Duas cidades já foram inauguradas: a Smart City Laguna, no Ceará, e a Smart City Natal, no Rio Grande do Norte. Com projeto que une inovação, tecnologia, sustentabilidade, planejamento urbano moderno e soluções de mobilidade, as cidades foram pensadas com alto padrão. Porém, os valores são acessíveis.

Há espaços com várias atividades gratuitas abertas também à comunidade residente no entorno da cidade. São oferecidos cursos de inglês e empreendedorismo, biblioteca e cinema, por exemplo.

 

 

Malásia – Forest City

Projetada para abrigar 700 mil pessoas, a Forest City, da Malásia, terá 14 quilômetros quadrados, quatro vezes maior que o Central Park de Nova York.

O empreendimento não terá carros. Arranha-céus cobertos de plantas buscam reduzir o ruído e a poluição do ar. A obra tem conclusão prevista para 2035 e poderá gerar 220 mil empregos.

 

 

Siri Lanka – Porto de Colombo

A Cidade do Porto de Colombo será construída em terras recuperadas e estende artificialmente a costa do Sri Lanka em mais de 200 hectares no Oceano Índico, na rota de navegação mais movimentada do mundo. Ela está estrategicamente posicionada para se tornar um dos mais importantes centros de investimentos independentes. O empreendimento poderia impulsionar a posição econômica do Sri Lanka no mundo.

Os desenvolvedores, Belmont Brothers, afirmam que a cidade se concentrará na qualidade de vida e na conectividade à internet. São esperados 182 mil habitantes e a presença de carros autônomos e semáforos inteligentes para minimizar o congestionamento.

 

Geo nas Cidades Inteligentes

O uso de Soluções Geoespaciais para Cidades Inteligentes estará em destaque dentro da programação do evento DroneShow e MundoGEO Connect PLUS , que acontece de 5 a 7 de novembro no Hotel Meliá Ibirapuera, em São Paulo. Vagas limitadas!

 


 

BOLSAS DE PÓS-GRADUAÇÃO NA ALEMANHA.

DAAD, GERMAN ACADEMIC EXCHANGE SERVICE, 15.10.2019

 

O Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) está com chamada aberta para bolsas de curta duração para mobilidade de pesquisadores na Alemanha. Estudantes com mestrado, doutorado ou pós-doutorado podem se inscrever para bolsas de um a seis meses. As inscrições variam conforme período pretendido: até 11 de novembro de 2019 ou até 1 de abril de 2020Saiba mais!

Berlin Mathematical School abre chamada para doutorado 

Berlin Mathematical School (BMS) é o instituto de pós-graduação do cluster de excelência MATH+, que reúne a colaboração dos departamentos de matemática das universidades de Berlim: Freie Universität (FU), Humboldt-Universität (HU) e Technische Universität (TUB). O instituto abre vagas para doutorado, com submissão das candidaturas até 1º de dezembroSaiba mais.

Chamada TUM: bolsas de estudo em pós-doutorado

Interessados em uma bolsa de pós-doutorado na Universidade Técnica de Munique têm até o dia 31 de outubro para se inscreverem na Research Opportunities Week (ROW), que seleciona 50 jovens pesquisadores para uma semana de imersão na Alemanha. Como consequência, poderão se candidatar à bolsa de um ano de pós-doutorado da TUM University Foundation Fellowship (TUFF). Saiba mais!

Bolsas de pós-graduação em áreas artísticas

Candidatos das áreas de arquitetura, música, artes cênicas, dança, artes plásticas, design, comunicação visual e cinema têm oportunidades em cursos de pós-graduação na Alemanha por meio de bolsas de estudos concedidas pelo DAAD. Os prazos de inscrição à bolsa variam de acordo com cada área, compreendidos entre 30 de setembro e 30 de novembro de 2019Saiba mais!

 


  

José Antônio Aleixo da Silva (Editor)
Professor titular da DCFL/UFRPE
Conselheiro da SBPC

Paulo Henrique PontesDesigner do Jornal

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